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Correio da Manhã

Desporto
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Apenas dois candidatos

Braga e Benfica estão defendidos por um avanço que nunca foi recuperado no actual sistema de pontuação, apesar de quatro pontos parecerem uma vantagem muito reduzida para eliminar o FC Porto.
9 de Janeiro de 2010 às 00:00
Benfica e Braga. candidatos ao título
Benfica e Braga. candidatos ao título FOTO: Hugo Delgado/Lusa

Todos os anos por esta altura, os clubes em dificuldades na classificação avaliam as hipóteses de recuperar o terreno perdido antes do Natal e conseguem manter o optimismo, em função de uma lógica plausível, também conhecida por «matematicamente possível». Teoricamente, FC Porto, Nacional e Sporting podem acalentar o sonho de alcançar e ultrapassar os líderes Braga e Benfica e considerarem-se por direito absoluto na corrida pelo título. Mas a lógica estatística indica que ele será conquistado por Braga ou Benfica, graças ao avanço de quatro pontos que já levam sobre o terceiro classificado e ainda mais dilatado sobre os restantes.

Desde que mudou a pontuação das vitórias, em 1994-95, nunca um candidato conseguiu recuperar de um atraso superior a dois pontos e chegar ao título no fim da temporada. Aliás, só em quatro anos a equipa líder nesta altura do ano não conseguiu manter o posto até ao fim e só por uma vez o 3º classificado no Natal veio a sagrar-se campeão - o Benfica de Trapattoni em 2005.

Mas, atenção: vencer este desafio não é uma impossibilidade, mas somente uma improbabilidade. Está em causa que Braga e Benfica possuam o que José Maria Pedroto definiu como «estofo de campeão» e que demorou décadas a consolidar como base dos longos anos de domínio do FC Porto. Nestes 15 campeonatos da vitória a 3 pontos, o FC Porto chegou a Janeiro quase sempre na liderança, mas deixou fugir o título algumas vezes para o perseguidor directo, o que abala a convicção popular sobre a vantagem da candeia que vai à frente. O estímulo psicológico da liderança e a desmoralização de quem vem atrás são factores com preponderância nesta luta, mas nunca em definitivo, dependendo mais da diferença pontual do que do lugar na classificação.

Recorrendo sempre ao exemplo do FC Porto, verifica-se que nunca conseguiu recuperar uma desvantagem tão grande. Pelo contrário, em 2002, chegou a Janeiro quatro pontos atrás dos leões e acabou a sete.

No caso do Sporting, que dobrou o ano mais perto, em pontos, do último lugar do que do primeiro, as hipóteses são ainda mais ínfimas, pela larga distância a que se encontra dos três principais concorrentes. Mesmo que pudesse recuperar relativamente a um deles seria praticamente impossível consegui-lo relativamente a todos. Em 16 jornadas, o Sporting teria de recuperar 32 pontos: no fundo, vencer todos os seus jogos e depender de um improvável descalabro de todos os adversários, tão inverosímil quanto é certo que, até ao momento, Braga e Benfica sofreram apenas uma derrota cada.

A mais célebre recuperação da história do campeonato da 1.ª divisão foi realizada pelo Benfica em 1976-77, com o treinador inglês John Mortimore e jogadores como Chalana, Nené e Bento. À 5.ª jornada, o atraso era de seis pontos (correspondentes a 10 actualmente), mas após a vitória sobre o Sporting na primeira semana de Janeiro, a caminhada tornou-se imparável, concluindo com um avanço de nove pontos (15 se fosse hoje).

A RECUPERAÇÃO IMPOSSÍVEL

Quatro pontos parece diferença tão pequena para o FC Porto recuperar, mas se o conseguisse estaria a bater um recorde. Nos anos em que o campeão de Inverno perdeu a Liga, não tinha mais de dois pontos de vantagem.

2000      Sporting              -1

2001      Boavista              -2

2005      Benfica                -1

2009      FC Porto              -2

CAMPEÕES COM MAIS DE 2 DERROTAS

Até aos 90, foram raros os campeões com mais de duas derrotas, panorama que mudou drasticamente nas últimas duas décadas.

ANOS 40                          3

ANOS 50                          3

ANOS 60                          2

ANOS 70                          3

ANOS 80                          2

ANOS 90                          6

SÉCULO XXI                    6

UMA DÉCADA MARCADA PELO EQUILÍBRIO

Desde a última década do século XX, a conquista dos títulos tornou-se mais difícil e o número de derrotas sofridas pelo campeão aumentou para o dobro do que era normal, raramente mais do que uma ou duas. Desde 1986, o número de campeões com três ou mais derrotas já superou o registado nos 50 anos anteriores, o que confirma com números o aumento da competitividade interna. E o Benfica de Trapattoni arrasou tal lógica e tradição ao sagrar-se campeão com um número recorde de sete derrotas, no campeonato mais disputado dos últimos anos. Este ângulo de análise coloca-se agora perante as três derrotas já sofridas quer por Sporting quer pelo FC Porto, não lhes deixando margem para novos erros.

A IMPORTÂNCIA QUE TEM O MERCADO DE INVERNO

 

TIROS NO ESCURO

De mais de 30 jogadores que o Benfica recrutou na passagem de ano desde 1987, apenas quatro casos de sucesso. Futre em seis meses de espectáculo (1993). Poborski, embora nunca se tenha adaptado (1998). Geovanni, pilar do melhor Benfica da década (2003). E Nuno Assis, preponderante na conquista do título (2005).

REFORÇOS CIRÚRGICOS

Contando Mlynarczyk (1987), Paulo Pereira (1991), Drulovic (1994), McCarthy (2002) e Cissokho (2009), os reforços de Inverno do FC Porto costumam ser poucos, mas valiosos, para uma missão específica imediata em falta na equipa ou por antecipação negocial com vista ao futuro, de que o caso de Deco (1999) é o paradigma.

BOA MEMÓRIA LEONINA DE UMA EXCEPÇÃO À REGRA

O caso do título de 2000 com os préstimos de André Cruz, César Prates e Mpenza ajuda os sportinguistas a acreditar nos benefícios das mudanças abruptas de rumo, quando as coisas correm mal antes do Natal. Estes são os casos, excepcionais, de consequências imediatas e influência na classificação, produzidas por jogadores chegados no mercado de Inverno, pois nem Houtman (1987) ou Balakov (1991) conseguiram dar resposta pronta às crises que vieram encontrar. O próprio Acosta, goleador dessa equipa campeã, chegado no Inverno anterior, começou por sofrer de elevada desconfiança nos seus primeiros seis meses de uma complicada adaptação ao clube e ao campeonato. Os últimos reforços contratados pelo Sporting nesta altura do ano foram Grimi e Tiuí, em 2008, pois no ano passado a direcção de Soares Franco não dispunha de recursos financeiros, o que ajuda a perspectivar as reais possibilidades de Sinama-Pongolle, após longos meses de reduzida actividade. O caso de João Pereira é diferente e repete o que se passou com Abel há precisamente quatro anos: saiu de Braga directamente para a titularidade em Alvalade.

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