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Correio da Manhã

Cultura
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Viagem no tempo fascina há 100 anos

O Museu Nacional dos Coches (MNC), em Belém – o mais visitado do País – assinala amanhã o seu centenário com a inauguração de uma exposição evocativa de Lisboa em 1905, um café-concerto e a entrada em circulação de uma emissão filatélica produzida pelos CTT Correios para assinalar a efeméride.
22 de Maio de 2005 às 00:00
Viagem no tempo fascina há 100 anos
Viagem no tempo fascina há 100 anos FOTO: Pedro Catarino
E, até ao final do ano, promove uma programação comemorativa, com actividades para adultos e crianças, a fim de divulgar uma colecção única e famosa não só em Portugal como além-fronteiras.
No dia 23 de Maio de 1905, a rainha D. Amélia – mulher de D. Carlos I – inaugurou o então designado Museu dos Coches Reais, no antigo Picadeiro Real, edifício neoclássico construído em 1786 com projecto do arquitecto italiano Giacomo Azzolini. Transcorridos cem anos, este espaço museológico continua a fascinar portugueses e turistas, com um acervo que convida a uma ‘viagem’ pelo tempo.
Em duas salas, o MNC distribui uma colecção de 54 viaturas de gala e de passeio dos séc. XVII a XIX, procedentes da coroa, da Casa Real portuguesa, do Patriarcado de Lisboa e de algumas casas nobres.
O Salão Nobre, cujo tecto está decorado com pinturas de motivos equestres, exibe os exemplares mais antigos e os mais espectaculares, representativos de poder real, pompa e riqueza. Destes, destacam-se o raro exemplar de coche de viagens de Filipe II, as três monumentais viaturas da Embaixada ao Papa Clemente XI e um coche de D. João V (primeira metade do séc. XVIII), com os 12 símbolos do Zodíaco nas rodas.
Numa sala lateral, projectada em 1940 pelo arquitecto Raul Lino, estão reunidas 35 viaturas do século XIX. São modelos mais rápidos, robustos e simples.
Além da berlinda processional, usada na Procissão de N. S. do Cabo, a sala acolhe também a Carruagem da Coroa (1824), utilizada pela última vez pela rainha Isabel II; o Coche de Mesa (primeira metade do séc. XVIII), viatura de viagem usada na ‘Troca de Princesas’.
Peças que provocam a admiração de quem as observa, como a norte-americana Dotti Brockbank: “Nunca tinha visto uma colecção como esta. É extraordinária”, comentou ao ‘CM’ a turista que permaneceu longos minutos diante dos coches.
Uma colecção “espectacular”, no entender da angolana Lurdes Viola, que, confessou, a transportam “no tempo”. “Valeu a pena a visita”, garantiu.
O MNC recebe, diariamente, visitas escolares, compostas por crianças e jovens. Mas são os mais pequenos que se exprimem de forma mais efusiva.
Aida Dinis, com quase 32 anos ao serviço do MNC, confirma: “As crianças são as que mais perguntas fazem e as que mais se entusiasmam”. E a viatura que mais curiosidade desperta é a que pertenceu a Filipe II. A razão reside nos orifícios situados sob as almofadas dos assentos e que serviam de retrete...
"É O ÚNICO QUE ENCHE OS COFRES DO ESTADO"
Silvana Bessone é, desde 1991, a directora do MNC. Em entrevista, confessa ser “muito extenuante procurar patrocínios para a cultura”:
Correio da Manhã – O que representam estes cem anos para o MNC?
Silvana Bessone – O Museu teve um percurso importantíssimo no panorama museológico português e internacional. Além de ser o museu nacional mais visitado, reúne a melhor colecção do Mundo de carruagens e coches reais dos séculos XVII a XIX, tanto pela qualidade como pela quantidade.
Quais os objectivos que levaram à sua criação?
– Foi uma iniciativa da rainha D. Amélia, que percebeu que esta fabulosa colecção tinha grande valor e devia ser protegida. O antigo picadeiro real, na altura vazio, foi readaptado pelo arquitecto Rosendo Carvalheira, José Malhoa trabalhou na recuperação das pinturas dos tectos e muitos dos coches foram restaurados para a abertura.
Quantas peças compõem a colecção?
– Cinquenta e quatro veículos, entre coches, berlindas, carruagens, seges, cadeirinhas e liteiras. A mais antiga é um coche de viagem de Filipe II, construído em Espanha em finais do séc. XVI, início do séc. XVII. Famosos e únicos são os três coches da Embaixada do Marquês de Fontes ao Papa Clemente XI, construídos em Roma em 1716 e um conjunto de modelos franceses do séc. XVII, habitualmente estudados por especialistas que se deslocam até Lisboa para o efeito.
Quais as mais valiosas?
– Todas são, mas, pelo aspecto histórico, destacam-se os coches da Embaixada: dos dez construídos, restam estes três. O de Filipe II não tem a espectacularidade dos anteriores mas é importantíssimo por ser o modelo mais antigo do Mundo.
Há algum coche que ainda seja utilizado hoje?
– O último foi a Carruagem da Coroa (séc. XIX) aquando da visita de Isabel II a Portugal, em 1957. Porém, existe uma berlinda (séc. XVIII) que transporta uma pequena imagem da Virgem, na procissão de N. S. do Cabo Espichel, uma tradição antiga, em que a imagem sai do santuário e só regressa 25 anos depois já que, anualmente muda de freguesia.
Qual a média de visitantes por dia e por ano?
– Quando há um evento cultural importante, como a Expo’98 ou a Lisboa’94, atingimos 320 mil visitantes/ano, ou seja, uma média de mil pessoas/ dia. Num ano normal recebemos entre 240 a 250 mil visitantes, uma média de 600/700 pessoas/dia, sendo a época forte entre Maio e Outubro. Ultimamente, temos tido um novo tipo de turismo, o dos barcos de cruzeiro, e aumentaram os grupos de terceira idade.
Um sucesso de bilheteira, portanto! Tem problemas de pessoal e de dinheiro?
– Em termos de receita, é excepcional, pois é o único que enche os cofres do Estado. Mas esse dinheiro não reverte ao museu, o que gera uma falta enorme de estímulo. Debatemo-nos com falta de pessoal (funcionários que se reformam e não há contratos novos) e de dinheiro para bens de consumo (papel, tinteiros) e para promover mais iniciativas. O apoio do mecenato é essencial, mas é muito extenuante procurar patrocínios para a cultura...
Afinal, o MNC vai ou não mudar de instalações?
– Esse assunto é recorrente, mas não estão ainda criadas condições efectivas para que tal aconteça. O MNC é um ‘ex-libris’ mundial e qualquer mudança pode ser leviana. Sou favorável à ideia de um museu novo, contemporâneo e moderno. Porém, não podemos esquecer que funciona no seu todo: uma colecção única num magnífico salão.
PERFIL
Licenciada em História e Mestre em História de Arte, Silvana Bessone nasceu a 21 de Agosto de 1951, é casada e tem três filhos e outros tantos netos. Conservadora de museu desde 1985, assumiu em 1991 a direcção do Museu Naconal dos Coches – é membro do Comité internacional de Museus de Transportes e da Direcção do ICOM, Comité Internacional de Museus.
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