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Correio da Manhã

Cultura
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MUSEUS SÃO NOSSOS AMIGOS

“Queria três bilhetes, um para mim, outro para a minha mãe e outro para a minha avó!”. Não tivesse sido ontem o Dia Internacional dos Museus e muito provavelmente Tiago Pereira, de apenas 12 anos, não teria conseguido levar a mãe, a avó e a irmã mais nova, a passear, por sua “conta”, ao Museu da Marinha, em Belém. “Hoje não se paga nada”, disse-nos.
19 de Maio de 2003 às 00:00
Regresso ao passado: o Museu dos Coches proporcionou às crianças um inesquecível passeio de charrette
Regresso ao passado: o Museu dos Coches proporcionou às crianças um inesquecível passeio de charrette FOTO: José Barradas
Lá dentro, Nuno Ribeiro, 15 anos mais velho, repetia a visita a um museu que gosta de ver detalhadamente e que, por isso mesmo, fizera questão de incluir numa espécie de percurso cultural por Lisboa, num dia em que as entradas apenas contavam para estatística e não para os cofres do Estado: “Já nem sei onde está a minha mulher e a minha filha. Sabe, é que elas vêem estas coisas muito rápido e eu gosto de ler tudo!”
OS AMIGOS E AS CRIANÇAS
De norte a sul do País, o Dia internacional dos Museus comemorou-se sob o lema “O Museu e os Seus Amigos”, uma forma simpática de dizer que os museus precisam cada vez mais de benfeitores, mecenas, parceiros sociais e, sobretudo, do público anónimo, especialmente das crianças. Foi, aliás, a pensar nelas que o Museu dos Coches, por exemplo, abriu as portas, tendo oferecido passeios de “charrette” (bebidas e pastéis de Belém) a cerca de 200 miúdos, grande parte deles da Casa Pia.
“Queríamos assinalar este dia de forma especial e levar a que as crianças percebessem como é que se sentiam os príncipes e as princesas quando passeavam de coche aqui por Belém”, contou ao “CM” Silvana Bessone, directora do Museu dos Coches, que ontem registou um movimento fora do normal. “Felizmente não nos podemos queixar”, confessou.
Mas há quem critique mais por pena do que por provocação. Para Alfredo Marques, de 76 anos, um dos muitos lisboetas que ontem desceu até Belém para ver de perto os “carros” de outros tempos, há uma falta de interesse muito grande dos portugueses para visitarem os seus museus. “Nisso todos temos culpa, incluindo a comunicação social. A televisão, ocupada que está com o caso Felgueiras, por exemplo, quase se esquecia de referir este dia”, criticou. “É preciso incrementar os museus para que as pessoas os venham visitar. Acho que o Ministério da Cultura tem toda a responsabilidade”.
LUTO PELO IRAQUE
No dia que ontem se assinalou, todos os museus do Mundo marcaram o luto pela destruição do património histórico do Iraque. Portugal não fugiu à regra. E à entrada do Museu dos Coches lá estava um manifesto de reflexão por causa da destruição do Museu de Bagdad, para subscrever. “Cada país tem o seu texto e as assinaturas recolhidas serão depois enviadas para a Unesco”, explicou Silvana Bessone.
O documento circula há algum tempo “on line” no “site” do Museu Nacional de Arte Antiga e desde o início de Maio já recebeu centenas de assinaturas.
DE NORTE A SUL DO PAÍS
LOUSADO - O dia foi aproveitado para a inauguração, em Lousado, Vila Nova de Famalicão, do único museu ferroviário do Norte. É “um tributo a todos os ferroviários” que, “de pá e picareta, uniram terras e aproximaram populações”, como frisaram os presidentes da Câmara e do Conselho de Administração da CP, Crisóstomo Teixeira.
PORTO - O Museu Nacional de Soares dos Reis assinalou o dia com a inauguração de uma exposição dos restaurados Biombos Nambam. Datadas do séc. XVII, são peças de arte nipónica revestidas a folha de ouro e inserem pinturas que retratam a presença portuguesa no Japão.
ÉVORA - Cerca de 300 pessoas visitaram ontem o Museu de Évora, o qual fechou as suas portas ao final do dia por um período previsível de dois anos e meio. Neste espaço de tempo, o museu vai ser alvo de obras avaliadas em 4,5 milhões de euros.
FARO - A pintura em placas de gesso foi uma das propostas oferecidas aos visitantes do Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique, em Faro, que registou ontem uma afluência superior à dos restantes dias da semana, já que as entradas foram gratuitas.
MINISTRO EM LAMEGO
DESPESA E INVESTIMENTO
O ministro da Cultura, Pedro Roseta, assegurou ontem que as dificuldades orçamentais de funcionamento dos museus vão diminuir sem que sejam postos em causa os investimentos em curso ou já planeados.
“Faremos todo o possível para assegurar o funcionamento regular do maior número possível de museus, mas toda a gente sabe que estamos num ano excepcionalmente difícil. E não podem pedir que vá sacrificar o investimento a favor do funcionamento”, afirmou na cerimónia comemorativa realizada em Lamego. Roseta apontou o esforço que está a ser feito na remodelação de vários museus, de forma a torná-los modernos e educativos nos próximos dois ou três anos.
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