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Correio da Manhã

Cultura
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Rui Veloso: "Era tudo mau, o material, o público e os locais para tocar. Até o vinho era mau"

Numa grande entrevista de fundo, Rui Veloso recorda o lançamento de 'Ar de Rock' há 40 anos e desfia memórias
Miguel Azevedo 17 de Julho de 2020 às 20:49
Rui Veloso
Rui Veloso, que faz 63 anos no próximo dia 30, lançou o disco ‘Ar de Rock’ quando ainda era um “puto” inexperiente
Rui Veloso
Rui Veloso, que faz 63 anos no próximo dia 30, lançou o disco ‘Ar de Rock’ quando ainda era um “puto” inexperiente
Rui Veloso
Rui Veloso, que faz 63 anos no próximo dia 30, lançou o disco ‘Ar de Rock’ quando ainda era um “puto” inexperiente

Parece consensual que 'Ar de Rock' foi o disco que deu, em definitivo, o pontapé de saída para o movimento do rock português em Julho de 1980. A ‘Rapariguinha do Shopping’, ‘Bairro do Oriente’, ‘Sei de uma Camponesa’ e especialmente ‘Chico Fininho’ tomavam o país de assalto. Hoje, quarenta anos depois, Rui Veloso, a quem um dia alguém achou por bem chamar "o pai do rock português", olha para trás, explica porque razão aquele disco foi tão marcante e revela memórias e episódios de um tempo do qual garante não ter saudades.  


‘Ar de Rock’ foi lançado originalmente em Julho de 1980. Parece-lhe que foi ontem?
Não (risos). Bolas! Quarenta anos é mesmo muito tempo. É incrível. Se naquela altura me dissessem que eu ia dar uma entrevista sobre aquele disco quarenta anos depois eu não ia acreditar. A durabilidade das canções é uma coisa incrível.

O que é que se recorda da gravação desse disco?
Na verdade não me recordo de grandes coisas. O que me recordo melhor é de ver os técnicos a montar a máquina de 24 pistas que foi a primeira a vir para Portugal. Muita gente não sabe disto. O Zé Fortes (técnico de som) passou a noite a fazer ligações e soldagens para estar tudo pronto no dia seguinte. O estúdio era o Rádio Produções Europa (RPE), onde foi gravado também o ‘Galinhas dos Mato’ do Zeca Afonso, e que mais tarde viria a dar origem aos famosos Angel Studios.

Conta-se que o ‘Ar de Rock’ foi gravado em muito pouco tempo!
Sim, foi muito rápido. Foi tudo gravado e misturado em 72 horas. Há músicos que chegam a passar mais do que esse tempo só de volta de uma música (risos). A questão é que, na altura, estar em estúdio era muito caro, até as fitas de gravação eram muito dispendiosas. Havia ainda o facto daquilo tudo ser um tiro no escuro. Ninguém sabia se o disco ia vender ou não. Se vendesse 4 ou 5 mil cópias a editora já ficava satisfeita. A verdade é que vendeu seis vezes mais do que isso e abriu uma série de portas.

É verdade que as bobines originais onde foi gravado o ‘Ar de Rock’ foram apagadas?
Sim, sim, mas essa era uma prática corrente precisamente porque as fitas eram muito caras. Se não me engano, à data, cada uma custava entre 10 a 20 contos, o que era muito dinheiro. Salvo erro para o ‘Ar de Rock’ foram precisas três ou no máximo quatro fitas. Depois das gravações, ou a editora as comprava ou então elas voltavam para estúdio para voltarem a ser utilizadas. Ou seja gravavam-se outras coisas por cima. Eu sei que a Valentim de Carvalho foi sobejamente avisada pelo Zé Fortes que ia desgravá-las, mas os responsáveis não as quiserem comprar. Mas daí também não vem mal nenhum ao mundo, porque eu não gostaria de voltar a mexer nesse disco. Mexeria noutros mas nesse não.

Porquê?
Porque está bem assim. Acho que não era possível fazer uma remistura melhor do que a que se fez na altura.

Naquela altura não se deslumbrou com aquele meio, de repente a gravar para a Valentim de Carvalho?
Não, eu estava muito expectante. É como se diz na linguagem de aviação, eu estava a voar à vista (risos). Não sabia nada e encarei aquilo como uma aprendizagem.

