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Correio da Manhã

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"Se têm mais de 75 anos deixam-nos morrer": a revolta do chefe da LCR Honda após perder o pai

Oscar Haro diz que o seu progenitor, diagnosticado com coronavírus, morreu pela falta de ventiladores.
Record 23 de Março de 2020 às 17:11
Espanha vive uma das situações mais dramáticas à escala global na luta contra o coronavírus, com quase 30 mil casos reportados e já 1800 mortos. Um momento dramático, que se agrava de dia para dia e que afeta tudo e todos, independentemente da sua posição na sociedade. Um dos mais recentes a chorar a morte de um ente querido foi Oscar Haro, o chefe da equipa LCR Honda, a formação satélite da Honda no Mundial de MotoGP, que na sexta-feira viu partir o seu pai poucos dias depois de ter testado positivo à Covid-19.

Em pleno momento de luto, o diretor da equipa Honda quis partilhar o seu relato e, num vídeo longo mas bastante claro, deixa duras críticas ao governo espanhol, mas também aos seus próprios compatriotas, que no seu entender estão a ser egoístas no meio deste drama. Oscar Haro considera mesmo ser inadmissível que o seu pai "depois de descontar desde os 15 anos" tenha de morrer por não haver um ventilador para o salvar.

O relato é longo (o vídeo tem seis minutos), mas lê-lo na totalidade ajuda a perceber de uma forma bem clara a dimensão que o problema está a tomar no país vizinho.

"Creio que 80% do país não sabe como está realmente Espanha. Graças a Deus entendo como são as pessoas. Mas não entendo como um país tão grande como a China ou como Itália, que tiveram de fechar as portas, continua a ter pessoas a morrer e nós achemos que somos melhores do que eles. Vejo os demais com as portas fechadas e as pessoas em casa. Não entendo por que razão havia gente nas ruas num domingo, mas acredito que se tivesse havido um pouco mais de informação poderíamos ter sido mais inteligentes. Seguramente que a esta hora o meu pai não estaria morto."

"Na segunda-feira, o meu pai e a minha mãe deram positivo ao coronavírus. O meu pai não o voltei a ver. Levei-os às urgências. A minha mãe pediu para receber alta porque queria cuidar do meu pai e a ele isolaram-no até morrer hoje [sexta-feira]. Não entendo por que razão morreu. Não entendo como uma pessoa como o meu pai, que trabalha desde os 15 anos, a descontar sempre, morre porque não há ventiladores, porque não o poderem tratar mais, pois há uma lei que diz que com mais de 75 anos já não interessa cuidar deles e deixam-nos morrer. Está a morrer gente a cada passo."

"Andamos a dizer que temos uma segurança social incrível quando não têm nem luvas, batas ou máscaras para usar. Não entendo como o meu pai, que está desde os 15 anos com a sua mulher, não se pôde despedir dela. Só sei que vejo dinheiro por todos os lados, como sempre, e que estamos a deixar morrer uma geração que fez este país sair da guerra, que trabalhava 16 horas por dias para alimentar os seus filhos e criar uma família. Famílias essas com quatro ou cinco filhos e não como agora, que temos um ou dois filhos e já não queremos mais, porque o nosso egoísmo não nos faz ver mais do que aquilo que nos interessa. Estamos a esquecer essa geração. Estão a morrer e não nos estamos a aperceber. Isto não é um vírus. Não é uma gripe. Não. Venho de ir ver o meu pai, morto, e a minha mãe fechada em casa. Venho aqui e não posso pegar na minha filha porque tenho medo, pois só tem três semanas."

"Não entendo por que o meu pai não vai poder levar a sua neta a ver os tomates da horta. Não entendo muitas coisas, mas acima de tudo não entendo o egoísmo do ser humano. Só entendo ma coisa: temos o melhor país do Mundo, garanto-vos. Dei a volta ao Mundo umas cem vezes, vivi em muitos países e garanto que temos o melhor país do Mundo. Mas vamos cuidar dele, por favor. Senhores políticos, não o destruam. Parece-me uma vergonha que neste momento, em que está a morrer gente, a oposição esteja a apontar o que está bem ou mal. Estou-me nas tintas para o que foi bem feito ou não. Há que tomar medidas. As pessoas têm de ficar em casa! Aos que ainda têm pais, é o momento de levantar o telefone e ligar-lhes a dizer o quanto gostam deles e agradecer-lhes por tudo o que fizeram por vós. É isso que temos de fazer agora. É momento de lutarmos todos juntos e tirar este país disto. E aqueles que o querem afundar, convido-os muito gentilmente a irem-se", concluiu.
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