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Matteo Garrone: “Ele trabalhava de dia e à noite regressava para a prisão”

O realizador italiano Matteo Garrone esteve recentemente em Lisboa a promover o filme ‘Reality’, em estreia esta semana, baseado na história verídica de um homem que vende tudo para entrar no programa ‘Big Brother’. Falámos com ele em Maio, na apresentação mundial do filme no Festival de Cannes, onde venceu o Prémio Especial do Júri. Em destaque, a portentosa prestação de Aniello Arena, na vida real a cumprir uma pena de 20 anos por homicídio.

17 de Janeiro de 2013 às 17:52
O realizador italiano Matteo Garrone, fotografado na última edição do Festival de Cinema de Cannes
O realizador italiano Matteo Garrone, fotografado na última edição do Festival de Cinema de Cannes FOTO: D.R.

Correio da Manhã – Comecemos pelo início. Quando lhe surgiu a ideia de fazer este filme?

Matteo Garrone – Dois anos depois de ‘Gomorra’ (2008) decidi avançar com uma história que já conhecia.

- Trata-se de uma história verídica, certo?

- Sim, o filme é baseado numa história verídica. Que aconteceu a um amigo meu. De início, não tinha a certeza de que daria um filme, pois era demasiado curta.

- Diz que é algo que sucedeu a um amigo seu. Importa-se de esclarecer um pouco?

- Bom, é o que vemos no filme. É algo cómico e ao mesmo tempo trágico. É claro que há coisas inventadas, mas as que inventamos são as mais banais...

- Isso significa então que o seu amigo deu mesmo toda a sua mobília e entrou dentro da casa do ‘Big Brother’?

- Sim, foi isso. Felizmente, agora ele está melhor e irá acabar por voltar a adquirir a peixaria que vendeu e que se vê no filme.

- Chegou a perguntar-lhe o que acha do filme?

- Ainda não viu o filme, mas ficou contente por ter sido feito. E pediu-me para não ser exposto.


- Temos de falar deste ator, Aniello Arena, porque se trata de uma escolha muito particular. Até porque se trata de um homem a cumprir uma pena de prisão...

- Sim, o Aniello é um ator de uma companhia de teatro, que têm ganho muitos prémios em Itália. Aliás, o meu pai era crítico de teatro e lembro-me de ouvir falar muito desta companhia. É claro que está a cumprir uma pena de prisão de 20 anos.

- Mas pôde sair para fazer o filme...

- Sim, ele trabalhava durante o dia e à noite regressava para a prisão. Está preso na Toscânia, mas quando estivemos a filmar em Nápoles, mudaram-no para a penitenciária local.

- Para alguém que cumpre uma pena de prisão tão pesada, a ideia de entrar na casa do ‘Big Brother’ deve ter um significado muito particular...

- Claro, é um paradoxo...

- Sobretudo porque aqui ele faz tudo para entrar numa casa que está isolada do mundo exterior...

- (Risos) É verdade...



- O que foi que viu em Aniello que o fez achar acertado para este papel?

- Eu queria um ator que fosse credível como uma pessoa comum. Por outro lado, a minha forma de trabalhar é um casamento entre a personagem e o ator. No caso dele, que está preso há tantos anos, era também uma forma de descobrir esse novo mundo. Nos olhos dele podemos ver a ingenuidade e surpresa. Ele é uma espécie de Pinóquio. Isso é muito importante para a personagem.

- Na verdade, a intensidade que sentimos nele é mesmo genuína.

- Com outro ator isso seria mais difícil.

- Acha que este filme poderá mudar a vida dele de alguma forma. Ainda que já tenha alterado um pouco. Mas falo das condições de vida...

- A vida do Aniello mudou quando conheceu o Armando Punzo, o diretor da companhia com quem estabeleceu uma relação ao longo de inúmeros papéis relevantes e onde descobriu o seu talento e paixão pela representação. Foi uma vida que mudou há 12 anos atrás.

- Acha relevante sabermos que crime Aniello cometeu?

- Sim, acho que ele estava envolvido numa guerra entre clãs.


- O Matteo era espetador do ‘Big Brother’? Compreende esse fascínio?

- Compreendo. Mas confesso que não vejo muito. Interessava-me mais a ideia metafísica da televisão e essa ideia de um paraíso. É claro que é uma ideia ligada ao sistema de entretenimento para vender sonhos. É marketing. Sobretudo porque muita gente dá prioridade aos sonhos do que à realidade. É algo muito dramático. No entanto não quisemos fazer qualquer juízo de valor.

- É ainda muito importante em Itália o conceito do ‘Big Brother’? Porque em Portugal já foi substituído por outros ‘reality shows’...

- Já está a diminuir. Mas isso é pouco importante.

- O que acha de quem diz que este filme poderia ter sido feito há dez anos?

- Curiosamente, nessa altura pensei nisso, mas percebi que não iria durar muito tempo. Mais do que o programa, interessava-me esta ideia de relação entre uma pessoa e a televisão. É claro que a televisão é muito poderosa em Itália e o cinema luta por estar mais presente... Fazemos cinema com o dinheiro da televisão.

- Tal como em Portugal e um pouco por toda a Europa. Mas, diga-me, gosta de ‘reality shows’?

- Sim, confesso que sim, um pouco. É um daqueles pequenos prazeres...

- E como é que vê esta intromissão de filmes sobre programas de televisão que representam a nossa vida?

- Esse é o grande risco. Porque as histórias sobre a televisão normalmente representam-se a si próprias. Temos de fazer uma interpretação. É por isso que, para mim, este filme foi mais difícil de fazer do que ‘Gomorra’. Todas aquelas cenas na Cinecitta foram difíceis de fazer.


- Acha que poderemos notar nessas cenas alguma presença do ambiente dos filmes de Fellini?

- Claro. Aliás, Fellini está presente em todos os meus filmes. É uma grande referência, bem como outros autores italianos.

- Entre ‘Gomorra’ e ‘Reality’ existem alguma diferenças de nota, ainda que sejam ambos filmes sobre uma realidade profunda...

- Filmei ‘Gomorra’ num estilo muito documental, ainda que este seja concebido como um sonho, uma espécie de conto de fadas. Mas, sim, acabam por não ser muito diferentes. Mas quis mudar, tentar um desafio novo. Esta história era muito simples, mas deu-me também a possibilidade de registar um detalhe irónico, cómico, por vezes, mas também muito trágico.

- É seguramente uma coincidência termos no mesmo ano dois filmes italianos com atores que estão presos (‘César Deve Morrer’). Que tipo de realidade conhece de exemplos de grupos de teatro deste tipo?

- Quando comecei a fazer o casting de ‘Gomorra’ quis escolher atores de teatro. E Salvatore Striano, o protagonista de ‘César Deve Morrer’, também ele prisioneiro, entrou em ‘Gomorra’. É uma coincidência. Mas é um método que uso há muito tempo.

- Acha que no seu próximo projeto continuará a procurar um tipo de realidade semelhante?

- Depende da história. Mas gostava de fazer algo diferente. Gosto de mudar de género.

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