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Correio da Manhã

Cultura
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"Coliseus não me assustam"

Paulo Furtado leva The Legendary Tigerman às salas do Porto e Lisboa, na sexta e no sábado. E promete surpresas.
17 de Janeiro de 2011 às 00:30
ENTREVISTA, PAULO FURTADO, LEGENDARY TIGUER MAN, MÚSICA, COLISEUS
ENTREVISTA, PAULO FURTADO, LEGENDARY TIGUER MAN, MÚSICA, COLISEUS FOTO: Mariline Alves

– O que podemos esperar dos concertos que tem agendados para os Coliseus de Lisboa e Porto?

–  O ponto de partida será revisitar todos os momentos da minha carreira como Legendary Tigerman. Não será apenas uma abordagem do meu último álbum, ‘Femina’, apesar de também tocar alguns desses temas. Mas vou tocar, essencialmente, músicas desde o ‘Naked Blues’, que foi o meu primeiro disco, até ao ‘Femina’. Para isso, decidi chamar para estes espectáculos algumas pessoas com quem me fui cruzando, como os Dead Combo (que gravaram comigo no ‘Masquerade’), o NelAssassin e o João Doce, aos quais eu juntei o DJ Ride para colaborarem comigo numa música e em mais algumas coisas que vamos fazer do zero. Chamei também o Jim Diamond, que foi o produtor dos dois primeiros álbuns dos The White Stripes, e o Mick Collins, com quem gravei um single há sete anos, single esse que também se tornou importante para a minha carreira internacional. Foi editado apenas em vinil, mas para o Mundo todo. Em Portugal não teve grande expressão, mas foi também um momento importante. Consegui convidá-los e eles tiveram a amabilidade de voar para cá para vir fazer estas duas músicas nos concertos dos coliseus. Do ‘Femina’, vai estar a Rita [Redshoes ], a Claúdia [Efe] e a Lisa Kekaula. Iremos fazer algumas coisas que nunca fizemos antes, tocar algumas músicas que ainda não tocámos. O que quero é que toda a gente esteja em palco relaxada e divertida, para podermos improvisar e fazer o concerto o mais espontaneamente possível.

– Os temas novos que vão tocar pertencem já a um novo trabalho?

– Não penso muito nisso. Penso as coisas um pouco por fases. Neste momento estou focado nestes espectáculos e em não os tornar pesados, para que seja uma coisa que flua tranquilamente sem grande complicação e sem grande peso. Estou mais focado em criar músicas e momentos ao vivo. Não estou a pensar em gravações, para já.

– O facto de os Coliseus serem duas das maiores salas em que já actuou, assusta-o?

– Não. Não me assusta ir tocar aos Coliseus para pessoas que compraram bilhete para ir ouvir a minha música. Assusta-me mais ir tocar um sítio qualquer no interior de Portugal, onde não há bilhetes, e as pessoas nem sabem quem eu sou, quem é o artista que vai estar em palco... Isso é muito mais assustador do que entrar no palco do Coliseu para tocar para as pessoas que gostam das minhas músicas.

– Então assusta-o mais a ausência de público?

– Não, às vezes não é a falta de público. Digo isto porque, é raro mas acontece, o espectáculo às vezes não corre bem quando tem entrada livre. Às vezes pode haver uma grande percentagem de pessoas que não sabe quem é o artista. Não é só no meu caso. Nenhum artista gosta de tocar num sítio em que as pessoas possam não estar para ouvir. Mas, muitas vezes, conquistam-se novos públicos, muitas pessoas que ficam a gostar das músicas e vão aos concertos ‘normais’. Mas sim, é mais assustador fazer um concerto desses do que num dos coliseus.

 – Muitos artistas, com mais anos de carreira, esperam mais tempo até actuarem nos Coliseus. Porque escolheu este momento para dar esse passo?

