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Correio da Manhã

Desporto
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Saldos e despromoções

Apenas um em cada quatro jogadores contratados no Inverno tem impacto positivo imediato e por isso os clubes grandes dão-lhe menos importância.
8 de Janeiro de 2011 às 00:00
O avançado Sinama-Pongolle
O avançado Sinama-Pongolle FOTO: d.r.

Abriu esta semana, com menos frenesi do que em anos anteriores, o chamado mercado de Inverno do futebol europeu, em que os clubes portugueses, apertados pela crise financeira, só podem desempenhar um papel secundário. A falta de dinheiro ajuda a chamar os dirigentes à razão, mais conscientes da reduzida eficácia destes movimentos intercalares.

É o tempo de saldos de jogadores em baixa, que aceitam despromover-se, trocando campeonatos mais ricos onde perderam influência. E também um tempo de oportunidade para jovens promessas, sobretudo no termo da temporada sul-americana. Mas o histórico da baixa eficiência destas manobras conduziu nos últimos anos a uma procura específica de jogadores para determinadas posições, ganhando relevo os especialistas, como os laterais ou os extremos, que começam a ganhar espaço até aos goleadores.

Desde que foi regulado internacionalmente o mercado invernal regista-se apenas um conto de fadas, o do título do Sporting em 2000 com César Prates, André Cruz e Mpenza, e muitas, muitas decepções. Além da segurança e classe que adicionaram à equipa de Augusto Inácio, o trio de reforços (um lateral, um central e um extremo) veio a marcar um terço dos golos que levaram ao Sporting ao triunfo!

 

Quanto maior é a especificidade, mais difícil é a busca e mais baixa a taxa de sucesso. Apenas um em cada quatro jogadores contratados no Inverno tem impacto positivo imediato no rendimento da respectiva equipa. Sobretudo nos marcadores de golos, são raríssimos os que conseguem dar rendimento imediato, sofrendo maior cobrança do que quando entram na viragem de época.

Por exemplo, os últimos seis pontas-de-lança que o Benfica contratou no Inverno (Delibasic, Derlei, Marcel, Makukula, Eder Luis e Kardec), nos últimos cinco anos, apontaram somente dois golos até ao final das épocas respectivas e viram o entusiasmo inicial esfumar-se rapidamente.

 

Por causa das más experiências, Benfica, Porto e Sporting têm vindo a reduzir as intervenções neste período, baixando de onze contratações em 2006 para apenas seis no ano passado, metade dos quais de jogadores do mercado nacional, para diminuir os riscos de insucesso. Aliás, o FC Porto já não contrata jogadores no estrangeiro desde o Inverno de 2007, quando gastou dinheiro em vão em Mareque e Rentería.

 

Apesar de o mercado sul-americano ser o mais apetecível, está provado que os jogadores dos países de língua castelhana necessitam de mais tempo de adaptação e raramente oferecem alta produção nos primeiros seis meses em Portugal, custando-lhes entrar em equipas que estão no auge da actividade enquanto os seus relógios biológicos se situam no começo de uma nova temporada, à saída do pico do Verão tropical.

 

TEMPO DOS ESPECIALISTAS

Moretto 05/06: Guarda-redes

 

Depois do regresso de Vítor Baía ao FC Porto, o brasileiro Moretto foi o único guarda-redes transaccionado pelos clubes grandes, no que acabou por se revelar um erro de casting, por capricho do treinador Koeman.

 

David Luiz 06/07: Defesas Centrais

 

David Luiz chegou acidentalmente, porque não é normal a aquisição de defesas centrais no período natalício. Pelo menos por Benfica e FC Porto, uma vez que o Sporting contratou alguns, como André Cruz, Marcos ou Caneira.

 

Cissokho 08/09: Defesas Laterais

 

Nos últimos dez anos os clubes principais contrataram 13 defesas laterais no mercado de Inverno, tentando suprir erros de formação dos plantéis, com sucesso reduzido em comparação com a excepção de Cissokho.

 

Pedro Mendes 09/10: Médios

 

Os jogadores que mais rapidamente se adaptam aos novos clubes em Janeiro são os centro-campistas, de características mais genéricas, como foi o caso de Pedro Mendes, que ganhou no Sporting um lugar no Mundial.

 

Geovanni 02/03: Extremos

 

À semelhança dos laterais, os extremos especialistas são dos mais procurados e dos que têm mais dificuldade em apresentar serviço rapidamente. O brasileiro Geovanni, vindo de Barcelona, conseguiu repetir o sucesso de Poborsky.

HÁ UM ANO FOI UM FIASCO

 

O mercado de Inverno da época passada foi um fiasco para os clubes principais, apesar da ‘cirurgia’ das escolhas, num exemplo concludente de que até os jogadores em grande forma necessitam de um período maior de ambientação ao novo emblema. Aconteceu com Ruben Micael e João Pereira, que estavam na primeira linha para o Campeonato do Mundo e acabaram por acusar o peso da transferência. Os outros malogros foram de pontas-de-lança, cujo rendimento se mede em golos. Kardec, Éder Luís e Sinama-Pongolle somaram apenas dois e juntaram-se ao extenso role de desilusões que engrossa desde 2002, quando chegaram a Portugal McCarthy e Jankauskas, os últimos avançados de Inverno que corresponderam às expectativas.

BRASIL MAIS FIÁVEL

Do Brasil vieram no Inverno, David Luiz, Anderson, Adriano, Esquerdinha, Doriva ou César Prates, sem acusar a mudança repentina, em contraste com a mais lenta adaptação de argentinos, por exemplo. Mesmo os brasileiros adquiridos na Europa (André Cruz, Marcos, Geovanni) ou pequenos clubes portugueses (Deco, Maciel) dão em geral resposta mais rápida do que estrangeiros de outras nacionalidades.

MELHOR ACHADO DE SEMPRE

O avançado sul-africano Benni McCarthy, que chegou ao Porto em 2001 junto com José Mourinho, estabeleceu um recorde muito difícil de igualar e terá sido individualmente o melhor reforço de Inverno de sempre. Marcou 12 golos em 11 jogos na segunda fase do campeonato.

EFICÁCIA DE MERCENÁRIO

Nos seis meses que passou no Benfica (2001-02), o lituano Jankauskas, vindo de Saragoça, correspondeu ao perfil de jogador mercenário, com 8 golos em 12 partidas, e valeu bem quanto custou, antes de rumar ao FC Porto. Nunca mais o Benfica acertou num avançado de Inverno.

UM SEMESTRE PARA ADAPTAÇÃO

Beto Acosta passou um mau bocado, antes de entrar no coração dos sportinguistas, marcando apenas 3 golos em 13 partidas (1998-99) e demorando o habitual tempo de adaptação dos argentinos. Mas nenhum avançado contratado no Inverno fez melhor que ele nos últimos 12 anos.

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