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Correio da Manhã

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Música luminosa

Com um primeiro álbum cheio de potenciais singles, os ingleses temples grafam uma página de ouro na história do psicadelismo e da pop britânica
2 de Março de 2014 às 15:00
escolhas, Adolfo Luxúria Canibal, Disco, livro, exposição, Temples, ‘Sun Structures’
escolhas, Adolfo Luxúria Canibal, Disco, livro, exposição, Temples, ‘Sun Structures’

É jubilatório quando descobrimos um grupo novo que nos enche as medidas e, mais ainda, quando isso acontece por via de um álbum de estreia acabadinho de sair que tem tudo para se manter na nossa cabeceira durante largos meses. Pois é o que se passa com os ingleses Temples e o seu disco ‘Sun Structures’, editado em meados de Fevereiro.

Completamente desconhecidos até à data, pelo menos para mim, contam no entanto já com quatro singles editados e um ano e pico de existência. Foi, aliás, após a edição do primeiro desses singles – ‘Shelter Song’ –, em Novembro de 2012, já pela actual editora Heavenly Records, que eles decidiram transformar-se numa banda rock – até então não passavam de um projecto de estúdio caseiro do guitarrista e vocalista James Bagshaw com o baixista Thomas Warmsley!

SOM DO ESTÚDIO

Não sei como soava ‘Shelter Song’ enquanto gravação caseira do duo, mas a canção, já com Adam Smith nas teclas e Samuel Toms na bateria, é o tema de abertura de ‘Sun Structures’ e é uma sublime revelação do propósito do grupo, recriando o psicadelismo de finais de 60 com uma batida hipnótica envolta em harmonias vocais e onirismos eléctricos. ‘Sun Structures’ integra ainda os restantes singles editados, ‘Colours to Life’ (Junho de 2013), ‘Keep in the Dark’ (Outubro de 2013) e ‘Mesmerise’ (Novembro de 2013), e junta-lhes mais oito temas que são outros tantos potenciais singles, tal é o equilíbrio que apresentam entre o arrojo das ambiências narcóticas e a leveza das melodias pop, a ponto de nos esquecermos que estamos na presença de debutantes. São canções que voam alto, ora piscando o olho ao boogie género T.Rex, ora acenando às sonoridades orientais, ora fazendo caretas à surf music tipo Beach Boys, mas sem nunca soar a algo conhecido ou a uma amálgama de sons dispersos. Bem pelo contrário, o disco emerge como um todo coerente e cheio de carácter: é o psicadelismo no seu melhor retrato!

Parece que por terras de Sua Majestade se instalou o delírio à volta destes Temples, com Johnny Marr (ex-The Smiths) ou Noel Gallagher (ex-Oasis) a classificá-los como melhor novo grupo britânico, mas isso não parece impressionar a banda, que se mantém discreta na sua terra natal, a pequena cidade de Kettering na província de Northamptonshire, região das Midlands. Não é para menos, ou não estivesse a história da pop britânica cheia de hipes que duram menos do que o tempo que leva a gravar um disco, para depois nunca mais se ouvir falar do anunciado fenómeno. Mas não parece ser este o caso – pelo menos ‘Sun Structures’ é já algo de muito concreto e suficientemente bom para justificar a largada de carradas de foguetes coloridos, de confetes e de balões sem levantar as habituais suspeitas de mais um hipe histérico da imprensa britânica!

E quanto ao futuro logo se verá, embora desconfie que estes Temples estarão demasiado comprometidos com a sua música para se deixarem deslumbrar por um primeiro álbum a raiar a perfeição: vão certamente querer fazer melhor e nós só teremos a ganhar com isso!

Disco ‘Sun structures’
Autor temple
editora heavenly

Livro

‘A Experiência’

Primeira edição autónoma deste romance de grande intensidade psicológica, por norma secundarizado face às grandes obras de Ferreira de Castro apesar de ser um dos seus textos mais subversivos, que narra a comovente desventura de duas crianças desprotegidas e o seu percurso do asilo até à prisão por ladroagem e prostituição.

autor ferreira de castro

Editora Cavalo de Ferro

Exposição

‘Obra Gráfica’

Exposição originalmente para o centenário da Universidade do Porto em 2011 e itinerante desde então, é uma mostra centrada no trabalho de impressão gráfica sobre papel executado de 1970 a 1990, que inclui 90 obras em gravura, em serigrafia e em matriz a tinta-da-china com as famosas figuras femininas da autora.

autora Armanda Passos

Local Museu Nogueira da Silva, Braga (até 27 de Março)

Disco

‘Emmaar’

Sexto álbum da banda tuaregue e o primeiro a ser gravado fora da região do Sahara,

dada a instabilidade no seu Mali natal, mas ainda assim no deserto, agora no de Joshua Tree, nos Estados Unidos. E o facto de ter sido registado na América nota-se pelo acréscimo do espaço dado ao habitual transe hipnótico obsessivo do colectivo.

autor Tinariwen

Editora Coop-Pias

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