– Foi uma proposta da produtora e foi também o momento em que toda a gente achou que seria possível fazer os Coliseus. Quanto aos anos de carreira, eu tenho dez como The Legendary Tigerman mas com músico em Portugal tenho pelo menos outros dez. Acabam por ser 20 anos a fazer música. Obviamente que é um marco importante da minha carreira, mas penso que não pode ser avaliado pela quantidade de público. Cheguei até aqui a tocar muitas vezes para menos pessoas e a fazer concertos com a mesma dignidade do que os dos Coliseus.

–  Depois dos Coliseus, o que lhe falta? Alguma grande sala que ambicione conquistar?

–  Talvez algumas salas na Europa. Há uma, em que estar em Abril, que há muito tempo ambicionava ir, que é o Bataclan, em Paris. Estou muito contente por ir lá tocar. Ainda há algumas salas míticas em que gostaria de tocar... Porque não o Olympia, em Paris? [risos]. Muitas vezes os sonhos alcançam-se fruto do trabalho. Nada é impossível.

– Depois dos Coliseus, continua em digressão por Suíça, França... Como tem sido recebido no estrangeiro?

– Em relação ao ‘Femina’ estou muito contente, as críticas têm sido muito boas. As coisas têm corrido bem lá fora. Tenho crescido devagarinho, mas todos os álbuns têm tido distribuição europeia e alguns tiveram mesmo divulgação mundial. Para mim as coisas andam a um ritmo que eu acho normal, que é o de crescimento normal de um projecto que não possa ter, à partida, muita divulgação na rádio. Tem corrido tudo bem. As tournés têm corrido cada vez melhor, as salas têm estado sempre cheias. Para mim é um outro sonho que está a ser alcançado, que é ter um público europeu.

– Ser uma ‘banda de um homem só' não é esgotante física e psicologicamente?

– É bastante esgotante. Como músico, é muito mais esgotante fazer um concerto enquanto The Legendary Tigerman do que como membro dos Wraygunn. Até porque depois não existe mais ninguém com quem partilhar o sucesso ou o fracasso dos concertos e dos discos. Quer dizer, no caso do ‘Femina’ existiu... Mas é concerto muito mais estudado do ponto de vista físico e psicológico, e torna-se muito cansativo. Por exemplo as digressões europeias, que eu antes dizia serem um bom momento para descansar porque estava focado em apenas uma coisa, ultimamente acaba por não ser assim, porque são concertos muito exigentes. O ‘Femina’ também é muito mais exigente para mim, porque envolve alguma componente mais difícil do ponto de vista técnico, com as projecções, ‘lip syncs’ e a presença virtual de algumas pessoas. Exige um esforço adicional de concentração...

– Além do projecto a solo, é ainda um dos membros dos Wraygunn. Como conjuga os duas bandas?

– Até ao ‘Femina’ tinha um pressuposto que era os Wraygunn eram a minha prioridade e ia fazendo as minhas coisas como Legendary Tigerman nos intervalos. Pela primeira vez, antes de começar a gravar o ‘Femina’, falei com a banda e disse-lhes que precisava de algum tempo para me dedicar a este projecto e queria dar-lhe prioridade, ao fim de dez anos. Especialmente para este disco necessitava de um ano ou ano e meio, que acabaram por se transformar em mais que isso. Mas apenas parámos os concertos. Mas já gravámos oito músicas em estúdio, com o Nelson Carvalho, e estava programada uma nova entrada em estúdio no início do ano mas não foi possível, pelo que ficou adiada para Março. Esperamos que o álbum saia ainda este ano. Mas está também tudo um pouco dependente do que aconteça com o ‘Femina’, que ainda está a sair em vários países e ter mais a atenção na imprensa.

– Se tivesse que escolher entre Wraygunn e o seu projecto a solo, qual preferia?

–  Sempre achei os dois projectos complementares. Mas o Legendary Tigerman, mesmo que não venha mais ninguém, eu consigo sempre fazê-lo. Acho que se tivesse que escolher, seria o que considero mais simples.

– Por que razão optou por fazer do ‘Femina’ um álbum de duetos?

