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Correio da Manhã

Cultura
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POESIA PERDE SOPHIA DE MELLO BRYNER

Um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa, a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu ontem em Lisboa, aos 84 anos. A escritora estava internada há cerca de 15 dias no Hospital da Cruz Vermelha.
3 de Julho de 2004 às 00:00
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 1919, no seio de uma família aristocrática, de origem dinamarquesa pelo lado paterno. Começou a escrever aos 12 anos, com grande apoio do pai, que pagou a edição do seu primeiro livro, ‘Poesia’, editado em 1944.
Desde então publicou 37 obras poéticas, de prosa, teatro, ensaios, traduziu Caudel, Hamlet, Shakespeare e Dante e escreveu também livros infantis. Entre estes últimos encontram-se títulos como ‘O Rapaz de Bronze’, ‘Fada Oriana’, ‘Cavaleiro da Dinamarca’ ou ‘A Menina do Mar’, incialmente destinados aos seus cinco filhos (dos quais se distinguiu Miguel Sousa Tavares), mas que rapidamente se transformaram em clássicos da literatura infanto-juvenil que marcaram a memória de sucessivas gerações de jovens leitores. Sobre esta vertente da sua obra, o ensaísta Eduardo Lourenço considerou, num ensaio sobre a poetisa, tratar-se de um nome singular “predestinado”, através do qual, “sucessivas gerações de portugueses encontraram, ainda meninos, um sentido para a palavra poesia”.
A eterna candidata’ ao Prémio Nobel viria a fixar-se definitivamente na capital após casar-se com o advogado Francisco Sousa Tavares. Em Lisboa, a poesia e o activismo contra a ditadura de Salazar, foram actividades inseparáveis, que então absorveram todas as suas energias. Se, por um lado, a intervenção cívica era constante, tendo sido inclusivamente uma das fundadoras da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, por outro, usou a poesia como veículo de liberdade, especialmente em ‘O Livro Sexto’. Conquistada a liberdade, após a Revolução de Abril de 1974, foi deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista.
Mas embora a política não lhe tenha passado ao lado, era pela poesia que Sophia de Melo Breyner tinha um fascínio absoluto, o que ficou demonstrado quando, por exemplo, confessou em entrevista dada em 1991 ao ‘Jornal de Letras’, recordar--se de “descobrir que, num poema, as palavras não podiam ser decorati-vas, tinham que estar ali por serem absolutamente necessárias”.
A tradição mediterrânica, a cultura grega, a luz, o mar, o amor e o trágico eram os temas predilectos de Sophia. “O verdadeiro artista não inventa, vê”, afirmou numa das muitas entrevistas que deu, explicando que o artista “consegue apreender na natureza, nos elementos, o elo primordial que une o Homem ao Universo”.
A grandeza e a singularidade do percurso literário de Sophia têm sido reconhecidas através de diversos prémios, em Portugal e no estrangeiro (ver caixa).
Era também uma mulher de fé, defendendo que a religião não condiciona o humano, “mas funda-o”. E para escrever, Sophia admitia precisar apenas de “paz, silêncio e liberdade”.
ALGUNS PRÉMIOS
Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores (1964), Prémio Teixeira de Pascoaes (1977), Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1984), Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (1992), Prémio “Vida Literária” da Associação Portuguesa de Escritores (1994), Placa de Honra do Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italianos (1995), Prémio Camões (1999), Prémio Rainha Sofia de Espanha (2003), Medalha de Honra do Presidente
do Chile (2004)
REACÇÕES
JORGE SAMPAIO - PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Para o Presidente da República, a morte de Sophia de Mello Breyner é “uma perda irreparável para a cultura, que ela tanto enriqueceu”. Em declarações à Lusa, Sampaio considerou ainda que a obra da poetisa é de “sabedoria e atenção ao universo e à sua claridade”, destacando ainda a “corajosa combatente pela liberdade”.
PEDRO ROSETA - MINISTRO DA CULTURA
Pedro Roseta, ministro da Cultura frisou que Sophia de Mello Breyner merece ser lembrada como “um dos nosso maiores poetas de sempre”. Em comunicado, o ministro classificou ainda a poetisa como a “voz da liberdade mas também de celebração e magia”, sublinhando a “sua luta pelos direitos da pessoa humana”.
MAFALDA ARNAUTH - FADISTA
A fadista Mafalda Arnauth, que canta o poema ‘As fontes’ de Sophia de Mello Breyner, referiu-se à poetisa como sendo autora de uma “escrita divina” e “de um estado de alma inesquecível”. Para a fadista, o poema ‘As Fontes’ a que dá voz é “quase uma mensagem” para a própria poetisa, que “foi ter com a raiz do ser dela”.
EDUARDO LOURENÇO - ENSAISTA
“Uma das vozes mais extraordinárias da poesia portuguesa do século”, com uma “obra já fora do tempo, no coração do tempo”. Foi deste modo que o ensaísta Eduardo Lourenço reagiu à notícia da morte de Sophia de Mello Breyner, que considerou ainda uma “grande figura cívica”.
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