Tinha apenas 22 anos quando gravou esse disco. Como era o Rui Veloso naquela altura?
Era um puto normal que fumava as suas ganzinhas e ia ao café beber umas cervejas. Passava a vida a tocar e a compor que era o que eu gostava de fazer. Já vivia um bocado obcecado com aquilo. Era uma boa altura em que ainda não era conhecido. Depois as coisas começaram a piorar.

A piorar porquê?
Porque eu não lidei muito bem com aquela coisa do reconhecimento facial. É muito intrusivo. Perde-se muita da liberdade que a maioria das pessoas tem. Hoje tenho alguma inveja de poder andar incógnito na rua. Por isso é que eu me sinto muito bem fora de Portugal quando vou viajar. Claro que encontro sempre um português lá nos confins do mundo que me reconhece, mas não é a pressão que existe em Portugal.

O ‘Ar de Rock’ foi gravado inteiramente em português, porque a editora já o tinha convencido a deixar o inglês ou porque o Rui quis que fosse assim?
Não. A editora já tinha convencido o Tê a escrever em português. As primeiras coisas que ele fez em português, para além do ‘Chico Fininho’, são precisamente as que estão no disco. Ainda tiveram de entrar duas letras do António Pinho (produtor), porque não existiam mais do Tê. Foram o ‘Miúda’ e o ‘Donzela Diesel’.  

O ‘Ar de Rock’ ainda hoje é apontado como o disco que serviu de ignição ao boom do rock português. Afinal, o que é que ele teve de especial?
Eu acho que foi uma combinação de fatores, as letras do Tê por um lado e a maneira como eu componho por outro, que tem uma amalgama de influências da musica anglo-saxónica, Beatles, Paul Simon ou Crosby, Stills & Nash. Na altura eu ainda ouvia muito Jimi Hendrix e Led Zepplin e aquilo resultou numa mistura que não se ouvia muito em Portugal. E acho que as pessoas foram muito conquistadas por isso. O ‘Afurada’, por exemplo, é claramente um tema que vem do blues.

Algumas letras do disco, especialmente a do ‘Chico Fininho’ foram também elas uma pedrada no charco e secalhar nem eram aconselháveis para todas as idades. Nunca foi censurado por causa do ‘Ar de Rock’?
Sim fui, não só por causa dessa música, mas também, por exemplo, por causa do ‘Bairro do Oriente’ que tinha um verso que dizia "vem a minha casa/ rebolar na cama e no jardim". Essas canções foram censuradas na Rádio Renascença. Soube na altura que foi mesmo a estrutura da igreja que proibiu.

Quem era a criança que aparecia sentada com o Rui Veloso na camioneta na capa do disco?
É um Bruno Salgado, filho de um casal de amigos meus que veio de Moçambique. O pai dele, o Jorge até foi meu sócio num negócio que tive com o meu pai e o meu irmão. O Bruno hoje tem 43 anos e é baterista de uma banda.

E a camioneta era sua?
Não. Era uma daquelas camionetas dos anos 50 de caixa aberta usada para transportar ferro e que estava nas docas numa altura em que havia para lá um monte de oficinas. Pertencia a um mecânico e estava estacionada lá na rua. O engraçado é que aquela sessão de fotografias (e eu só soube isto há pouco tempo), nem sequer foi para a capa do disco, mas foi feita pelo Luis Vasconcelos para uma revista chamada ‘Rock Week’ que era do Luis Vita, um jornalista brasileiro. Essa sessão é que foi aproveitada pela Valentim de Carvalho.

"O Carlos Tê puxava o melhor de mim"

Por causa do sucesso do 'Ar de Rock', no final de 1980 foi convidado para fazer a primeira parte dos Police. Como é que foi esse concerto?
Também já não me recordo de grandes coisas. O que eu me lembro é que foi no Estádio do Restelo e que assim que subimos ao palco, ficámos impressionados com o som. Era como se tivéssemos passado de um Fiat 500 para um Rolls Royce. Dissemos uns para os outros: "Agora já percebemos como é que tocam os grandes". Mas correu muito bem. Tive de tocar duas vezes o ‘Chico Fininho’, até porque o nosso repertório não era grande. Tenho para aqui algumas caessetes gravadas que tenho que voltar a ouvir para ver o que tocávamos.

