Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto
2

Árbitro que pediu bilhetes para o Benfica renunciou ao Tribunal Arbitral do Desporto

Miguel Lucas Pires admite que passaria a ser a ser conotado "com um determinado clube".
9 de Novembro de 2017 às 22:21
O árbitro Luis Miguel Lucas Pires
O árbitro Luis Miguel Lucas Pires FOTO: Almedina
Miguel Lucas Pires renunciou esta quinta-feira ao cargo de árbitro de no Tribunal Arbitral de Lisboa, depois da revista Sábado ter revelado que o professor universitário tinha pedido ao Benfica bilhetes para ver um jogo no Estádio da Luz

A revista divulgou um email trocado entre o administrador do Benfica Domingos Soares Oliveira e Ana Zagalo, funcionária da direção comercial do clube com este conteúdo: "Árbitro no TAD. Pede, via Fernando Seara, cinco bilhetes para o Marítimo. Já lhe confirmei a disponibilidade para oferta.Sff trate do assunto, os lugares deveriam ser "jeitosos".

Numa primeira resposta, Miguel Lucas Pires emitiu um esclarecimento dirigido à Sábado em que admitia o pedido de bilhetes

"1. Eu e a minha família, somos amigos do Prof. Fernando Seara há décadas, desde o tempo em que o Prof. Seara trabalhou e foi colega do meu tio, o Prof. Francisco Lucas Pires.

2. Por força dessa amizade, desde há muitos anos a esta parte solicitei regularmente ao Prof. Seara bilhetes para jogos do Benfica, para mim e para familiares meus, desconhecendo se o Prof. Seara os compra ou os solicita a alguém ligado aos órgãos sociais ou a funcionários do Benfica.

3. No caso em concreto e conforme referido na conversa telefónica havida esta manhã, os bilhetes foram por mim solicitados para familiares meus (Pai, irmão, sobrinho e primos)

4. Nos termos do Estatuto Deontológico do Árbitro do TAD, "Quer durante quer depois de concluída a arbitragem, nenhum árbitro deve aceitar oferta ou favor proveniente, direta ou indiretamente, de qualquer das partes, salvo se corresponder aos usos sociais aceitáveis no domínio da arbitragem (art.º 3.º, n.º 4).

5. Nunca solicitei qualquer convite a qualquer dirigente, funcionário, treinador ou jogador do Benfica.

6. À data em que foram solicitados os convites em causa, o Prof. Fernando Seara, ao que julgo saber, não exercia qualquer cargo na estrutura diretiva do Benfica.

7. Reitero que todos os convites solicitados o foram por força da amizade que une vários elementos da minha família ao Prof. Fernando Seara, independentemente as funções que eu e ele viessemos desempenhando no momento da solicitação dos convites."

Num momento posterior, o árbitro fez uma adenda ao que já tinha esclarecido, através de um direito de resposta que a Sábado publicou: 

"No que diz respeito aos bilhetes em causa, do texto do sms por mim enviado a solicitar os bilhetes em causa (que a seguir transcrevo) consta a indicação expressa da minha intenção de efetuar o pagamento dos mesmos, o que apenas não aconteceu devido à insistência e firme oposição do referido Prof. Fernando Seara: "Caríssimo, ficaria muito grato de me pudesse arranjar 5 bilhetes (3 adultos e duas crianças) para o jogo de 6.ª feira, se possível para um local calmo. Mas, insisto, faço questão de pagar! Muitíssimo obrigado! Abraço".

Esta quinta-feira, Miguel Lucas Pires admitiu que o gesto de pedir bilhetes repetidamente prejudicava irremediavelmente a sua permanência no Tribunal Arbitral do Desporto


"1. De tudo quanto antecede, resulta não haver qualquer evidência de violação das regras deontológicas impostas aos árbitros do TAD, pelo que, pensar-se-ia, nenhum obstáculo se erigiria à minha manutenção como árbitro desse Tribunal.

2. Sucede, porém, que assim não é.

3. De facto, notícias como esta inevitavelmente minam definitivamente a minha credibilidade e imagem de isenção imparcialidade, não apenas junto da opinião pública, mas igualmente e sobretudo junto das entidades e sujeitos que recorrem ao TAD.

4. Com efeito, de agora em diante, quer nos processos pendentes, quer nos processos futuros, passarei a ser conotado com um determinado clube.

5. Por mais cabais que sejam os esclarecimentos prestados, esta suspeição perdurará.

6. Acresce que sempre encarei o exercício das minhas funções de árbitro no TAD como um caráter quase lúdico, associando duas das minhas principais áreas de interesse: o direito e o desporto.

7. Possuo uma carreira profissional e académica da qual me orgulho, não podendo, nem querendo, que a minha qualidade de árbitro do TAD (ainda que por força de notícias abusivas) possa colocar em causa essa mesma carreira.

Pelo exposto, declaro renunciar, com efeitos imediatos a partir desta data (mesmo para os processos pendentes nos quais já fui designado árbitro, mas ainda não exista decisão final), às minhas funções de árbitro do TAD, solicitando a imediata retirada da respetiva lista, para o efeito dando conhecimento desta minha intenção ao Conselho Diretivo do TAD e à Comissão de Arbitragem Administrativa (CAAD)."




Ver comentários