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Suspeitas de fraude na federação desportiva de Kickboxing

Ordenados escondidos ao Fisco; férias à borla; seguros suspeitos; atletas a terem de pagar, sem direito a recibos, para representar Portugal.
Henrique Machado 9 de Janeiro de 2018 às 01:30
Ana Vital de Melo nunca praticou kickboxing, mas abraçou a causa em 2006, quando foi eleita presidente
Ana Vital melo, amiga de Passos Coelho, na inauguração do pavilhão do Benfica, em 2013, com o então primeiro-ministro
Ana Vital de Melo
Augusto Baganha e Ana Vital de Melo
Atletas revoltados com elevados encargos para representarem o País: cada um dos 19 juniores que participaram no campeonato do mundo da Irlanda, em 2016, desembolsou mais de 900 euros, pagos diretamente à federação, que depois não presta contas às famílias dos jovens
Atletas portugueses pagam do próprio bolso viagens para representar o País
Ana Vital de Melo nunca praticou kickboxing, mas abraçou a causa em 2006, quando foi eleita presidente
Ana Vital melo, amiga de Passos Coelho, na inauguração do pavilhão do Benfica, em 2013, com o então primeiro-ministro
Ana Vital de Melo
Augusto Baganha e Ana Vital de Melo
Atletas revoltados com elevados encargos para representarem o País: cada um dos 19 juniores que participaram no campeonato do mundo da Irlanda, em 2016, desembolsou mais de 900 euros, pagos diretamente à federação, que depois não presta contas às famílias dos jovens
Atletas portugueses pagam do próprio bolso viagens para representar o País
Ana Vital de Melo nunca praticou kickboxing, mas abraçou a causa em 2006, quando foi eleita presidente
Ana Vital melo, amiga de Passos Coelho, na inauguração do pavilhão do Benfica, em 2013, com o então primeiro-ministro
Ana Vital de Melo
Augusto Baganha e Ana Vital de Melo
Atletas revoltados com elevados encargos para representarem o País: cada um dos 19 juniores que participaram no campeonato do mundo da Irlanda, em 2016, desembolsou mais de 900 euros, pagos diretamente à federação, que depois não presta contas às famílias dos jovens
Atletas portugueses pagam do próprio bolso viagens para representar o País
Diretores e secretária-geral sem contrato de trabalho, e pagos ‘ao quilómetro’, sem recibos ou descontos para o Fisco e Segurança social, numa situação de fraude fiscal. Férias da presidente pagas pela federação. E, ao mesmo tempo, deslocações de jovens atletas para representarem Portugal em europeus e mundiais pagas do bolso dos próprios à federação, sem direito a recibo; além de falsas iniciativas junto das escolas – tudo o que devia ser patrocinado pela Federação Portuguesa de Kickboxing e Muay Thai, por ser cofinanciada pelo Estado com cerca de 100 mil € anuais, num orçamento global de 400 mil.

Tudo isto – e mais ainda, como a situação dos seguros de quatro mil atletas, que a federação não lhes permite que façam de forma independente, contrariando a lei – já corre termos no Ministério Público, depois de uma queixa-crime a que o CM teve acesso e que visa a presidente da federação, Ana Vital de Melo.

A caricata questão das férias diz respeito ao campeonato do mundo de muay thai, no verão de 2015, na Tailândia. A comitiva tinha oito pessoas, com apenas quatro atletas e mais quatro pessoas para as acompanharem. No caso de Ana Vital Melo, terá decidido viajar para a Tailândia quando os atletas estavam já eliminados. E seguiu com duas pessoas para o Cambodja, de férias – que no caso da presidente terão sido pagas pela federação.

O caso dos ordenados não declarados terá ocorrido entre os anos de 2013 e 2015, pelo menos – uma situação depois corrigida.

Depois, os 4000 atletas federados pagam de inscrição anual 45 euros à federação – 180 mil € no total –, verba que inclui seguro desportivo. A federação obriga a que o seguro seja feito através da mesma – quando a lei diz que os agentes desportivos podem fazer seguros individuais e de forma independente, desde que tenham as apólices válidas.

O Instituto Português do Desporto e da Juventude, a quem tudo já foi denunciado, dá cerca de 100 mil euros por ano para a federação gerir. O que prevê o patrocínio das viagens dos atletas que representam o País – não acontece – e duas iniciativas que não saíram do papel: "Muay Thai contra a droga" e "Kickboxing vai às escolas". Ana Vital de Melo, contactada esta segunda-feira, não respondeu às questões do CM.

"Paguei sem ver o recibo"
José Pedro Alonso, o jovem atleta de Vila Real que já trouxe duas medalhas de bronze para Portugal, ganhas na Irlanda e em Espanha, conta ao CM que em 2016, no campeonato do mundo de Dublin, teve à última hora de pagar toda a deslocação do seu próprio bolso para ir representar o País – "1038 euros sem direito a ver o recibo".

"A presidente disse-nos primeiro que tudo seria pago pela federação [as viagens dos 19 atletas juniores], e depois disse que já só pagaria de quatro ou cinco, entre os quais eu me incluía", recorda. "Fiquei descansado com a situação, até que um mês antes anunciou que a federação já não pagava nada. Teve que ser a minha família a ajudar-me à pressa, com o patrocinador, porque eu não tinha forma de pagar. Depois entregámos o dinheiro à federação e não recebemos de volta qualquer recibo da viagem ou comprovativo do pagamento", conta o jovem atleta revoltado .

Os outros 18 atletas pagaram 966 euros, ligeiramente menos do que José Pedro, cuja viagem foi já tratada em cima da hora – num valor total superior a 17 mil euros, do qual a federação não dá depois satisfações aos pais dos jovens. O cofinanciamento do Estado deveria servir para cobrir estas deslocações.

Caso denunciado ao IPDJ há um ano 
O presidente do Instituto Português do Desporto e Juventude, Augusto Baganha, está há mais de um ano por dentro de todas as suspeitas – que lhe foram participadas numa reunião por um atleta, e ex-dirigente da federação de kickboxing, em 21 de dezembro de 2016.

Uma semana depois, o mesmo Baganha estava numa cerimónia com Ana Vital de Melo. Esta segunda-feira, o CM tentou insistentemente contactá-lo, sem sucesso, para saber que sequência deu às denúncias que lhe foram apresentadas de má gestão na federação. Isto porque é o IPDJ que representa o Estado na atribuição de fundos à federação.

Ana Vital de Melo solicitou um email a que não respondeu
O CM contactou esta segunda-feira Ana Vital de Melo, que solicitou o envio de um email com todas as questões. Depois acabou por não responder, em tempo útil, às perguntas sobre a gestão que faz, desde 2006, na Federação de Kickboxing e Muay Thai e que já deu origem a uma queixa-crime.

SAIBA MAIS
4000
Número aproximado de praticantes de kickboxing e muay thai inscritos atualmente na federação portuguesa. Desconhece-se o número de atletas sem vínculo federativo. 

Início em 1975
Este desporto começou a ser praticado em Portugal em 1975, tendo o País se feito representar, pela primeira vez, a nível internacional, dois anos depois. A modalidade tem vindo sempre a crescer e a ganhar praticantes. 

Primeira medalha
O atleta Carlos Ramjanali conseguiu a primeira medalha internacional para Portugal em 1983. Conquistou a medalha de bronze no Campeonato do Mundo disputado em Londres, Inglaterra.

Federação em 1988
Em 1988, foi criada a Federação Portuguesa de Kickboxing e Full-Contact. Já em 1996, este desporto foi reconhecido pelo Comité Olímpico Português.  
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