Mas vocês já gravavam os concertos que faziam?
Não. O início é mesmo isso, ninguém sabe nada de nada, o material era mau, tocávamos em locais péssimo, dei cabo da voz porque mal me ouvia a cantar. Era uma altura em que nós achávamos que tocar alto é que estava bem e por isso cantava aos berros. É um tempo de que não tenho grandes saudades. Era tudo mau, o público não reagia, não batia palmas nem nada. Hoje percebo. Se o som em cima do palco já era mau, imagino o que chegava às pessoas. Devia ser horroroso. Era tudo mau, até o vinho e o whisky.

Devem ter ficado muitas histórias para contar!
Ui!!!! Muitas. Toquei em locais inacreditáveis. Lembro-me, por exemplo, de um concerto que fiz num campo de futebol muito pequenino, em que tive de tocar na bancada com um poste ao meio. Ao pé de Barcelos toquei uma vez numa igreja em construção ainda sem janelas, no meio dos andaimes, ferros e sacas de cimento. Um local impensável para tocar. Às tantas um gajo pôs um spray e tivemos que sair todos a correr à rasca dos olhos. Era o rock n’ rol na altura. E depois andar na estrada também não era fácil. Ficávamos em pensões tão más que nem aquecimento tinham e nós éramos obrigados a dormir vestidos e calçados para não arrefecer os pés. Às vezes, antevendo isso, bebíamos uns copos valentes para chegar à cama aquecidos. Uma noite, dei um concerto perto de Sintra em que o recinto do concerto estava delimitado por quatro camiões TIR. Ou seja, quem espreitasse entre eles via tudo. Foi assim que vi um ensaio surreal do António Variações: ele a dançar com umas tiras de coro à volta do corpo num look muito sado-mosoquista e uns velhotes de boina a olharem para ele como se fosse um here.  

O Rui já passou, entretanto, a barreira dos 60 anos. Esta coisa de ser sexagenário, pesa mais física ou psicologicamente?
É lixado (risos). Não tem interesse nenhum, já dói tudo. E depois começamos a ver o horizonte mais perto e a vislumbrar o fim da linha. Poêm-se muitas coisas em causa, começamos a pensar que se calhar já não temos tempo para fazer coisas que queríamos, nem sequer para ler os livros todos que gostaríamos. A quantidade de ídolos meus que já vi partir, como o Bowie, o Prince ou o Tom Petty ainda nos leva a pensar mais nisto.

E que prazer é que ainda se tira do palco com esta idade?
O palco é a verdade. Nós no palco somos imortais. Ele dá-nos uma sensação de infinitude e de imortalidade que não conseguimos em mais lado nenhum. É viciante e é por isso que os músicos gostam tanto. O palco é a verdade das coisas. Tudo é feito na hora, é como a comida boa. A cabidela feita no momento é que vale a pena, se for acabada de descongelar já não tem o mesmo sabor.

O Rui Veloso já não lança um disco há mais de quinze anos. Porquê?
Porque o Tê decidiu deixar de escrever para mim e não é fácil gravar qualquer coisa. O Tê tinha uma maneira muito musical de escrever e puxava o melhor de mim. Eu acho que não há muita gente a escrever como ele. Já me passaram muitas coisas pela vista mas que não me satisfazem. Ainda tenho alguns temas que fiz com ele que nunca foram gravados e ando agora a ouvir cassetes para recolher algumas coisas. Há temas, por exemplo, que foram gravados já por outras pessoas como a Mariza ou a Lena D’Agua mas que eu nunca gravei.  

Mas não tem pressa de lançar novo disco!
Não, até porque hoje não faz muito sentido gravar discos. Mais vale ir lançando uns singles.

Então o que prevê para o futuro próximo?
Olha! Para o ano o disco ‘Auto da Pimenta’ faz trinta anos e eu estou a pensar tocá-lo ao vivo, o que nunca aconteceu. Foi o meu filho Manuel que me lembrou disso, porque ele chegou a dá-lo na escola. É um disco que é complexo de levar para palco porque tem muitos instrumentos, mas quero mesmo fazê-lo. Não é fácil, mas é possível. É só preciso encontrar um patrocínio. Há ali canções que eu gosto mesmo muito.    

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