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Correio da Manhã

Desporto
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Standard quer lutar pelo título

O vice-presidente executivo do Standard de Liège quer ganhar o campeonato belga, que lhe foge há 22 anos. O italo-belga, bem conhecido em Portugal pela sua ligação ao FC Porto, diz que Jorge Costa ainda vai decidir se se junta a Sérgio Conceição e a Niculae. Gaba-se de uma gestão sempre em equilíbrio nos últimos cinco anos e rejeita que o clube tenha mais a ver com negócio do que com objectivo desportivo.
3 de Dezembro de 2005 às 00:00
Desde 1983 que o Standard de Liège não ganha o campeonato belga. “Este ano colocámos esse objectivo, que depende de muitas circunstâncias”, diz ao CM Luciano d’Onofrio, vice-presidente executivo do clube e seu homem-forte.
Tem uma parte do capital de 90 milhões de euros, mas o grande accionista é o seu amigo Robert Louis-Dreyfus, também proprietário do Marselha e até há pouco principal accionista da Adidas. Dreyfus “aparece três ou quatro vez ao ano”, diz Luciano, enquanto o presidente é o suíço Reto Stiffler (também nomeado).
É assim que aparece a ideia de contratar Jorge Costa, que Luciano tão bem conhece. Rejeita que esteja a fazer um favor ao FC Porto. “Se ele quiser vir, é porque aceita as nossas condições, e todos ficam contentes. Se podemos pagar o que lhe paga o FC Porto? Isso é connosco e com ele. Cabe a ele decidir, mas acho que ainda não decidiu”, diz Luciano d’Onofrio, que apareceu no FC Porto em 1985 (trouxe nomeadamente Juary) e foi responsável por algumas das vendas-recorde do FC Porto – Rui Barros para a Juventus por um milhão de contos em 1988, Vítor Baía para o Barcelona, Sérgio Conceição para a Lazio. Muito amigo de Tomislav Ivic, chegou a ser director desportivo do FC Porto na segunda passagem do treinador croata, que acabou despedido em Janeiro de 1994. Antes, Luciano tinha sido jogador em Portugal, no Portimonense.
“O nosso orçamento é de 15 milhões de euros. O do Anderlecht é o dobro, o do Bruges também é maior que o nosso, mas acreditamos que é possível, mesmo assim, ganhar o campeonato”, acrescenta d’Onofrio, cuja família se mudou de Itália para Liège quando ainda era miúdo. O seu irmão Dominique é hoje o treinador da equipa, enquanto Stephane Demol (campeão no FC Porto) é o adjunto e Preud’homme é o director desportivo.
Há quem diga que o irmão Dominique d’Onofrio resolve problemas num grémio que alguns acham que é mais um negócio do que um clube com ambições desportivas. “Não, nós temos objectivos desportivos, mas sempre equilibrados com os objectivos financeiros. Dominique tem um curso de treinador da UEFA e os treinadores dependem dos resultados. O resto é literatura”, responde Luciano.
Apesar de tudo, o Fisco belga abriu uma investigação ao clube. “A porta está aberta para controlarem. Mas nós somos um dos clubes mais bem geridos na Europa”, diz Luciano. O caso terá a ver com o domicílio fiscal de alguns jogadores, que não é na Bélgica por causa dos impostos.
'LUCIANO É SINÓNIMO DE BONS NEGÓCIOS'
Norton de Matos qualifica Luciano d’Onofrio como um “amigo excepcional”. A convivência nos tempos em que o actual treinador do Setúbal representou o Standard (1978 a 1981), clube de que d’Onofrio é hoje accionista, contribuiu para que pouco depois ambos fossem, por recomendação de Norton, colegas no Portimonense (82/83). “Luciano era um jogador muito aguerrido, era essa a sua grande arma. Infelizmente, uma fractura exposta da perna terminou abruptamente com a sua carreira.” “O Luciano percebe muito de futebol e de organização. Na década de 80, já evidenciava grande sensibilidade para o dirigismo”, recorda. “É uma pessoa ímpar. Teve um trajecto brilhante no FC Porto e o seu nome é sinónimo de bons negócios para os clubes – está a fazer uma obra muito boa em Liège.” “O Luciano gosta do futebol português, que está agora mais forte. Ele sabe que isso representa uma mais-valia. Portugal está na moda com o sucesso dos lusos no estrangeiro.”
À ESPERA DE JORGE COSTA E DE UM GOLEADOR
O Standard espera, a todo o momento, que Jorge Costa anuncie a chegada ao clube, embora isso só deva acontecer para a semana, até porque aparentemente há clubes espanhóis e ingleses também interessados. Não é impossível que Hélder Postiga também possa ser contratado por empréstimo, caso as outras soluções que lhe forem propostas este mês não sejam melhores do que as do Standard. O defesa internacional Eric Deflandre, 32 anos, que pretende renovar o contrato com o clube por mais do que um ano, dizia ontem no ‘site’ do clube: “Jorge Costa seria uma boa aquisição, mas creio que temos igualmente necessidade de um avançado, um goleador. Se fosse o patrão disto pensava em alguém como Mbo Mpenza ou Jestrovic. Mas com Luciano d’Onofrio temos de esperar tudo. Sempre, como quando renovou o contrato de Sérgio Conceição até 2008”. Deflandre, Philipe Leonard (ex-Mónaco), Sérgio Conceição, o guarda-redes Runje e o médio Rapaic são as principais figuras da equipa. O romeno Marius Niculae, que Luciano d’Onofrio resolveu incorporar na equipa depois de este não ter renovado com o Sporting no final da época passada, ainda só fez sete jogos (nem todos como titular), mas golos só fez um, num jogo da Taça da Bélgica. “É um bom profissional, sério, teve as lesões que o incomodaram. Às vezes, no futebol conta a sorte”, diz Luciano. O Standard está a estudar a construção do seu centro de treinos e também a renovação do estádio, ou mesmo fazer um novo – a média de espectadores tem aumentado este ano para cerca de 20 mil (o Estádio de Sclessin tem 25 mil lugares).
MAIS UM PROCESSO
O Standard tem o Fisco a vasculhar-lhe as contas, ao que parece por ter dúvidas sobre o domicílio fiscal de alguns jogadores – na Bélgica, os impostos para os futebolistas chegam a 48%. Por isso, alguns deles – não só do Standard – têm residência nos países limítrofes. O Standard não ganha o campeonato desde 1983, diga-se, após um penoso processo sobre corrupção que terminou com várias punições, entre elas a suspensão de Michel Preud’homme.
Luciano d’Onofrio não se tem saído mal dos processos que teve na Justiça, sobretudo francesa, que ao longo da vida lhe saíram ao caminho. Chegou a ser ouvido no caso do Bordéus na década passada, também no caso do Marselha com os problemas desportivos, financeiros e legais que teve o então presidente Bernard Tapie, após a conquista da Taça dos Campeões em 1993. Em Fevereiro, houve mais em Marselha, por abuso de bens sociais através de vários empresários, e em causa está sobretudo Robert-Louis Dreyfuss, o francês que é dono do Marselha e do Standard, além de de ter muitos interesses em diversos sectores económicos, como o dos telefones.
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