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Léa Seydoux: “Cheguei a fartar-me de fazer sexo”

A protagonista do filme erótico vencedor da Palma de Ouro em Cannes revela alguns dos segredos da rodagem de ‘A Vida de Adèle’, acabado de estrear no nosso país.

28 de Novembro de 2013 às 20:22
Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux numa cena do filme 'A Vida de Adèle'
Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux numa cena do filme 'A Vida de Adèle' FOTO: D.R.

Correio da Manhã - Este filme é um marco no cinema erótico. Para além disso, um excelente filme. Tinha essa noção quando começou a filmar?

Léa Seydoux – Sabia que a banda desenhada original era de conteúdo erótico e conhecia também o talento do realizador Abdellatif Kechiche, com quem queria muito trabalhar.

- Quando conheceu a Adèle Exarchopoulos, a sua colega neste filme, qual foi a impressão que teve dela?

- Comecei o projeto primeiro e quando a conheci devo dizer que não fiquei logo convencida de que ela poderia fazer este papel.

- Porquê? Era muito jovem e sem experiência?

- Não foi por ser muito jovem, mas porque não gostava da personagem da BD, que era bastante diferente dela. Felizmente, foi apenas uma impressão passageira. Depois tornámo-nos amigas.

- Foi estranho passar para a viver com ela na intimidade?

- No início, sim. Foi o realizador que alterou essa maneira de pensar. Segundo ele, elas não eram personagens, mas sim nós próprias. Foi aí que deixámos entrar os sentimentos e criámos as personagens que estão no filme.

- Ao aceitou o papel, sabia que incluía cenas de sexo?

- Sim, sabia que teria de ir longe nessa exploração.

- Parece muito determinada quando diz isso. Mas qual foi a razão, se posso perguntar?

- Queria muito fazer este papel. E queria envolver-me de uma forma total. Física e emocionalmente.

- De que forma esta experiência a transformou enquanto mulher e atriz?

- Não sei bem, mas foi muito intenso. O realizador pedia-nos para nos fundirmos com a personagem ao longo de um trabalho de sete dias por semana. Foi uma experiência muito dura. Possivelmente, serei hoje uma mulher diferente.

- Sentiu-se desconfortável a fazer amor com uma mulher?

- Sabe, o sexo não foi a parte mais difícil, mas sim estar sempre a representar esta realidade.

- Foi difícil abandonar o seu lado pessoal?

- Acaba por ser algo muito subtil, mas é possível. No fundo, aqui trata-se de uma mistura de mim própria e da personagem.

- Houve algum momento em que pensasse: “Não sou capaz!”?

- Claro. Várias vezes. Só que tinha assinado o contrato e não podia abandonar.

- Acha que este filme pode servir para abrir algumas portas relativamente à forma como se encara a sexualidade?

- Sim, porque não? Apesar de achar que este não é um filme sobre o sexo entre mulheres. Pelo menos, não foi isso que pensei quando fiz o filme. Para mim, era natural. É claro que antes do filme não sabia exatamente o que iria sentir. Mas, no final, acho até que se tornou mais fácil por se tratar de uma mulher. Temos o mesmo corpo, somos amigas, foi divertido. Divertimo-nos muito quando tirávamos a roupa.. (risos)

- Sentiu que havia um limite para as cenas mais íntimas?

- Bom, o limite é que o sexo não era 100% real. Usávamos uma pequena prótese... Ou seja, tínhamos vaginas falsas...

- Como assim?!

- Usávamos uma pequena membrana de silicone, um molde com a forma de uma vagina. Era realmente um acessório muto perfeito, um verdadeiro efeito especial (risos)... Pode parecer um pouco chocante, mas para nós chegava a ser cansativo. A certa altura já nem pensávamos nisso.

- O filme revela algumas cenas muito ousadas de exploração sexual. Algo muito bonito e que nunca tínhamos visto no cinema. O que significou para vocês esta experiência tão profunda?

- Às vezes eram momentos muito intensos, apesar de termos também outros mais humiliantes, pois estávamos rodeadas por três câmaras, num pequeno quarto. E poderíamos passar quatro horas a fazer a mesma cena. Cheguei a sentir-me como uma prostituta.

- De que forma esta experiência alterou a forma como encara a sexualidade, ou a sexualidade entre mulheres?

- Acho que de uma forma geral me ajudou a aceitar melhor o meu corpo. A estar sem roupa e a fazer certas coisas. E a achar isso como algo belo.

- Porquê, não se sentia confortável antes deste projeto?

- Talvez sim quando era ainda uma adolescente. Nessa altura temos um corpo novo que não sabemos exatamente o que fazer com ele. Acho que agora me senti mais como uma mulher. Digamos que já não tenho medo de me mostrar.

- Como se sentiu ao ver-se exposta nua no grande ecrã?

- É algo difícil de analisar, porque foi mais do que fazer o meu papel. Foi uma experiência em que dei tudo o que tinha. Foi um compromisso.

- Era difícil de manter a emoção e a intensidade durante tanto tempo?

- Sim, claro. Apesar de ao longo desse processo não puder evitar ficar com algumas dúvidas sobre o que estava a fazer. Cheguei a fartar-me de fazer sexo! (risos)

- Para si é mais fácil trabalhar com o seu corpo ou com os seus sentimentos?

- Talvez seja mais fácil usar o corpo do que os sentimentos. Ou seja, podemos mentir com o corpo, mas não com as emoções.

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