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Correio da Manhã

Cultura
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Funeral de José Afonso encheu Setúbal de Cravos vermelhos, há 30 anos

Mais de 30 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre do músico e poeta.
21 de Fevereiro de 2017 às 09:17
O cantor durante uma entrevista ao CM, em 1985
Uma das últimas aparições em palco, no Coliseu de Lisboa, em 1983
José Afonso (à dta) com os dois irmãos em Moçambique, em 1949
O artista com o filho, em 1955
Num jogo de futebol em Mangualde, em 1957 (2º a contar da direita)
Um concerto no Coliseu de Lisboa, em 1974
Uma sessão de gravação com Fausto, em 1974
Numa ação do Comité para a Libertação dos Antifascistas e Revolucionários Presos, em 1976
Em casa, com a mulher Zélia, no início dos anos 1980
Com Otelo Saraiva de Carvalho na campanha para as presidenciais de 1976
A cantar fado em Coimbra, nos tempos de estudante
As várias fotos tiradas pela PIDE nas ocasiões em que foi detido
Uma sessão fotográfica num bairro de lata
José Afonso a ser cumprimentado por Amália, em 1984
José Afonso morreu aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica
O cantor durante uma entrevista ao CM, em 1985
Uma das últimas aparições em palco, no Coliseu de Lisboa, em 1983
José Afonso (à dta) com os dois irmãos em Moçambique, em 1949
O artista com o filho, em 1955
Num jogo de futebol em Mangualde, em 1957 (2º a contar da direita)
Um concerto no Coliseu de Lisboa, em 1974
Uma sessão de gravação com Fausto, em 1974
Numa ação do Comité para a Libertação dos Antifascistas e Revolucionários Presos, em 1976
Em casa, com a mulher Zélia, no início dos anos 1980
Com Otelo Saraiva de Carvalho na campanha para as presidenciais de 1976
A cantar fado em Coimbra, nos tempos de estudante
As várias fotos tiradas pela PIDE nas ocasiões em que foi detido
Uma sessão fotográfica num bairro de lata
José Afonso a ser cumprimentado por Amália, em 1984
José Afonso morreu aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica
O cantor durante uma entrevista ao CM, em 1985
Uma das últimas aparições em palco, no Coliseu de Lisboa, em 1983
José Afonso (à dta) com os dois irmãos em Moçambique, em 1949
O artista com o filho, em 1955
Num jogo de futebol em Mangualde, em 1957 (2º a contar da direita)
Um concerto no Coliseu de Lisboa, em 1974
Uma sessão de gravação com Fausto, em 1974
Numa ação do Comité para a Libertação dos Antifascistas e Revolucionários Presos, em 1976
Em casa, com a mulher Zélia, no início dos anos 1980
Com Otelo Saraiva de Carvalho na campanha para as presidenciais de 1976
A cantar fado em Coimbra, nos tempos de estudante
As várias fotos tiradas pela PIDE nas ocasiões em que foi detido
Uma sessão fotográfica num bairro de lata
José Afonso a ser cumprimentado por Amália, em 1984
José Afonso morreu aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica
Um mar de gente e de cravos vermelhos inundou Setúbal, nessa terça-feira, 24 de fevereiro de 1987, quando José Afonso foi sepultado, no cemitério de Nossa Senhora da Piedade.

Mais de 30 mil pessoas, segundo números oficiais então divulgados, acompanharam o músico, o compositor, o poeta, o combatente, o criador de "Grândola, Vila Morena", que morrera na madrugada anterior, 23 de fevereiro, aos 57 anos, no hospital da cidade.

A antiga Escola Industrial e Comercial de Setúbal, onde José Afonso fora professor duas décadas antes, e de onde a ditadura o expulsara, acolhia agora o seu corpo. No pátio e nas ruas em volta, onde já não cabia mais gente, recitavam-se versos da "Trova do vento que passa", de Manuel Alegre: "Há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não."

Por volta das 15h00, quando a urna, levada em ombros por amigos do músico, apareceu ao cimo das escadas da escola, a multidão, sem qualquer aviso ou combinação prévia, começou a cantar "Grândola, vila morena", a senha do 25 de Abril. Foi a primeira de muitas canções de José Afonso entoadas durante essa tarde.

Os músicos Francisco Fanhais e Luís Cília encabeçavam o grupo que transportava o caixão, coberto por um pano vermelho, sem qualquer símbolo, como o músico pedira, rodeado de cravos e com um pão aberto.