– Não foi uma coisa pensada. Não o vejo como um álbum de duetos mas sim de colaborações. Um dueto para mim é algo muito mais impessoal. Acho que há muito de cada pessoa em cada uma das músicas. E o ‘Femina’ representava para mim o facto de em cada uma das canções haver a perspectiva masculina e a feminina. Algo que nunca tinha acontecido com The Legendary Tigerman, em que era sempre explorado o tema da mulher mas de uma perspectiva masculina. Acabou por trazer algumas pessoas a quem as músicas me levaram. Foi também um processo de aprendizagem como músico, como pessoa e como artista porque pude trabalhar com uma série de pessoas que têm um modo de ver a música diferente do meu. Este disco para mim foi fundamental em vários níveis.

Podemos vir a ter um ‘Femina II’?

– Um ‘Femina II’ não haverá. Há muito material, porque já gravei 22 músicas. Em Portugal saíram 15 no álbum normal, houve uma edição internacional em vinil que tinha 17 temas. E ainda estou a gravar mais algumas coisas. Mas um ‘Femina II’ não existirá porque seria apenas uma manobra de marketing. Mas talvez haja um EP complementar do ‘Femina’, com mais algumas músicas, que possivelmente estarão disponíveis em formato digital, para quem tem o disco não ter que estar a comprar outra vez tudo. Em Janeiro vão sair ainda alguns temas novos. No fundo, porque eu sinto que ainda há algumas coisas para gravar, mas não penso fazer um ‘Femina II’.

– Este álbum tem também uma componente cinematográfica, com algumas curtas-metragens. Como divide a sua atenção entre o mundo da música e do cinema?

– São duas paixões que tenho há muito tempo. Já o ‘Masquerade’ tinha um DVD com algumas ‘curtas’, não só minhas mas também de uma série de autores que eu admiro em Portugal, como o Edgar Pêra, Paulo Abreu ou o Rodrigo Areias, com quem me identifico. Mas neste álbum o que eu queria era voltar a uma visão mais inocente, de filmar em Super 8, em que se filma entre o documental do meu encontro com essas mulheres e a ficção que existe a partir do momento em que se aponta uma câmara. Era mesmo para filmar como o meu pai fazia, em que pegava na câmara de forma relaxada e sem grande argumento. A minha ideia era mostrar estas mulheres por trás destas artistas, de um modo mais relaxado e despido. Curiosamente, as curtas agora começam a seguir o seu caminho, em Portugal estão a ser exibidas em vários locais, muito por culpa do cineclubes que têm feito muitas sessões, e agora vão também ao Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, em França [de 4 a 12 de Fevereiro], para várias sessões especiais, o que me deixa muito contente por ser o maior festival de curtas da Europa.

– Já pensou vir a trocar a música pelo cinema?

– Mudar de área penso que não mudarei nunca. Mas gostava de fazer algumas longas-metragens. Estou agora a fazer a primeira, que é um documentário, por um desafio que me foi lançado por José Cardoso, que está a escrever as memórias do Vítor Gomes. No futuro espero fazer mais ‘longas’, mais discos e mais bandas sonoras. Agora também estou a fazer com a Rita Redshoes a banda sonora da ‘Estrada de Palha’, que é o novo do Rodrigo Areias e vai estrear para o ano. Acho que a música e o cinema estão muito ligados e cada vez estarão mais na minha vida.

– Está também a preparar temas para adaptar ao teatro...

– Estou a fazer, em conjunto com a Rita Redshoes, a banda sonora de ‘O Jogador’ uma peça que deverá estrear em Maio no Teatro S. Luiz, em Lisboa. Para já são estes dois projectos em que estou, apesar de ter mais um desafio do festival de curtas de Vila do Conde, para musicar um filme para Julho. Mas ainda está por definir qual o cine-concerto a fazer.

– Aproveitando o tema dos cine-concertos, como foi tocar ao vivo na apresentação de 'A Dança dos Paroxismos' (1929), de Jorge Brum do Canto, no MoteLx de 2009?

