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Correio da Manhã

Cultura
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VIVER SEM HOMEM É UMA MUTILAÇÃO

Rita Ferro, escritora. Escreveu há13 anos o primeiro romance para provar que não sabia escrever. Sete edições sucessivas de três mil exemplares cada provaram o contrário... Dez livros mais tarde, o novo romance, “És Meu!”, é a novidade da semana
15 de Maio de 2003 às 00:00
Correio da Manhã – “És Meu!” é o livro onde se expõe mais?
Rita Ferro – Eu exponho-me sempre nos meus livros. Nunca há hipótese de um livro não ser autobiográfico. Mesmo que a história não tenha nada a ver comigo como acontece em “A Menina Dança”, onde uma rapariga cede à tentação de um bordel (penso que as pessoas não me ligarão a essa actividade), há opiniões, convicções e, aí, estou lá muito.
– O ciúme é o tema forte deste livro... Também está lá muito?
– Estou, estou lá muito... A liberdade individual é esteticamente deslumbrante mas não é a minha forma de amar e não tenho de pedir desculpa porque não amo assim. E, eu acho, todas as mulheres são ciumentas.
– E eles, como é que eles vivem o ciúme?
– Pior que nós, muito pior! Por exemplo, para uma mulher pode ser quase irrelevante se o homem dorme ou não com outra. Um fascínio intelectual pode ser mais perigoso e um sentimento puríssimo, uma ameaça maior... Para eles, o importante é saber se houve ou não facto consumado e acho que a incerteza da paternidade aí pesa. A violência física deles é mais cobarde mas uma mulher insegura pode tornar-se moralmente homicida.
– Há sempre um sentimento dominante a ditar cada livro?
– Nunca fiz a psicanálise dos meus livros mas talvez a constante seja a insegurança da mulher. Por um lado, temos a mulher independente que já não se sujeita a fórmulas injustas e prepotentes, por outro, o sonho romântico. Viver sem homem é uma mutilação e quando elas dizem que não, é porque mentem! Estou a referir--me à relação heterossexual naturalmente...
– Existe uma escrita feminina?
– Eu já disse o contrário do que lhe vou dizer agora mas, hoje, penso que há uma escrita feminina que não entra no departamento da grande literatura mas só pode ser escrita por mulheres e, pode ter a certeza, todo este fenómeno de sucesso resulta de as mulheres terem encontrado temas próprios e escrita própria: desembaraçada, descomplexada, objectiva, rítmica...
– E isto leva-nos à literatura “light”...
– Pois leva mas o “light” (leve) para mim é tão depreciativo como o “heavy” (pesado) e mesmo que seja fútil tem o seu papel mas não me revejo no género. Os meus livros são sempre atormentados, com um fio condutor pesado, por isso, acho uma incorrecção absoluta alguém ligar-me ao “light”. Outra incorrecção geral é a ligação da escrita clara e eficaz, o que requer muita técnica, à escrita fácil. E o que me irrita solenemente é a tendência para se colocar tudo no mesmo saco.
– Jornais, rádio, televisão... Já fez um pouco de tudo. O que é que não pode deixar de fazer de todo?
– Experiências enriquecedoras são todas mas gostava de voltar a fazer televisão porque me irrita que, sendo eu capaz de animar um funeral, ali, fico tensa. Só gostaria de voltar para vencer essa insegurança. De resto, estes últimos anos foram tão cansativos que, agora, só não posso deixar de fazer é tudo o que me apetece... Prerrogativas da idade!
PERFIL
Rita Maria Roquete Quadros Ferro Ochoa nasceu em 1955 em Lisboa mas, há seis anos, trocou a cidade pelo campo e agora não quer outra coisa, má sorte a dos amigos que apostaram o contrário... Este ano, pela primeira vez, viveu para escrever e, confirmou, dá para viver. Diz da cultura que é coisa preversa porque afasta em vez de aproximar as pessoas. Cita o teatro, aponta dedo acusatório às políticas culturais e promete escrever peça redentora. Tudo em nome de uma geração culta, a primeira.
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