Nas horas seguintes, operários da antiga cintura industrial de Lisboa e pescadores de Setúbal, amigos de José Afonso, familiares, como o irmão João, e companheiros de percurso, como José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Júlio Pereira, reverzar-se-iam no transporte do corpo.

No funeral de José Afonso, não havia luto. Esse era outro dos desejos do cantor.

Todos se juntaram, homens e mulheres, novos e velhos, jovens e crianças, quase sempre de cravo vermelho e punho direito cerrado e erguido. Todos cantaram.

O quilómetro e meio que separa a atual Escola Secundária Sebastião da Gama do chamado cemitério velho, foi percorrido a passo, ao longo de duas horas e meia, ao som da música do cantor, sobretudo "Grândola, vila morena".

A Sociedade Musical da Fraternidade Operária Grandolense juntou-se ao cortejo e eram tantas as pessoas que parecia impossível vislumbrar o início ou o fim da torrente. O trânsito parou. As avenidas 5 de Outubro e Jaime Cortesão ficaram cheias, sem clareiras na multidão.

Muitas fábricas deram tolerância aos trabalhadores, para acompanharem o funeral de José Afonso, assim como a Câmara Municipal de Setúbal, a cidade onde este fundara, ainda antes da Revolução dos Cravos, o Círculo Cultural.

Sindicatos, cooperativas, grupos desportivos, empresas, comissões de trabalhadores, partidos e movimentos políticos manifestaram o seu pesar.

Foi o caso da Intersindical e da União Geral de Trabalhadores, da Frente Revolucionária de Timor Leste Independente (Fretilin), de empresas como a Carris e de outras que eram públicas como a Portucel, a Rodoviária Nacional, EDP ou os CTT.

O Presidente da República Mário Soares lamentou a perda. Figuras da política como Ramalho Eanes, Vasco Gonçalves e Maria de Lourdes Pintasilgo, os socialistas Lopes Cardoso e Marcelo Curto, José Manuel Tengarrinha e Helena Cidade Moura, do MDP, Isabel do Carmo e Carlos Antunes, Jerónimo de Sousa, do PCP, Palma Inácio, da LUAR - Liga de Unidade e Acção Revolucionária, Mário Tomé e Maria Santos, que foram deputados da UDP e do PS, também estiveram presentes, segundo a imprensa da época.

Os escritores Urbano Tavares Rodrigues, os atores e encenadores Maria do Céu Guerra, Helder Costa, Lia Gama e Artur Ramos, o cineasta José Fonseca e Costa, o médico, músico e produtor José Niza (que trabalhara com José Afonso), os músicos Carlos Paredes, Carlos do Carmo, os Trovante, Vitorino e Janita Salomé, o fadista Rodrigo e os espanhóis Luís Pastor e Pi de La Serra também acompanharam o funeral.

Não faltaram o futebolista Diamantino, que jogava pelo Benfica, nem o treinador Joaquim Meirim, do Desportivo das Aves.

Teresa Gouveia, então secretária de Estado da Cultura, esteve presente a nível particular, enquanto o governo, o primeiro liderado por Cavaco Silva, se manteve mudo, como nota a imprensa da época.

Os jornais desses dias também dão conta do esforço da governadora civil de Setúbal, Irene Aleixo, para proibir a realização do velório, na escola, alegando "perturbação emocional da população estudantil".

Mas foram exatamente esses, os mais novos, que acorreram em massa ao estabelecimento de ensino, para acompanhar o funeral.

Um cordão humano, feito por amigos do criador de "Maio, maduro maio", manteve a urna à cabeça do cortejo.

A chegada ao cemitério foi feita ao som da "Balada do outono": "Águas das fontes calai/ Ó ribeiras chorai/Que eu não volto a cantar". Populares agitaram lenços brancos e vermelhos e a filarmónica voltou a tocar "Grândola".

José Mário Branco, Francisco Fanhais, Luís Cília, João Afonso, Pi de la Serra e Camilo Mortágua carregavam a urna.

Às cinco e meia foi depositada na campa rasa n.º 1606.

Foi "um enterro a cantar", num "cemitério vivo", escreveu Nuno Ribeiro, o repórter do Diário de Lisboa.

No final dessa tarde cinzenta e nebulosa, populares gritavam "Zeca estará sempre vivo", e um grupo de jovens, de cravos vermelhos nas mãos, erguia uma enorme faixa branca onde se lia "Zeca, não morrerás entre nós".
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