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Correio da Manhã

Cultura
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A matriz e a aventura

“Faluas do Tejo’ é uma obra comovente, ao longo das suas dez cantigas e dos seus três quartos de hora. É um passeio em que não sabemos se o que se move é a cidade ou se somos nós próprios, se é a passagem do tempo ou a sua fixação nas nossas memórias.”
27 de Fevereiro de 2005 às 00:00
A matriz e a aventura
A matriz e a aventura FOTO: d.r.
São mais importantes as brisas, que não se sabe bem de onde vêm nem que destino tomam mas nos aconchegam e nos estimulam, ou os hálitos com raízes de inveja e adubos de despeito, desagradáveis ventanias que – por paradoxo – trazem lá dentro palavras fétidas? Gosto do poder que me permite, sem vassalagens ou deferências, continuar a preferir as primeiras e, as mais das vezes, a ignorar os outros, os que falam alto para disfarçar a rasteirice limitada dos seus discursos. É em torno dos Madredeus e do disco ‘Faluas do Tejo’ que emerge esta prosa, solitária ou não, pouco me afecta: já me cansa o discurso de que “eles já não são o que eram”, português dos pequeninos, sem tradução. Noutras paragens, acarinha-se e estima-se aquilo que nos representa, o nosso retrato pintado em tela de Arte, a nossa alma escrita em canções. Por cá, onde temos “medo de existir”, nem sempre é assim.
Vou direito ao assunto: ‘Faluas do Tejo’ é, num mundo paralelo ao de ‘Um Amor Infinito’, um dos discos dos Madredeus que há-de ficar e durar e dourar os nossos dias. Descobrir-se-lhe-ão mais inflexões fadistas – o que é natural, que ninguém passa rente ao Fado sem lhe ganhar marcas –, acabarão a explicar-nos que tem toques de reggae (“sacrilégio!”, dirão os puristas) e tiques de Bossa Nova (“blasfémia!”, clamarão os encartados da arrumação).
Eu digo que sim. Como me parece que, no essencial, a matriz musical não precisa de mais do que estes câmbios circunstanciais, estes acabamentos de inspiração momentânea. A casa musical dos Madredeus levou anos a desenhar, a construir, a ser habitada. Resistiu a terramotos, até se tornar no condomínio certo para quatro músicos e uma cantora. Não precisa de obras, dispensa a pintura – basta-lhe a aventura da persistência, já que eles olham à volta e vêem como mais ninguém, e a persistência da aventura, bem evidente no risco de deixar para trás o mundo conquistado e voltar a passear cá dentro.
‘Faluas do Tejo’ é uma obra comovente, ao longo das suas dez cantigas e dos seus três quartos de hora. É um passeio em que não sabemos se o que se move é a cidade ou se somos nós próprios, se é a passagem do tempo ou a sua fixação nas nossas memórias. É, parece-me bem, um disco de cancioneiro, daqueles a que um dia – e pode ser já, agora – se recorrerá para percebermos, com a exactidão da poesia, a quantas andámos, andamos e andaremos. As seis primeiras canções, cada uma em seu embrulho, são todas arrasadoras. A sétima revela um poeta, Rui Machado, por sinal o marido de Teresa Salgueiro. E daí até final, não há escorregadelas nem menoridades. Está tudo onde deve, com uma maior criatividade instrumental e com a cantora a chegar onde quer e como quer, sem esforço. Passados tantos anos sobre as noites de Xabregas, os dias da Madredeus continuam a ser os nossos. Os meus. Com muito orgulho, com uma indisfarçada carga emocional (não se aflija, que não pesa), com prazer. Pena, só uma: que o notabilíssimo texto de Miguel Esteves Cardoso (que pode ser lido no ‘site’ do grupo) não acompanhe o disco, de que é mesmo o complemento mais-que-perfeito.
O resto? São águas mornas. Mortas. Que não merecem este rio que os Madredeus navegam, sem se importarem com as margens…
TOCA A TODOS
Históricos, I: nova edição, com melhorias sonoras e DVD áudio disponível como alternativa, mostra uma das (muitas) colecções possíveis com os êxitos, imortais, cristalinos ou radicais, de NEIL YOUNG. ‘Greatest Hits’ foi compilado com base nas vendas dos álbuns, na exposição radiofónica e no número de ‘downloads’. O povo não erra: ‘Helpless’, ‘After The Goldrush’, ‘Only Love Can Break Your Heart’, ‘Like A Hurricane’, ‘Comes A Time’ e ‘Rockin’ In The Free World’, estão cá todas. Nota máxima.
Históricos, II: outra lista de êxitos, particularizada por se tratar de gravações de palco com quase 30 anos, recuperadas numa época em que a reabilitação de CAT STEVENS está completa, depois da excomunhão. ‘Majikat – Earth Tour 1976’ apanha-o na fase madura, a misturar os hinos dos seus melhores anos, de ‘Lady D’Arbanville’ a ‘Father & Son’, de ‘Wild World’ a ‘Oh Very Young’, sem esquecer o emblemático ‘Peace Train’. O homem estava no pleno, o som é óptimo. E não é nostalgia – é só justiça.
TOCA E FOGE
Francesas que queremos por cá, I: é o regresso do sussurro, agora sem planar sobre os arranjos suaves (Bossa Nova) de ‘Salle des Pas Perdus’ mas a marcar presença num ‘rock’ sincopado e energético ou em canções magnéticas de encanto. Tudo passa pelas mãos mágicas de Benjamin Biolay, irmão de CORALIE CLÉMENT e figura omnipresente da renovação gaulesa. Mas é a espantosa contenção da cantora, com mais alma do que técnica, que faz apaixonar por ‘Bye Bye Beauté’. E se fosse ‘olá’ em vez de ‘adeus’?
Francesas que queremos por cá, II: JULIETTE, Nourreddine de apelido não utilizado, parisiense de gema, soube tornar-se num daqueles casos que permitem garantir que a tradição ainda é o que era. ‘Mutatis Mutandis’ (atenção, Universal!) é um disco que merece estar ao lado dos clássicos da ‘chanson’: ironia, melodia, bom gosto, suavidade e aquele toque de classe que se traduz no recurso a um poema de Baudelaire… em Latim. Disco inteligente como poucos, sensível como ainda menos. A descobrir.
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