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Correio da Manhã

Cultura

A última aristocrata

June Tabor caminha, sem pressa, tal como canta, para os 58 anos – vai cumpri-los no dia em que o ano se despedir. E, por essa época, quando se chegar às malfadadas listas das melhores edições do ano, só mesmo os desatentos, nihilistas ou ignorantes poderão excluir a magnífica compilação (caixa, quatro CD, já passível de compra em Portugal) que, mais do que uma retrospectiva nostálgica, acende novos focos na direcção da maior cantora de folk da actualidade.
17 de Julho de 2005 às 00:00
June Tabor
June Tabor FOTO: d.r.
Há Maddy Prior, há Norma Waterson, há a legião irlandesa comandada por Mary Black? E não se vislumbra razão para lhes desrespeitar os currículos.
Mas nenhuma delas se aproxima do rigor quase ascético, do tom aristocrático, da capacidade de descobrir sempre novos cânticos eternos entre o passado e o presente, da infinita habilidade para se reinventar sem desvios desta mulher.
Publicamente, esta é uma história que leva quase três décadas em nome próprio, desde o álbum ‘Airs and Graces’. O que já justificou compilações anteriores (‘Anthology’, ‘The Definitive Collection’), sem que nenhuma delas possa comparar-se à grandeza esmagadora desta colecção a que se dá um título que não podia ser mais significativo: ‘Always’. Um autêntico ‘labour of love’ capitaneado por David Suff, que se encarregou de toda a pesquisa e da selecção.
Particularmente generosa: das 67 canções arrumadas sem cronologia nem ditadura estética, antes alternando ambientes e origens, só 26 provêm tal e qual dos álbuns editados em nome próprio por Miss Tabor. Das restantes 41, 18 são inéditas, 13 novas versões de gravações anteriores e 10 vêm de discos alheios, colectivos, parcerias (as inevitáveis Silly Sisters, o seu duo com Maddy Prior) e colaborações. Com uma particularidade que muito estimulará os coleccionadores e aqueles que elegem June Tabor como objecto de meritório culto: uma parte destes temas não se encontra, agora, em nenhuma outra edição, uma vez que várias foram retiradas do mercado e dos catálogos.
Assistimos, com a mesma solenidade e a mesma comoção com que se contempla uma beleza aristocrática e intangível, ao primado da palavra. Cada arranjo, por mínimo que pareça, é uma pérola de gosto, privilegiando o piano seguríssimo de Huw Warren (o mais representado dos companheiros de aventura da cantora), a guitarra acústica, a viola de arco, o acordeão, o violino. Que nunca incomodam, antes constroem um suave carreiro por onde a voz – também atirada para o solo absoluto, como nos sublimes capítulos ‘The Week Before Easter’, ‘Behind The Wall’, ‘The Band Played Waltzing Mathilda’ – pode caminhar, livre mas não abandonada. Se esta é uma das faces nobres da folk, não conheço nenhuma que mais facilmente hipnotize.
June Tabor tem tempo e talento de sobra para cantar Richard Thompson, Kris Kristofferson, Lal Waterson, Tracy Chapman, Eric Bogle, Bill Caddick, Maggie Holland, Savourna Stevenson. E também Lou Reed. E ainda Elvis Costello. E até António Carlos Jobim. Além de dezenas de tradicionais, que recupera do pó dos cancioneiros para as tornar belas e acutilantes e actuais. Pouco importa, outra vez: todas as canções que passam por ela tornam-se suas. Agora, ‘Always’, para sempre.
TOCA A TODOS
Há casos em que a paciência compensa: passaram mais de duas décadas desde que se ouviu pela primeira vez ‘O Grande Circo Místico’, obra-prima temática que os talentos de Edu Lobo (compositor) e CHICO BUARQUE (letrista) distribuíram por vozes como as de Milton Nascimento, Simone, Tim Maia, Gilberto Gil e Gal Costa, entre outras. A magia está intacta, agora que o CD chegou, finalmente. É um dos casos perenes da MPB, com sonhos como ‘Beatriz’ ou ‘Meu Namorado’. E a importação é escassa, aviso.
Já tinha ficado debaixo de mira com o álbum ‘Salt’. Agora, LIZZ WRIGHT regressa com o excelentíssimo ‘Dreaming Wide Awake’, produzido por Craig Street (Cassandra Wilson, K.D. Lang, Me’Shell Ndegéocello). Sem nunca viajar além do essencial, encanta a voz que mostra viajar com igual à vontade pelo jazz e pelo gospel, por Neil Young e Joe Henry, por um velho êxito chamado ‘A Taste of Honey’. Este é daqueles que, pela verdade e pela contenção, dura uma vida inteira, sem perder o encanto.
TOCA E FOGE
Estávamos nós postos em sossego e eis que os rapazes, depois de desintoxicações e percursos místicos, decidem ressuscitar o pesadelo. Cinco anos após o último álbum de originais, aí estão de novo os BACKSTREET BOYS, arquétipo das ‘boys bands’, com tudo o que de fútil e foleiro trouxeram à música. ‘Never Gone’ é o que podia esperar-se: cantiguinhas sem alma nem corpo, vivendo da produção e da imagem dos ex-adolescentes. Nem pop, nem balada, nem nada. Podiam reservar-se para o clube de fãs.
Um dos dramas correntes da música popular mora na incapacidade de muitos agentes saberem envelhecer. E, nalguns casos, para perceber quando devem parar. LEO SAYER está, a partir da edição de ‘Voice In My Head’, incluído neste vasto leque de gente que se arrasta, sem nada a acrescentar. Excessos instrumentais, desinspiração lírica e melódica, falta de um caminho próprio. Desastre, só. O que fazer com as memórias de ‘One Man Band’,‘Why Is Everybody Going Home?’ e ‘When I Need You’? Ora bolas…
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