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Correio da Manhã

Cultura
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HÁ AQUI MAGIA NO AR

Pela primeira vez na sua meia dúzia de anos, o Festival Músicas do Mundo, que começou quinta-feira no castelo de Sines, ramificou-se até à avenida do mais ilustre conterrâneo, Vasco da Gama, para ofertar uma festa tão musicalmente fascinante como inesperada.
31 de Julho de 2004 às 00:00
De Berlim, da Alemanha depois do muro, os Di Grine Kuzine agitaram a pequena multidão. Mistura de idiomas e origens, Kusturica com ska, sons latinos e cabaré, o sexteto – com acordeão, tuba e trompete em liderança alternada – daria o melhor concerto da noite de abertura do mais étnico dos nossos festivais.
CUMPLICIDADES
Antes, no interior das muralhas do castelo, a maioria do público – cerca de quatro mil pessoas – foi apanhado de surpresa quando se deparou com seis grupos corais alentejanos, uma orquestra de 30 músicos e os Ronda dos Quatro Caminhos juntos em palco.
Quase cem elementos dispostos a celebrarem a união do treino clássico com a cadência dos cantos de trabalho. Como se a alma alentejana, as sua melodias e as suas cambiantes polifónicas se tivesse ligado à harmonia de uma orquestra para aproximar regiões, campo e cidade, povo e burguesia. Tocaram como se a música não tivesse espaço nem tempo, como se aquele castelo fosse uma ‘terra de abrigo’ e o cante voasse sobre a planície, transportando com ele o legado dos cancioneiros. O andamento nem sempre foi fácil e os ouvidos nem sempre se mostraram bem- -educados. Os géneros nem sempre coabitaram harmoniosamente e houve algum conflito entre o rigor da escrita orquestral e as cambiantes dos distintos coros.
Mas o que é que isso interessa se o que conta são as cumplicidades e os afectos? Como braços entrelaçados para dar um impulso ao sentido da pátria alentejana.
Os Warsaw Village Band provaram ser o novo grupo de culto da folk europeia. Três jovens casais – músicos e investigadores dos sons oriundos do coração das aldeias do seu país – pegaram nas melodias que os mais idosos lhes ensinaram e transportaram até Sines canções de protesto alternadas com baladas de amor, tocados por instrumentos raros, como a suka – espécie de violino com cinco séculos de vida.
Mas foi o canto, o chamado ‘canto branco’, pela intensa leveza das vozes femininas, o grande responsável por três muito festejados encores. Há aqui uma qualquer magia no ar.
PINTAR A MÚSICA
Gil, 60 anos, francês de Paris, rabiscava, impulsivo, as folhas de papel duro do seu caderno. O lápis, habituado às mestrias do dono, construía com uma rapidez impressionante desenhos erguidos ao ritmo do som. Colocado bem junto ao palco, alternava o olhar para o bloco com o foco apontado à jovem violinista.
Com um ‘curriculum’ invejável, certa vez fartou-se da vida que levava na capital francesa, comprou um barco e partiu com a sua companheira com destino incerto. Há seis anos atracaram ali para as bandas de Odeceixe e por lá se instalaram. Em Sines enalteceu ao CM a importância de “pintar a música, seleccionado o essencial, sem perdas de tempo”, confessando que, apesar da excelente prestação da sua violinista de eleição, a sua música continua a ser a oriunda do mar. Diz que é por ele “não perdoar nada a ninguém”.
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