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Estátua de famoso jornalista italiano vandalizada em Milão

Inscrição "Racista, violador" foi marcada com tinta preta na base da estátua dedicada a Indro Montanelli.
Lusa 14 de Junho de 2020 às 18:57
Estátua de Indro Montanelli foi vandalizada
Estátua de Indro Montanelli foi vandalizada FOTO: DR
A estátua de um famoso jornalista italiano em Milão foi borrifada com tinta vermelha por desconhecidos, que o acusaram de "racismo", atraindo hoje uma condenação política quase unânime.

A inscrição "racista, violador" foi marcada com tinta preta na base da estátua dedicada a Indro Montanelli, no jardim com o mesmo nome, no centro de Milão, segundo a agência France-Presse.

É a primeira estátua vandalizada em Itália na onda de manifestações desencadeadas em todo o mundo, depois da morte do afro-americano George Floyd, asfixiado pelo joelho de um polícia branco no seu pescoço, no passado dia 25 de maio.

Esses protestos antirracistas deram origem no mundo vandalização de várias estátuas de figuras controversas, como o navegador do século XV Cristóvão Colombo.

O grupo "Rete Studenti Milano e Lume" ("Rede de Estudantes Milão e Lume") que se apresentou como um "coletivo universitário" da capital da Lombardia, reivindicou hoje a operação nas redes sociais, ao publicar um vídeo de 40 segundos no qual dois indivíduos encapuzados atiraram latas de tinta vermelha para a estátua de bronze, antes de bombardear o pedestal.

"Um colonialista que fez da escravidão uma parte importante da sua atividade política não pode e não deve ser comemorado em praça pública", justificou a organização, pedindo a remoção da estátua.

"Num momento mundial tão importante, pensamos que personagens como Indro Montanelli são prejudiciais à imaginação de todos", acrescentaram.

A polícia está a investigar, a pedido do escritório do procurador, segundo a agência de notícias AGI.

A estátua foi limpa durante o dia pelos serviços da cidade, aos quais se juntaram transeuntes e moradores do bairro indignados com o ato "absurdo" de "vandalismo".

"É um absurdo ser contra as pessoas que construíram a história de Itália e a história em geral", afirmou um dos moradores.

"Houve episódios um tanto questionáveis, mas foram quando ele era muito jovem e num contexto histórico muito particular. Isso não justifica um ato tão feio", disse outro dos locais, um advogado de 61 anos.

Fundador do jornal Il Giornale, Indro Montanelli (1909-2001) é um famoso jornalista e ensaísta italiano, que passou notavelmente pelo diário Corriere della Sera.

Classificado à direita, o homem classificava-se a si mesmo como "anticomunista" e "anarco-conversador", o que o levou a ser rotulado como "fascista" pela esquerda italiana nas décadas de 1970 e 1980, tendo até escapado a uma tentativa de ataque das Brigadas Vermelhas, em 1977.

Em 1935, voluntariou-se para a guerra colonial do ditador fascista Benito Mussolini, na Eritreia.

Nos últimos dias, uma associação milanesa "antifascista", I Sentinelli, exigiu a remoção da estátua, acusando o jornalista de ter casado com uma criança na Etiópia, durante a colonização italiana, episódio do qual Montanelli nunca se escondeu.

"O ódio e a malícia estão a dominar cada vez mais a confrontação civil e democrática. Devemos preocupar-nos seriamente com isso", condenou o presidente da região da Lombardia, Attilio Fontana, de centro esquerda.

"Ignorar ou rescrever a história é o novo ‘hobby’ dos extremistas", apontou Andre Marcucci, do Partido Democrata, à esquerda.

Do outro lado, Antonio Tajani, da Força Itália, disse que "sujar a estátua de Montanelli é um gesto de covardia", enquanto o líder da extrema-direita, Matteo Salvin, criticou os "ignorantes e covardes" responsáveis pelos danos, e Giorgia Meloni, criadora do partido pós-fascista Fratelli d’Italia atacou os "novos talibãs do antirracismo".

"A estátua deve ficar onde está. Ele foi um grande jornalista, que lutou pela liberdade de imprensa. Vamos exigir uma vida santa? Mas, quando julgamos as nossas vidas, podemos dizer que a nossa vida é impecável? As vidas devem ser julgadas em toda a sua complexidade", reagiu nas redes sociais o autarca de Milão, Beppe Sala.

No ano passado, a mesma estátua já tinha sido coberta com tinta cor-de-rosa durante uma manifestação feminista.
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