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Correio da Manhã

Cultura
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Tennessee Williams com cheiro a laranja

É um espectáculo de teatro que deve muito à linguagem da ‘performance’ este ‘Camino Real’, peça de Tennessee Williams que o Teatro da Garagem acaba de estrear, no Taborda, em Lisboa, onde pode ser visto até dia 7 de Fevereiro. Num trabalho fortemente sensorial, apela-se a todos os sentidos... com excepção do tacto.
31 de Janeiro de 2010 às 19:38
Carlos J. Pessoa é o encenador de 'Camino Real'
Carlos J. Pessoa é o encenador de 'Camino Real' FOTO: D.R.

É a mais recente encenação de Carlos J. Pessoa, que, entre as peças de Tennessee Williams, escolheu a mais onírica e menos realista, um texto que muitos apelidam de barroco e que, aquando da sua estreia absoluta, em 1953, foi considerada a pior peça do autor, resultando num retumbante fracasso de público e de crítica.

 

Em ‘Camino Real’ não se conta uma história – pelo menos uma história que se possa perceber. O espectáculo é, antes, uma espécie de desfile de personagens estranhas, muitas delas nomes reconhecidos da literatura mundial – como ‘Dom Quixote’, ‘Marguerite Gautier’ (de ‘A Dama das Camélias’) ou a cigana ‘Esmeralda’ (de ‘O Corcunda de Notre Dame’) – ou pessoas que existiram realmente, como o poeta Lord Byron e Casanova, o famoso sedutor.

 

A acção decorre numa cidade imaginada da América Latina – ‘Camino Real’ – e estas personagens cruzam-se umas com as outras e dão-nos a conhecer os seus dramas: falta de dinheiro, falta de amor, ausência de um propósito para a vida, perda dos ideais e inevitabilidade da morte. Este cenário já de si caótico é usado pelo encenador Carlos J. Pessoa para construir um espectáculo sensorial, que envolve o espectador num turbilhão de experiências, e que parece improvisado a cada instante – como se de uma ‘performance’ se tratasse.

 

Ao entrar no Taborda, o espectador começa por ser conduzido ao palco, onde se senta, e lhe é oferecido um bolo (uma areia do deserto). Depois, e não necessariamente por esta ordem, ‘Dom Quixote’ procura ‘Sancho Pança’, Casanova procura ‘Marguerite’, uma cigana oferece a virgindade da sua filha, um boxeur a quem roubaram a carteira vende as suas luvas de ouro em troca de dinheiro. Isto enquanto uma actriz deita fogo a um coração pendurado na teia, um actor faz de conta que corre enquanto as suas mãos ardem, um outro fotografa o público, várias câmaras filmam os espectadores e exibem as imagens em ecrãs de computadores espalhados pela cena. Uma actriz descasca e come uma laranja, enchendo o palco com o cheiro intenso dessa fruta.

 

Interactivo sem ser intrusivo, ‘Camino Real’ oferece-se como uma experiência interessante e diversificada, e é garantia de um serão ‘diferente’. Com interpretações de Ana Palma, Emanuel Arada, Fernando Nobre, Joana Jorge, Maria João Vicente, Miguel Damião e Miguel Mendes, o espectáculo inicia, no percurso do Teatro da Garagem, um Ciclo Americano que contemplará ainda, até 2011, textos de Edward Albee e de Eugene O’Neill, para além de uma outra peça de Tennesee Williams, a definir.

 

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