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Correio da Manhã

Cultura

Sou um tipo frio

Joel Costa foi mau aluno e pior escriturário, mas isso foi antes de ser quem queria: bom cantor lírico e tão bom ou melhor escritor, a avaliar pelas reacções ao livro ‘O Assassino de Salazar’ (ed. Casa das Letras), o primeiro de quatro ficções sobre fundo histórico: o da geração que fez a Guerra Colonial.
14 de Dezembro de 2007 às 00:00
“Sou uma pessoa comum da minha geração, com histórias do meu tempo para contar, sem qualquer formação académica mas com uma lista disparatada de actividades que resulta, em parte, pelo espírito de aventura, em parte, pela experiência de vida... A verdade é que sempre fui um péssimo estudante e tinha uma certa consciência disso, logo, tinha de ganhar dinheiro para não andar sempre a cravar os meus pais que não eram ricos. Assim, aproveitei todas as oportunidades de mudar e de variar, o que durou até aos meus 37 anos, quando me tornei empregado de escritório... Péssimo empregado de escritório”, recorda.
Foi de tertúlia em tertúlia que o jovem desassossegado travou conhecimento com a ópera e a literatura. A rádio chegou mais tarde, mantendo, às segundas, na Antena 2, o programa ‘Questões de Moral’.
“Estávamos na década de 60 e Lisboa fervilhava de cafés-tertúlia que eu frequentava tanto quanto podia. E isto fez com que, como leitor e ensaiador de escritas, tenha começado muito cedo. Um dia também descobri a ópera e soube que era aquilo que queria fazer. Aconteceu em 1962 e demorou 20 anos a concretizar mas, entretanto, fui cantando e ganhando a vida”, diz.
Nestes 20 anos, acontece a Guerra Colonial e, com ela, a matéria-prima do escritor.
“Graças ao muito dinheiro, mal ganho, na guerra, vinha eu disposto a investir na carreira de cantor quando me aconteceu um mistério ainda hoje por explicar: acabado aquele pesadelo de um ano e um mês seguido no mato sem ver uma escada, um Volkswagen, um espelho de corpo inteiro, uma vez cá, vivi dois meses de uma angústia profunda. Vagueei e vadiei pela cidade... É a parte biográfica que há de mim no livro, metáfora de um Portugal imperial, mas, e ao contrário do protagonista, eu sou um tipo frio. Nunca dei uma estalada mas talvez me tenha apetecido uma vez ou outra”, confessa.
O segundo volume, ‘Comédia para a Noite de 24 de Abril’, está pronto!
“Acho inevitável a perseguição do autor pelas personagens e é com muita dor que me vejo livre delas. Terminado um livro, fico sempre em depressão pós-parto”, revela.
Organizado e disciplinado, prefere as manhãs às noites e a interioridade da casa à personalidade dos cafés.
“A noite é boa conselheira para um tipo de escrita mais intimista do que a minha que requer disciplina e tende para o barroco, além disso, tenho insónias”, brinca.
Quando não canta nem ensaia, não escreve nem faz pesquisa histórica, prepara as participações na rádio. E... “Fujo como o diabo da cruz de elogios e de críticas. Detesto ambos”, conclui.
PESSOAL
UM RITUAL
“É, simultaneamente, um ritual e um vício: fumar um último cigarro antes de me deitar... Comecei a fumar bastante tarde mas tenho recuperado a bom ritmo.”
UM MEDO
“A miséria. Há uma que tenho garantida e que é a velhice, a decadência, a impaciência mas não temo menos a outra, a económica... Tenho medo de coisas concretas!”
UMA INSPIRAÇÃO
“O trabalho é o ritual da inspiração... Mas há uma coisa concreta que me inspira muito a escrever: o ritmo verbal da escrita do William Faulkner, a quem muito admiro.”
UMA MÁXIMA
“Nem sempre nem nunca”... E tinha pilhas de chique dizer-lhe isto em latim mas, com grande pena minha, não sei como!”
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