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Correio da Manhã

Cultura
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Paulo Branco lamenta a morte de Bertolucci, realizador que trouxe "uma nova linguagem" ao cinema

Produtor português tinha uma amizade próxima com o mestre italiano e lembra a importância da sua obra.
Lusa 26 de Novembro de 2018 às 12:20
Paulo Branco
O produtor Paulo Branco, ontem na apresentação do 12º Lisboa & Sintra Film Festival
 O cineasta italiano Bernardo Bertolucci
O cineasta italiano Bernardo Bertolucci
Bernardo Bertolucci em 2014
Paulo Branco
O produtor Paulo Branco, ontem na apresentação do 12º Lisboa & Sintra Film Festival
 O cineasta italiano Bernardo Bertolucci
O cineasta italiano Bernardo Bertolucci
Bernardo Bertolucci em 2014
Paulo Branco
O produtor Paulo Branco, ontem na apresentação do 12º Lisboa & Sintra Film Festival
 O cineasta italiano Bernardo Bertolucci
O cineasta italiano Bernardo Bertolucci
Bernardo Bertolucci em 2014
O produtor de cinema Paulo Branco considerou esta segunda-feira que a morte de Bernardo Bertolucci, com quem mantinha uma amizade próxima, "é uma perda enorme para o cinema", destacando que o realizador italiano trouxe uma "nova linguagem cinematográfica".

Bernardo Bertolucci, realizador responsável por filmes como "O Último Imperador" e "O Último Tango em Paris" - cujo erotismo chocou o mundo no início da década de 1970 -, morreu esta segunda-feira, em Roma, aos 77 anos, informaram os meios italianos de comunicação social.

"Era um dos grandes criadores, dos últimos que acompanharam toda a evolução do cinema desde o início dos anos 60, que trouxeram ao cinema uma nova linguagem cinematográfica", afirmou o produtor português à Lusa.

Apesar disso, foi um realizador que "nunca esqueceu o público", lembra o produtor, assinalando que Bertolucci "foi daqueles criadores que conseguiu, ao mesmo tempo que era extremamente inventivo, ter uma difusão mundial, inclusivamente nos Estados Unidos".

Paulo Branco dá como exemplo "O último imperador", que se encontra entre os filmes que mais Óscares conseguiu, a par de "West Side Story", "Titanic", "Ben-Hur", "Gigi" e "O Senhor dos Anéis".

Ao mesmo tempo - sublinha - foi alguém que "sempre acompanhou as contradições da história, através de frescos como '1900'", que aliou o cinema à psicanálise, como se verificou em "La Luna", e que sempre foi "um observador de tudo o que de importante se passava na civilização ocidental".

Paulo Branco refere também "Little Buddha" ["O pequeno Buda"], "um filme sobre outros modos de pensar", e que contribuiu para a difusão do que era o budismo em termos mundiais, através do cinema.

"Eu creio que foi a primeira vez que isso aconteceu e isto, logicamente, por um realizador ocidental", destacou.

Para Paulo Branco "o cinema fica mais pobre, muito mais pobre", e os amigos "perderam alguém com quem aprendiam cada vez que estavam com ele".

Recorrendo ao seu próprio caso -- uma vez que era amigo pessoal do realizador italiano -- Paulo Branco recorda que cada vez que se encontrava com ele, "era uma fonte de prazer e de aprendizagem".

"Sobretudo, [era] alguém que era de uma enorme generosidade e de uma enorme curiosidade: ele sempre queria saber o que estávamos a fazer, que filmes é que fazíamos, que mostrássemos. Sempre acompanhou a obra de colegas, como por exemplo, ele tinha uma enorme admiração por Manoel de Oliveira e muitos outros, e, portanto, estamos órfãos de mais de um grande artista".

Poeta, produtor, guionista e cineasta, era considerado "o grande mestre" do cinema italiano.

Bernardo Bertolucci nasceu a 16 de março de 1940, em Parma, Itália, tendo estudo Literatura Moderna na Universidade de Roma.

Em 1961, participou como assistente de realização do filme "Accatone", de Pier Paolo Pasolini.

No ano seguinte dirigiu a sua primeira longa-metragem, "La Commare Secca", e, dois anos depois, "Prima della rivoluzione"/"Antes da Revolução".

Depois de algumas curtas-metragens e documentais, em 1970 dirigiu a longa-metragem "Il Conformista"/"O Conformista", baseado na obra de Alberto Moravia, e "La Strategia del Ragno"/"A Estratégia da Aranha", a partir do conto homónimo de Jorge Luís Borges.

Em 1972, realizou "O Último Tango em Paris", filme que causou polémica um pouco por todo o mundo devido às cenas de sexo, com Marlon Brando e Maria Schneider como protagonistas.

Com o "Último Tango em Paris", Bertolucci foi nomeado, pela primeira vez, para o Óscar de Melhor Realizador.

Em 1976, dirigiu o épico "1900", que contava no elenco com nomes como Robert de Niro, Gérad Dépardieu, Donald Sutherland, Burt Lancaster, Sterling Hayden e Dominique Sanda. O filme teve a primeira exibição portuguesa no antigo Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, em 1976, certame que também estreou em Portugal "A Estratégia da Aranha".

Destaca-se, em seguida, "A Tragédia de Um Homem Ridículo", com com Ugo Tognazzi, rodado em 1981.

Em 1987, Bertoluicci dirigiu "O Último Imperador", um sucesso mundial, tendo sido galardoado com nove Óscares, entre os quais o de Melhor Filme e Melhor Realizador.

Voltou ao cinema com "Um Chá no Deserto", "O Pequeno Buda" (1993), "Beleza Roubada" (1996) e "Assédio" (1998).

"The Dreamers"/"Os Sonhadores" (2003) e "Io e te"/"Eu e Tu" (2012), estreado em Portugal em outubro de 2013, culminam uma carreira distinguida com 49 prémios, da Academia de Hollywood, com os seus Óscares, aos Globos de Ouro da Associação de Imprensa Estrangeira, em Los Angeles, do Festival de Berlim, aos festivais de Cannes e Veneza.

Em 2011 recebeu a Palma de Ouro honorária, por todo o seu percurso, e, em 2007, o Leão de Ouro de carreira, do festival de Veneza.

Em 19 de novembro de 2013, o Passeio da Fama de Hollywood ganhou uma estrela com o seu nome.

Bertolucci foi homenageado na edição de 2008 do Lisbon & Sintra Film Festival (LEFFEST), dirigido por Paulo Branco, que, no ano passado, exibiu de novo "1900" e "A Tragédia de Um Homem Ridículo".

No domingo, o festival exibiu "O Conformista", "um incisivo retrato" de um homem atraído pelo fascismo, que deu ao realizador a primeira nomeação para os óscares e a primeira distinção em Berlim.
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