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Correio da Manhã

Comunicados de Imprensa
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Inauguração da Exposição Retrospetiva(s): Capítulo VII

Lançamento de “Miguel D’Alte: Palavras escritas à Lua”
27 de Março de 2018 às 18:08
Enquadrada no projeto de investigação e divulgação do pintor Miguel d’Alte (1954-2007), inaugura-se no dia 6 de abril de 2018 (sexta-feira), pelas 21:30, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, a exposição Retrospetiva(s): Capítulo VII, com curadoria de Helena Mendes Pereira . À exposição soma-se o lançamento de MIGUEL D’ALTE: PALAVRAS ESCRITAS À LUA, livro que reúne escritos inéditos do autor, prefaciado pelo pintor Jaime Silva e com texto introdutório de Helena Mendes Pereira.

O projeto, constituído por um conjunto de exposições e pela realização de um documentário sobre o pintor, arrancou a 9 de abril de 2016, na Casa Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia, com a primeira exposição e lançamento de um Catálogo Raisonné, cuja promoção também será reforçada. Este catálogo raisonné é apenas o quarto que se organiza sobre um artista português, seguindo-se ao de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) e ao de António Dacosta (1914-1990), sendo que deste último apenas existe versão digital, não impressa.

Neste catálogo raisonné, além de uma compilação de textos (antigos e novos) sobre o pintor, e do inventário da obra que atinge os cerca de 1.200 trabalhos, pertencentes a cerca de 170 coleções públicas e privadas, é também possível encontrar uma biografia detalhada do pintor, que nos revela o seu percurso, currículo e qualidade. Trata-se de uma edição de cerca de 400 páginas, desenvolvida entre 2013 e 2016 por Helena Mendes Pereira.

Miguel d'Alte nasceu em Braga a 2 de fevereiro de 1954. Ainda bebé foi morar com os pais para Moçambique de onde só regressa no final do ano de 1973. No Liceu da Beira é aluno de José Afonso por quem nutrirá, para sempre, profunda admiração.

Participa na sua primeira exposição coletiva, em Portugal, em 1975 e, em 1976 ingressa no Curso Geral de Pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto (atual FBAUP). É este o ano, o de 1976, que o pintor identifica como aquele em que iniciou o seu percurso "acidental e acidentado", numa autografia encontrada entre os seus apontamentos.

Em 2016, passados 40 anos, precisamente, sobre tal data, iniciou-se este projeto de exposições com o objetivo de promover a releitura da sua obra. "Pintor maldito", como o apelidou o pintor Henrique Silva, a história de Miguel d'Alte poderia assemelhar-se à de um Van Gogh. Em vida foi-lhe sempre reconhecido talento, fez várias exposições individuais, participou num sem fim de coletivas, ganhou prémios (sobretudo na década de 1980) e sobre ele escreveram importantes críticos como Bernardo Pinto de Almeida, Eduardo Paz Barroso, Fátima Lambert, Eurico Gonçalves, Rui Mário Gonçalves, entre outros. Miguel d'Alte viveu entre o Porto, Lisboa e Vila Nova de Cerveira. Em Lisboa morou durante de, aproximadamente, 1990 e 2002, tendo esta cidade marca e influência na sua produção artística. A exposição que se inaugura na Sociedade Nacional de Belas Artes dá enfoque, precisamente, à produção artística pós 1990 e até à sua morte, em 2007.

Contudo, o pintor manteve sempre uma espécie de "alergia" ao mercado da arte e às tentativas de manipulação e mercantilização que considerava serem feitas do seu trabalho. Morreu de forma trágica, colhido por um comboio em Vila Nova de Gaia, entre os apeadeiros de Miramar e Francelos, na tarde de 24 de dezembro de 2007, véspera de Natal.

O projeto tem como objetivo lançar um novo olhar sobre a obra de um homem que ficou para a nossa história recente como "pintor maldito", seguindo os exemplos (à época) de Caravaggio (1571-1610), Amadeo Modigliani (1884-1920), Ismael Nery (1900-1934), Bruno Amadio (1911-1981), Van Gogh (1853-1890), Edvard Munch (1863-1944) ou, no caso português, Santa-Rita Pintor (1889-1918).

O projeto é financiado, exclusivamente, por mecenas privados e apoiado, a título institucional, por um grupo muito vasto de instituições de todo o país, que trabalharam, quase todas, com este pintor, entre as quais se incluem a Cooperativa Árvore (Porto), Fundação Bienal de Cerveira, Câmara Municipal de Gaia, Galeria Alvarez (Porto), Galeria Pedro Oliveira (Porto), Museu Nogueira da Silva (Braga), Sociedade Nacional de Belas Artes, CAE da Figueira da Foz, Fundação Escultor José Rodrigues (Porto), Casa das Artes de Tavira, entre outras.

Miguel d’Alte viveu para a sua arte, sempre adverso às tentações da mercantilização. O atelier foi sempre a casa e a casa o atelier pois "a pintura e a vida não são duas coisas distintas", escreveu. Estas casas-ateliers foram sempre minúsculos e infinitos, dada a vontade de expressar o sentir e questionar o mundo através da tela. Expôs desde 1975, e até aos inícios da década de 1990, a sua pintura é obscura, dramática, fantástica e surreal. Na década de 1990, a paleta torna-se clara e límpida, com amplos brancos e subtis gradações de cinzentos e azuis. Nesta fase, cobria a tela com múltiplas camadas de tinta que depois raspava tentando descobrir/cobrir riscos, cores, formas, atmosferas. "O referente situa-se cada vez mais no vazio", escreveu em outubro de 1996. As paredes da casa de Cerveira foram as últimas a ver Miguel d’Alte pintar, mas a obra faz com que a sua voz seja ouvida na eternidade.

"O Miguel era um pintor para pintores gostarem." Escreveu Mário Ferreira da Silva (Mazza), também pintor. António Pedro escreveu que "A arte só o pode ser como exercício de liberdade." Da arte de Miguel d’Alte gostam e gostarão todos os que tiverem a coragem de ser livres e o objetivo é que, depois da publicação deste catálogo raisonné e do desenvolvimento global de todo o projeto, espera-se que sejam mais os que conhecem e gostam da obra de Miguel d’Alte, porque pintou muito e pintou bem. Pintou o seu universo interior, os seus mestres e os seus rios; pintou as suas inquietações; criou a sua identidade, plástica e estilística. Experimentou técnicas e suportes, usou todos e criou os seus. Foi autêntico e foi real. Foi sonho e metamorfose. Foi poesia e foi música. É a (sua) pintura.
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