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Correio da Manhã

Cultura
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CNC tem de ser fiel à tradição

O Centro Nacional de Cultura abre hoje, oficialmente, as comemorações do seu 60º aniversário. Em entrevista, o actual presidente, Guilherme d’Oliveira Martins, fala sobre este lugar de debate de ideias. O projecto de um grupo de monárquicos que teve como objectivo a “defesa de uma cultura livre”.
15 de Maio de 2005 às 00:00
Correio da Manhã – O que representam estes 60 anos de vida para o Centro Nacional de Cultura (CNC)?
Guilherme d’Oliveira Martins - Uma grande responsabilidade, uma vez que é uma vida plena de projectos e realizações. Há três momentos marcantes na vida do CNC. O primeiro, entre 1945 e início dos anos 60, é marcado pelos fundadores. Um grupo de monárquicos que se foram afastando progressivamente do regime. O segundo, ocorre nos anos 60, quando se verifica um afastamento cada vez maior do CNC relativamente ao regime e uma defesa clara do modelo democrático. Neste período, as duas figuras marcantes são Francisco de Sousa Tavares e Sophia de Melo Breyner Andresen. O terceiro período dá-se após o 25 de Abril.
– Quais os objectivos que presidiram à criação do CNC?
- Fundamentalmente, o debate e a reflexão em torno da cultura portuguesa. Nesta primeira fase, Almada Negreiros e o dramaturgo Fernando Amado foram as figuras marcantes.
– Estes objectivos mantêm-se ou foram-se adaptando às mudanças políticas e sociais do País?
- Foram-se sempre adaptando. O CNC foi um lugar indispensável na preparação da democracia. Depois do 25 de Abril, Helena Vaz da Silva propôs um projecto adaptado à democracia, centrado no melhor conhecimento da nossa História e do nosso património. Se é certo que houve mudanças nas várias fases, há um espírito comum profundamente jovem, inovador e virado para a frente.
– Qual o papel do CNC na vida cultural e intelectual portuguesa?
- O debate de temas que, habitualmente, não podiam ser discutidos. Era um lugar onde se partilhava a liberdade e as ideias novas. O CNC evoluiu e continuou vivo, respondendo aos desafios desses tempos.
– Como exerce a sua actividade?
- Temos uma programação cuidadosa e trimestral, que envolve cursos livres, colóquios, exposições, edições, concursos, ateliês infantis, bolsas e os célebres ‘Passeios de Domingo’. Organizamos viagens por todo o Mundo onde os portugueses deixaram marca, como Japão, Índia e África. A primeira embaixada cultural à Indonésia após o reatamento de relações foi a do CNC. Por outro lado, coordena, desde 2001, as Jornadas Europeias do Património em Portugal.
– O CNC é uma associação cultural sem fins lucrativos. De quem depende para funcionar?
- Para nós, a independência é um elemento absolutamente central. Por isso, contamos com apoios de empresas mecenas e, naturalmente, dos sócios. Cada uma das actividades deve ser autofinanciada.
– Como vê o futuro do CNC?
- Antes de mais, tem de ser fiel a toda a sua tradição e história. Para tal, temos de ir ao encontro dos novos talentos. A falta de meios não nos permite conceder mais bolsas para os jovens criadores, mas temos o prazer de verificar que os nossos bolseiros são figuras maiores que se têm afirmado na vida cultural. E, com o nosso apoio, contribuímos de algum modo para reforçar a sua afirmação na vida cultural portuguesa.
CINCO INICIATIVAS EM DESTAQUE
Até ao final do ano, o CNC vai realizar 60 iniciativas, das quais se destacam cinco.
Fundação Gulbenkian – Hoje, às 18h00, realiza-se a sessão solene na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, com a presença do Presidente da República, Jorge Sampaio. Segue-se um concerto comemorativo por Gilles Apap (violino) e Eric Ferrand N’Kaoua (piano).
Biblioteca Nacional – No próximo dia 24 é inaugurada a exposição documental e bibliográfica sobre a história do CNC, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, onde ficará patente até 2 de Julho.
Cinemateca Portuguesa – Até final do mês, a Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, exibe um ciclo de filmes do fim da guerra, com actualidades e referências ligadas à época da fundaçãodo CNC.
Brasil – De 3 a 14 de Setembro, está prevista uma viagem ao Brasil, nomeadamente ao Nordeste, numa evocação da figura histórica do Pe.
António Vieira. A viagem integra-se na iniciativa ‘Os Portugueses ao Encontro da sua História’.
Livro – Entre as diversas edições a lançar, destacam-se o livro sobre a história do CNC, o ‘Diário de Viagem à África’ e a revista ‘Raiz & Utopia’.
PERFIL
Nome: Guilherme d’Oliveira Martins
Data de Nascimento: 23 de Setembro de 1952
Naturalidade: Lisboa
Estado Civil: casado. Três filhos e uma neta.
Percurso e funções actuais:
Assume a presidência do CNC em 2002, após o falecimento de Helena Vaz da Silva. Na altura, era vice-
-presidente. Licenciado e Mestre em Direito, é deputado à Assembleia da República pelo Partido Socialista. Foi ministro da Educação (1999-2000), da Presidência (2000-2002) e das Finanças (2001-2002). Presidente da SEDES - Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (1985-1995) e vice-presidente da Comissão Nacional da UNESCO (1988-1994). É autor de vários livros sobre economia e política.
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