Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
4

“Todos temos uma obrigação social”

Helder Macedo, poeta e prosador, ensaísta e catedrático, acaba de publicar um novo romance, ‘Natália’, idealista mas sem ilusões. Como o seu autor.

6 de Março de 2009 às 00:30
“É preciso espírito combativo em relação às ideias, não às pessoas”, diz
“É preciso espírito combativo em relação às ideias, não às pessoas”, diz FOTO: Luísa Ferreira

"Acredito que o Mundo pode ser melhorado. Podemos fazê-lo. Todos temos uma obrigação social. Para mudar alguma coisa, a pessoa tem de ter uma boa dose de idealismo mas para ser minimamente eficiente não pode ter ilusões. É preciso espírito combativo em relação às ideias, não às pessoas. Há que dizer que não, entendendo e respeitando que haja quem diga que sim", conta.

Questionado sobre o que o faz dizer ‘não’, a resposta vem célere, a remeter para o livro: "A descrença crescente das pessoas na possibilidade de viverem bem umas com as outras... Vivemos, com esta crise, o triunfo do egoísmo. Há capitalismos e capitalismos mas este, porque é selvático, é ofensivo e excessivo. Resultado: as pessoas andam inquietas, desanimadas e descrentes e este romance lida com este cenário de crise. A retórica das causas políticas deixou de fazer sentido, pelo menos com o vocabulário herdado do século XIX, mas falta alternativa."

Na obra e na vida de Helder Macedo não falta o espectro da polícia política portuguesa mas, fora de ficção, não temos herói romântico: "Passei ao lado do romantismo do herói da época. Evitei sempre ser perseguido ou preso. Desse tempo recordo que aprendi a importância do ‘não’ mas estava mais para anarca do que para antifascista militante. Tinha era amigos nessa condição – os surrealistas do café Gelo – e fiz como eles. Exilei-me em Londres, onde fui ficando. Até hoje", diz.

Com ‘Natália’, recém-chegado às livrarias, o tempo é de ressaca: "Segue-se a edição da obra completa de Bernardim Ribeiro mas, antes, preciso de um tempo para ressacar, descansar e passear, beber uns copos e relaxar."

PESSOAL

A FELICIDADE NA TERRA

"Camões foi um modernista. Um homem que andou à procura de verdades relativas e não absolutas. E isto no século XVI. O projecto dele era encontrar a felicidade na terra, conceito só muito tardiamente aceite nas culturas contemporâneas."

O PRAZER DA FICÇÃO

"Um dos prazeres de escrever ficção é que se escreve sobre aquilo que não se é. Pelo menos, eu escrevo sobre aquilo que não sou."

A HERANÇA COLONIAL

"Tenho um primeiro livro parcialmente incluído no romance de estreia, ‘Partes de África’, único semi-autobiográfico, onde repudio a herança colonial mas não a relação familiar. Intacta."

 

Ver comentários