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Correio da Manhã

Cultura
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VINTE ANOS SEM ARY DOS SANTOS

'A Desfolhada', 'Estrela da Tarde', 'Cavalo à Solta' e 'A Tourada' são apenas parte do legado que o poeta José Carlos Ary dos Santos deixou à poesia e às canções portuguesas quando morreu, a 18 de Janeiro de 1984.
18 de Janeiro de 2004 às 00:00
 Ary dos Santos era, à data da sua morte, o poeta português mais ouvido
Ary dos Santos era, à data da sua morte, o poeta português mais ouvido
Nascido numa família da burguesia a 7 de Dezembro de 1936, Ary dos Santos perdeu a mãe na adolescência, nunca se recompondo da ausência do afecto materno, como denotam muitos dos seus poemas, simultaneamente amargos e doces.
Estudante rebelde e turbulento, cedo começou a ler todas as obras a que conseguia deitar mão, tendo, inclusivamente, arrombado um armário onde o pai guardava livros.
PRECOCIDADE POÉTICA
Aos 15 anos estreou-se com 'Asas', tendo Ramiro Guedes de Campos escrito no prefácio que se tratava de "um caso autêntico de precocidade poética" e de um autor com "uma rara intuição" na poesia. Em 1953, num acto de ruptura com o pai, com quem tinha poucas afinidades, saiu de casa e foi viver sozinho, trabalhando em diversos ofícios até se iniciar como publicitário.
Apesar da sua carreira na publicidade, Ary dos Santos ficou conhecido sobretudo como autor dos poemas das canções que venceram sucessivas edições do Festival RTP da Canção: 'Desfolhada' (1.º prémio em 1969), parceria com Nuno Nazareth Fernandes, cantada por Simone; 'Canção de Madrugar (2.º, 1970); por Hugo Maia de Loureiro; 'Menina' (1.º, 1971), por Tonicha; e 'Tourada' (1.º, 1973), por Fernando Tordo.
Ligado ao Partido Comunista, ao qual deixou, em testamento, a quase totalidade dos bens, Ary dos Santos foi, antes e depois do 25 de Abril de 1974, um militante vigoroso, sobretudo através da poesia que escrevia e declamava. Na política como em tudo na vida, o seu carácter mostrava-se ora irascível e contundente, ora terno e generoso, mas sempre frontal, o que se prova pelo facto de ter assumido sem problemas a homossexualidade numa sociedade e época ainda bastante conservadoras.
Vivendo entre frases publicitárias, obras impressas, discos gravados e sessões de declamação, José Carlos Ary dos Santos era, à data da sua morte e após centenas de canções escritas, o poeta português mais ouvido.
Mas apesar da presença constante no mundo do espectáculo e da sua casa ser local de paragem de muitos amigos, aos quais gostava de brindar com alcunhas e presentes, a solidão foi a companheira fiel nos últimos anos de vida.
FERNANDO TORDO
"O que eu sinto pelo José Carlos Ary dos Santos está explícito e documentado nas muitas canções que fiz com ele. É uma obra que eu interpreto há mais de 30 anos. É uma atitude diária e não apenas algo de que me lembre nas datas de aniversário."
SIMONE DE OLIVEIRA
"Era um homem louco. Um homem que se amava ou odiava, porque também era um excêntrico. Eu amei-o muito. Recordo com imensa ternura a amizade e o carinho que ele tinha por mim... e as tertúlias que ele organizava na sua casa, na Rua da Saudade."
CARLOS DO CARMO
"José Carlos Ary dos Santos foi um poeta de formação erudita que conseguiu ser popular, elevando o patamar do gosto e o critério da palavra no fado. Existe um fado pré-Ary dos Santos e um fado pós-Ary dos Santos. Sinto a falta de um amigo inesquecível."
HOMENAGENS DIVERSAS
Um recital de poesia e canto com a presença de Fernando Tordo e José Fanha foi a forma escolhida pela Sociedade Portuguesa de Autores para assinalar os 20 anos sobre a morte do poeta. A homenagem realiza-se na terça-feira, no Auditório Frederico de Freitas, em Lisboa, data em que o autor foi a enterrar no cemitério do Alto de São João.
Também na terça, Júlio Isidro conduzirá na RTP uma emissão especial sobre Ary dos Santos, que contará com diversos convidados em estúdio. Contactado pelo Correio da Manhã, Júlio Isidro explicou o intuito do programa: "Pretende transmitir a imagem da pessoa e do poeta, excêntrico e controverso, mas dono de um grande coração", disse.
Entretanto, segundo a agência Lusa, a Casa das Artes está a preparar para este ano "um grande espectáculo" de homenagem ao poeta em Lisboa. De acordo com Fátima Bernardo, daquela instituição, a data e o local do espectáculo ainda não estão definidos. Sabe-se apenas que será na Primavera ou na Aula Magna da Reitoria ou no Coliseu dos Recreios.
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