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Vítima aliciada para mentir

Jovem que condenou Carlos Cruz e envolveu todos os arguidos em Elvas foi abordado em casa por um desconhecido e incentivado a desmentir acusações.
27 de Janeiro de 2011 às 00:30
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casa pia, carlos cruz, carlos silvino, jorge ritto, ferreira diniz, vítimas FOTO: Bruno Colaço

O jovem que levou à condenação de Carlos Cruz por crimes cometidos na avenida das Forças Armadas e que mencionou a presença de todos os arguidos na casa de Elvas foi abordado há uma semana e desafiado a desmentir as acusações feitas em tribunal.

A situação foi confirmada ao CM pelo advogado das vítimas, Miguel Matias, para quem ‘Nuno’ telefonou imediatamente. "Estava muito assustado", contou o representante dos jovens. Segundo o ex-aluno da Casa Pia, o desconhecido apresentou--se como jornalista e perguntou-lhe se não queria desmentir o que tinha dito em tribunal. ‘Nuno’ desconfiou logo da situação e nem quis saber qual era a contrapartida. Chamou o cão, como forma de se defender, e voltou para casa, de onde ligou para Miguel Matias. A situação adquiriu outra dimensão após a entrevista de Carlos Silvino, anteontem, em que o principal arguido contraria tudo aquilo que afirmou ao longo de oito anos de processo. Durante o dia de ontem, Miguel Matias contactou todos os seus clientes para ter a certeza de que mais nenhum tinha sido abordado por alguém para retirar as acusações.

O CM tentou, sem sucesso, contactar ‘Nuno’, mas falou com ‘Diogo’, jovem que também acusou todos os arguidos e cujo depoimento foi considerado fundamental pelos juízes. Em declarações ao CM, ‘Diogo’ manifestou-se indignado com a postura de Carlos Silvino e afirmou: "Ou foi ameaçado de morte ou está a ser comprado e bem comprado."

Também o psiquiatra dos jovens, Álvaro de Carvalho, ficou preocupado com o estado psicológico das vítimas, mas no final do dia de ontem só um lhe tinha mandado uma mensagem, o que deixou o especialista mais tranquilo. "Admito que os tentem aliciar, mas penso que não estão a correr riscos", disse Álvaro de Carvalho.

Recorde-se que os jovens tiveram segurança pessoal durante muito tempo, mas desde que saíram da Casa Pia tentaram refazer as suas vidas com o dinheiro que lhes foi atribuído pelo tribunal arbitral constituído para indemnizar as vítimas e deixaram de ter protecção pessoal. Neste momento, a instituição apenas continua a pagar--lhes os advogados, uma vez que foram alvo de abuso sexual quando estavam entregues à guarda da Casa Pia, e apoio psicológico através da Rede de Cuidadores, presidida por Álvaro de Carvalho e por Catalina Pestana.

"SENTEM-SE TRAÍDOS POR CARLOS SILVINO"

A delicadeza da situação e o estado em que ficaram os jovens com a entrevista de Carlos Silvino levaram o advogado das vítimas a pedir autorização ao Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados para falar. "Sentem-se traídos. Estavam tão revoltados que chegaram a chorar ao telefone", disse Miguel Matias ao CM, estranhando o timing da entrevista de ‘Bibi’, a uma pessoa que escreveu um livro com Marluce: "Acho curioso que esta entrevista seja divulgada um dia depois de ter sido distribuído o processo na Relação." No entanto, o representante dos jovens está tranquilo e não tem dúvidas de que, do ponto de vista jurídico, a nova versão do ex-motorista da Casa Pia é "completamente irrelevante". "Faço estas declarações em função do estado das vítimas", sublinhou Matias, revelando que os ex-alunos "ficaram indignados", porque apesar de terem sido abusados por ‘Bibi’, este foi o único arguido que tinha assumido os crimes e pedido desculpa. Já o psiquiatra dos jovens, Álvaro de Carvalho, admite que a entrevista seja um elemento perturbador.

"TEMO QUE OS JOVENS COMECEM A DESAPARECER"

Para Pedro Namora, antigo aluno da Casa Pia, a entrevista de ‘Bibi’, que veio agora dizer que mentiu em tribunal e que todos os arguidos são inocentes, não passou de "uma encenação patética" e de "uma tentativa de desacreditar um acórdão que condenou os arguidos".

Estranho, sublinha Pedro Namora, é o momento escolhido pelo ex-motorista para o fazer: "Em Setembro, no dia da leitura do acórdão, Carlos Silvino ligou-me a ameaçar desdizer tudo o que tinha dito em tribunal. Por isso não percebo por que fala agora."

A única justificação que o advogado encontra para este acto é a de ser "uma manobra de quem já nada tem a temer" porque foi condenado a 18 anos de prisão efectiva. Para Pedro Namora, isto só acontece porque a lei permite que um condenado a uma pena pesada, como é o caso de Carlos Silvino, esteja em liberdade enquanto aguarda a decisão de recurso no Tribunal da Relação.

Sobre as eventuais consequências das declarações do antigo motorista da Casa Pia, o advogado não acredita que tenham algum efeito. "Os juízes da Relação são juízes experientes e não se deixarão perturbar por este tipo de manobras", afirma. São as consequências no comportamento das vítimas de abusos sexual que preocupam o ex-casapiano.

"Se quem publicou a entrevista conseguiu chegar a Carlos Silvino, qualquer pessoa o pode fazer", diz Pedro Namora, sublinhando ainda que já pediu a algumas vítimas para terem calma, e acredita que o Estado devia garantir a segurança dos jovens enquanto corre o recurso. "Temo que as vítimas comecem a desaparecer misteriosamente."

"JUSTIÇA MOSTROU OS PEDÓFILOS": Francisco Guerra, 25 anos, vítima da Casa Pia

Correio da Manhã – Como reagiu às declarações de Carlos Silvino?

Francisco Guerra – Não podia reagir bem, claro, mas tentei manter a calma.

– Ficou surpreendido?

– Não fiquei surpreendido. Já estava à espera que mais dia menos dia algo viesse a acontecer. Fiquei foi chocado com as mentiras, sobretudo aquela de que a PJ nos batia.

– É mentira?

– É completamente mentira.

– O que é que acha que está na origem desta reviravolta de 'Bibi'?

– Tenho uma ideia, mas não quero revelar.

– Porquê?

– Este processo envolveu muitas pessoas.

– Teme que o processo fique em risco com estas declarações?

– Não, de maneira alguma. A Justiça, no dia 3 de Setembro, mostrou quem são os pedófilos e os mentirosos.

– Está tranquilo?

– Há muito tempo que estou tranquilo.

ENTREVISTADOR SEM CARTEIRA PROFISSIONAL

O autor da entrevista a Carlos Silvino, Carlos Tomás, não tem Carteira Profissional de Jornalista, confirmou ao CM o presidente da Comissão da Carteira (CCPJ), Pedro Mourão. Na reunião de hoje da CCPJ, o caso será analisado e deverá ser aberto um processo de contra-ordenação. A condenação implica o pagamento de uma multa, que pode chegar aos sete mil euros. Além da entrevista, Tomás promoveu encontros entre ‘Bibi’ e os restantes arguidos.

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