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Correio da Manhã

Cultura
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O homem é mesmo rei

O trunfo de ‘3121’ mora na capacidade aglutinadora de quem o criou. O tema-título é a exposição superlativa da sua imagem de marca.
22 de Abril de 2006 às 00:00
O rapaz é baixote, carregado de manias e cheio de jogo, egocêntrico e excessivo, capaz de prolongar um solo de guitarra por mais de um quarto de hora (‘Purple Rain’, versão de palco) e de reduzir ao mínimo a instrumentação para criar um clássico (‘Sign Of The Times’, para não precisarmos de mais pesquisa).
Pareceu perder-se pelo caminho, depois de lutas contra a ‘escravatura’ que alegadamente lhe era imposta pela editora, de uma conversão religiosa, de trocar o seu – feliz – nome artístico por um símbolo.
Os que o seguiram ao longo da década de 80 (do século passado, é verdade) e beberam os ensinamentos de ‘1999’ a ‘Batman’ e, para sermos rigorosos, de ‘The Black Album’ (recuperado pela indústria em 1994) já quase se tinham habituado à ideia de que Prince Rogers Nelson tinha passado a ser um artista de fogachos, de episódicos esplendores (espalhados por álbuns como ‘Diamonds & Pearls’, ‘The Gold Experience’, ‘Emancipation’ e ‘Musicology’), mas condenado a misturar ‘palha’, sobretudo se comparada com os altíssimos padrões antes estabelecidos. Esqueçam a sentença condenatória: ‘3121’, o novo disco de Prince, é uma lição intemporal, um passo em frente mas também um desfilar de ideias deixadas lá atrás, um manifesto dos sentidos, mais um tratado – nada teórico – sobre uma das obsessões do artista, o sexo.
O trunfo de ‘3121’, a sua mais--valia, mora na capacidade aglutinadora de quem o criou. O tema-título é a exposição superlativa da sua imagem de marca, um desbobinar aparentemente caótico de vozes graves e agudas, dobradas, trabalhadas, guitarras que parecem desafinadas, inquietas, batida e baixo sincopados, metais em contraponto – um enorme cartão de visita. Que abre portas a ‘Lolita’, um ‘funky’ clássico, saltitante, directo à dança, cheio de pormenores deliciosos – e, no entanto, é uma ‘nega’ à tentação. As cordas (arranjo de Clare Fischer) são fundamentais em ‘Te Amo Corazón’, uma quase balada, quase de sabor latino, outra pérola de adesão imediata. ‘Black Sweat’, escolhida como single, junta-se aos temas de génio com um mínimo admissível de instrumentação – batida obsessiva, pequenos toques de sintetizador. ‘Incense and Candles’ assinala a primeira presença da nova musa de Prince, Támar: o dueto, em contenção, é avassalador, erótico, eficaz.
Depois, há ‘Love’ que recorda as idas sonoridades do ‘disco sound’ (outra vez com Támar), ‘Satisfied’ que retoma as propostas do melhor som negro dos últimos 50 anos (Smokey Robinson e Marvin Gaye podiam estar por aqui), ‘Fury’ que relança pistas de ‘1999’ e ‘Purple Rain’, ‘The Word’ que vale como figura de estilo, envolvente, ‘Beautiful, Loved and Blessed’ que está condenada à perenidade, já com Prince e Támar em duelo aberto pelo ceptro da sensualidade, ‘The Dance’ que escorre simplicidade, e ‘Get On The Boat’, de fazer inveja a James Brown e discípulos – é balanço puro.
Passaram 54 minutos, mas, posso jurar, foram tão bem empregues que quase não se deu por isso. Prince recupera o trono e baralha o ‘ranking’ da música negra. Ainda bem.
TOCA A TODOS
Os arranjos roçam a ‘pompa e circunstância’, o que atenua a crueza encantatória de algumas canções. Mas a voz de CESÁRIA ÉVORA continua única, grave e infalível, em ‘Rogamar’, em que se viaja do êxito para rádio (‘África Nossa’) à verdade rústica (‘Amor e Mar’). Os poderes magnéticos não se perderam. n NICK CAVE e o seu parceiro Warren Ellis assinam uma banda sonora admirável, que sobrevive à falta de imagens. Violino, percussões, guitarra, piano, mais a voz do ‘anjo negro’. Atmosférico mas eficaz, ‘The Proposition’ garante a excelência. E Cave escreveu o guião da fita em três semanas.
MERCADO EXTERNO
Para aqueles que gostam de edições que passam em revista uma obra e lhe juntam raridades, aí está uma proposta irrecusável: ‘Pirate Radio’ traça, exaustivamente, o perfil dos PRETENDERS, de Chrissie Hynde.
Os clássicos estão cá todos, de ‘Precious’ a ‘I’ll Stand By You’. Há versões de Radiohead, Morrissey, Hendrix, Neil Young. Episódios ‘live’, novas misturas e inéditos. No total, 81 canções para quatro CD, mais 19 num DVD. Com a prova global de que Miss Hynde abriu novos caminhos às mulheres rock.
TOCA E FOGE
Ainda resistimos a um single, mesmo sujeito a mais remisturas do que deputados em falta em véspera de feriado. Em álbum, é insuportável. Por outras palavras, o BOB SINCLAR de ‘Love Generation’ quis mais do que uma cantiguinha com o álbum ‘Western Dream’.
E tramou-se: é um pesadelo de vulgaridade. n Há muito que a voz de JOANNA não surpreende e que o repertório já nem desilude – não se esperam melhoras. Mas ‘Ao Vivo Em Portugal’ consegue irritar, quando ela decide apoderar-se de um tema de Amália (e logo ‘Estranha Forma de Vida’) e de outro de Rui Veloso. E se estivesse quietinha?
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