–  Foi um momento incrível para mim e para a Rita [Redshoes]. Eu adoro o filme, que já conhecia há bastante tempo. Fui eu, de certo modo, quem direccionou para a escolha desse filme em relação ao MoteLx, que eles não conheciam exactamente, mas que depois acharam que se enquadrava bem. Acho que é um momento na história do cinema em que alguém está em sintonia absoluta com o mundo das artes ao mais alto nível. É um filme completamente ‘avant-garde’ para a época. É muito inocente, pois é o primeiro filme de Jorge Brum do Canto, e portanto também muito experimental. Nós na altura optámos por escolher instrumentos que não eram muito tradicionais, como ‘autoharp’, persófone, e uma série de outros instrumentos que têm modos peculiares de tocar. A música e o filme casaram muito bem. A única coisa que lamentamos é que fizemos apenas uma vez. Foi muito tempo e dedicação para se fazer apenas uma vez. Mas pode voltar a repetir-se. É questão de um dia conseguirmos juntar agendas e tirar algum tempo para reensair tudo. Ainda hoje encontro pessoas, para quem aquilo foi tudo o que ouviram meu e possivelmente da Rita, que dizem que o concerto foi mágico.

– Não tem temas em português. Porque prefere cantar na língua inglesa?

– Não foi exactamente uma escolha. Quando tinha 14 ou 15 anos, os primeiros discos que me influenciaram, a par de algumas coisas mais clássicas como Zeca Afonso ou José Mário Branco, eram ingleses ou americanos, como os Crumb, os Sonic, os Gories e todas as bandas de ‘garage’ dos anos 60, 50 e ainda mais para trás os blues dos anos 20 e 30, de início do século. Era essa a música que me excitava e que sempre me deu gozo fazer. Francamente, a maior parte dos blues e do rock vejo-os noutra língua, no inglês, assim como não veria o fado cantado em francês. Não quer dizer que não se possa fazer ou não haja já pessoas que o façam bastante bem. Mas para mim nunca fez sentido. Apesar de há muitos anos nos Tédio Boys termos algumas letras em português, não muitas...

– Como vê a sua evolução ao longo destes 20 anos de carreira? Sente saudades do início nos Tédio Boys?

– Não sinto saudades nenhumas. Sinto orgulho no que conseguimos alcançar e no que aprendi com os Tédio Boys. Tudo o que sei sobre fazer música de modo independente, de actuar quer se tenha um manager ou não, quer exista ou não uma estrutura, vivi nos Tédio Boys. Conseguimos ir à América fazer digressões e acho que não aprendi muito mais desde aí. Acho que as coisas não mudaram assim tanto desde então. Toda essa escola, esses dez anos ensinaram-me muito, mas não tenho saudades. Acho que a minha evolução natural. Mas mesmo a nível de sonoridade acho que a essência do que fazia nos Tédio continua presente no que faço agora, estão é mais coisas presentes, o que penso ser sinónimo de estar com os olhos postos no mundo e receber influências.

– Qual foi o tema que mais o marcou?

– É difícil escolher apenas um tema. Apenas conseguiria escolher um álbum, o ‘Naked Blues’, o meu primeiro disco. Porque foi mais inocente. Foi um salto no vazio, arriscado, de criar o projecto de ‘one man band’. Era muito arriscado fazer espectáculos ao vivo, depois lançar o disco. Toda essa dúvida de se haveria de lançar isto no mundo ou não. Acabou por ser um momento bastante difícil que teve logo a sorte de ter logo uma edição mundial.

–  Porquê o nome The Legendary Tigerman, o ‘lendário homem-tigre’?

–  O Tigerman vem de uma música de um senhor que eu gosto muito que é o Rufus Thomas, pelo que acaba por ser uma referência às minhas influências. O Legendary foi porque achei interessante iniciar um projecto que à partida já era lendário.

PERFIL

Paulo Furtado, também conhecido pelo seu nome artístico The Legendary Tigerman, nasceu há 40 anos em Maputo, Moçambique. Membro fundador dos já extintos Tédio Boys em 1989, é actualmente vocalista e guitarrista dos Wraygunn, com quem já editou quatro álbuns. A solo conta já com cinco discos, sendo ‘Femina’ (2009) o seu trabalho mais recente.

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