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A mensagem de António Costa: "Oferecer o que as redes sociais não dão"

António Costa fala sobre novos desafios à imprensa.
António Costa 19 de Março de 2020 às 00:30

Quero começar por felicitar o Correio da Manhã por mais este aniversário.

Os jornais fazem parte da minha vida e do meu dia a dia como cidadão, mas também como Primeiro-Ministro. Por razões familiares pude, desde criança, testemunhar de perto o que é ser jornalista. Sendo eu filho de uma jornalista que exerceu a profissão ainda sob o regime da censura, recordo-me das lutas pela publicação de alguns artigos e recordo-me bem de passar algumas tardes na redação d’O Século, cheia de homens e de tabaco. Mas também de sabedoria e memória. Mais tarde, durante o PREC, foi mesmo o caso República que me mobilizou para a militância política na decisiva batalha pela liberdade de imprensa que então se travou.

Hoje, já sem tabaco nas redações e, porventura, com mais mulheres do que homens, aos desafios que se arrastam desde aquela época somam-se outros. Sem a censura oficial de outros tempos, há hoje outras formas de condicionamento da liberdade e novos desafios para enfrentar.

A liberdade de expressão é a primeira das liberdades individuais. O direito a informar, a ser informado e a liberdade de imprensa são declinações essenciais da liberdade de expressão.

A Democracia nasceu da própria liberdade de expressão. Foi a liberdade de expressão que, conquistando a custo o seu próprio espaço, inclusive pela vida de uns e pela prisão de outros, foi formando correntes de opinião e forçando os sistemas políticos a abrir-se à expressão democrática. Liberdade e Democracia garantem-se mutuamente. Não há um sem outro. Temos de estar conscientes de que nem a liberdade nem a Democracia são adquiridos. Exigem defesa, respeito e respostas reais aos novos desafios e ameaças.

A emergência e massificação das redes sociais bem como o fenómeno das fake news levantam sérios desafios à sociedade, obviamente também à política, mas enormes inquietações à comunicação social. O facto de haver redes sociais e liberdade de expressão numa perspetiva mais lata, torna cada vez mais necessária uma comunicação social independente, quer do poder político, quer do poder económico. É, por isso, determinante que as redações sejam fortes do ponto de vista social e com capacidade de influenciar a formação da opinião pública com informação rigorosa. E que haja profissionais competentes, com uma deontologia robusta, e um sistema de autorregulação eficaz e assente nos mais apurados critérios de ética e deontologia.

Quanto mais redes sociais houver, mais necessitamos de órgãos de comunicação social que garantam a qualidade da informação. A única forma de nos defendermos da massificação das fake news e do risco de, por essa via, crescer o espaço dos populismos e extremismos, é termos uma comunicação social de qualidade que permita fazer o contraste entre o que é falso e o que é verdadeiro.

O jornalismo será tanto mais forte e independente, quanto mais se distinga do que vem nas redes sociais. Tem de oferecer aos leitores o que as redes sociais não poderão nunca dar. Quanto a mim, são três elementos essenciais. Em primeiro lugar, o contraditório. Com o contraditório podemos aproximar-nos da verdade. Nas redes sociais não há contraditório. Até pode haver diálogo, ou até mesmo debate, mas não é o exercício do contraditório.

Em segundo lugar, o jornalismo, para vencer, tem de assegurar a análise. A análise da complexidade, do que não é intuitivo, do que é complexo, do que tem de ser explicado. E não render-se ao facilitismo, ao minimalismo, ao empobrecimento da simplificação. A simplificação empobrece a informação a que os cidadãos têm direito. Os cidadãos têm de saber ao que vão: se querem informação, encontram-na nos jornais, não nas redes sociais.

O jornalismo tem, em terceiro lugar, de permitir a racionalidade. É fundamental haver espaço para a análise racional dos fenómenos e não, simplesmente, o hipervalorizar irracional das emoções, dos medos, do incerto, do imediatismo. A informação deve distinguir-se dos fenómenos emocionais.

Em síntese: contraditório, análise e racionalidade. Sempre com rigor, como base.

Estamos todos conscientes da fragilidade social e financeira dos órgãos de comunicação social, da limitação da dimensão das redações, do seu empobrecimento qualitativo, da perda da diversidade dos saberes, da perda de memória e experiência acumuladas, da precariedade das relações de trabalho no jornalismo. Tudo isto é um caldeirão que enfraquece a qualidade da imprensa e é, assim, uma ameaça séria a uma democracia bem informada. À Democracia, portanto.

Só enfrentando estes desafios, que são globais, conseguiremos como sociedade restabelecer – ou fortalecer – a confiança. O compromisso tem de ser permanente, intensivo, profissional, a cada edição, a cada capa de jornal, a cada título, a cada notícia, a cada manchete. A confiança não se estampa em parangonas. Conquista-se. Com qualidade e rigor. A bem do jornalismo. A bem da liberdade de expressão. A bem da Democracia.


António Costa
Primeiro-Ministro
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