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“Os ricos podiam ter-se dedicado mais à filantropia", diz Filomena Mónica

Maria Filomena Mónica agarrou em pinças para escrever sobre ‘Os Ricos’, um termo que “não é suscetível de definição precisa”. Ou seja, não é só ter dinheiro
Fernanda Cachão 17 de Junho de 2018 às 14:40
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
Depois de ‘Os Pobres’, Maria Filomena Mónica resolveu visitar o campo oposto. Em ‘Os Ricos’ (ed. Esfera dos Livros), a socióloga retrata as grandes fortunas nacionais, seus usos e costumes. Como escreve no prefácio - "de início, resisti à ideia" (de escrever novo livro), por e entre outras razões, já não ter "forças para ir à Biblioteca Nacional". Esta entrevista foi feita por email.

"Rico não é exatamente quem tem dinheiro". Então é quem?

A não ser para os economistas, o termo rico não é suscetível de uma definição precisa. Aliás, ainda pensei em colocar no livro o subtítulo ‘Os Ricos, os Bem Nascidos e os Poderosos’. Só não o fiz porque me pareceu demasiado longo. Há gente, pertencente à antiga fidalguia mas sem posses e que ainda detém prestígio social, que, por isso, cabe no meu livro. Veja-se o caso dos descendentes dos viscondes de Asseca (que têm pouco dinheiro mas antepassados ilustres) e, no pólo oposto, o de Américo Amorim, que provém de uma família humilde e que tem muito dinheiro. Os ‘ricos’, tal como os vejo, abarca um grande leque de gente.

O que distinguia o rico José do Canto do rico Américo Amorim?

Por muito que admire, e admiro, José do Canto, devo lembrar que ele herdou um património considerável. Depois, multiplicou-o e, mais importante, contribuiu para o desenvolvimento da ilha onde nascera, isto para não falar dos seus esforços no que diz respeito à educação, primeiro, dos camponeses de São Miguel e, depois, dos seus filhos, educados em França e na Alemanha. Por seu lado, Américo Amorim partiu de quase nada. Soube aproveitar a conjuntura especial do período, após a Revolução de 1974, e centrou-se, com energia e imaginação, na expansão de um nicho promissor, a cortiça. Criou fábricas, arriscou e exportou. Distingue-os ainda a forma como encaravam a vida: José do Canto era um pessimista, Amorim um otimista. Por fim, existem as diferenças culturais: José do Canto foi um dos portugueses mais cultos do seu tempo, o que, sob este aspeto, faz com que seja distinto de Américo Amorim.

O PREC escorraçou para sempre os ricos que não queriam ser incomodados na sua forma de viver? Ou nessa altura eles já não são exatamente os ricos descritos pelos escritores que refere?

O PREC assustou muitos empresários, sobretudo os que viviam em Lisboa e que estavam à frente de grandes grupos económicos. Quase todos, se não todos, dependiam do Estado. Fora este que lhes dera o "condicionamento industrial", ou seja, a licença para serem apenas eles a montar fábricas, desta forma libertando-os da concorrência interna, como fora o Estado que lhes oferecera o protecionismo alfandegário que lhes garantira poderem vender os seus produtos por preços superiores aos dos produtos importados. Através da polícia política e da proibição legal de greves, o Estado deu-lhes ainda a desejada "paz social". Com ou sem Revolução, os antigos ricos teriam sempre dificuldades em adaptar-se aos novos tempos. Aconteceu que, tendo o salazarismo teimosamente mantido uma guerra nas colónias, cedo ou tarde teria de cair. À força, como veio a suceder. Quanto aos ricos, acabariam por regressar. Alguns, os mais enérgicos ou com contactos internacionais, voltariam a ser ricos, mas nunca como dantes. Os mais fracos desapareceram da cena empresarial.

Acha que António de Oliveira Salazar ou pelo menos algumas figuras do regime, gostariam de ter tido a patine dos verdadeiramente ricos de que fala?

Não sei o que se passava na cabeça das figuras mais importantes do regime. A maioria tinha, aliás, origens relativamente humildes. Na realidade, há poucos ricos que tivessem ocupado o lugar de ministros. Quanto a Salazar, há elementos que nos permitem pensar que se irritava com os ricos – velhos e novos – por considerar que poderiam vir a constituir um limite ao seu poder. Salazar nunca tolerou que alguém lhe fizesse sombra. Nem sequer o seu amigo, o cardeal Cerejeira, cujo apoio foi essencial à sobrevivência do regime. Há finalmente o caso, mal esclarecido, do impedimento do seu casamento com Carolina Asseca. Tanto pode ter sido devido à recusa desta família aristocrática em deixá-la casar com um homem socialmente à margem dos círculos sociais que frequentava, como pode ter resultado da vontade de Salazar se manter longe de qualquer compromisso familiar. Só tendo acesso às cartas de ambos, a supor que não foram destruídas, o poderíamos saber. Seja como for, penso que se pode afirmar que, em geral, Salazar não gostava dos ricos. Nem dos remediados, nem dos pobres. Apenas o poder o interessava.

Privou com ricos - já o disse várias vezes - o que aprendeu com eles?
De que maneira eles a surpreendiam? Alguma vez se sentiu posta de parte?

Embora não tenha quaisquer pergaminhos aristocráticos, nunca me senti posta de parte pelas "grandes famílias" que conheci em Cascais, onde eu passava as férias de Verão. Como ia para aquela praia desde que nasci, nada, neles, me surpreendeu. Aprendi como me comportar, como falar, como me vestir. Tudo se passou de forma natural, pelo menos até ao momento em que, na adolescência, descobri os pobres. Notei então que me preocupava mais com a pobreza do que eles. Mas tudo isto se passou subterraneamente.

A qualidade do país que temos tem a ver com a qualidade dos ricos que tivemos e temos?

Tem. Se pensarmos no que significam os termos ‘noblesse oblige’, concluiremos que os nossos ricos poderiam ter-se dedicado mais à filantropia do que o fizeram. A caridade avulsa não bastava.

Acha que vivemos - apesar da democratização do acesso à universidade e ao crédito bancário - numa sociedade mais estratificada?

Penso que hoje é mais fácil a um filho de um pobre chegar à Universidade do que antes do 25 de Abril. Claro que a sociedade portuguesa ainda mantém desigualdades sociais gritantes, mas nada que se compare com as que existiam no ano em que nasci, 1943.

"A inexistência, em Portugal, de centros intermédios de poder, designadamente de âmbito regional" é uma herança da monarquia que chega aos dias de hoje?

Posso estar a dizer asneiras porque não conheço bem o Portugal medieval, mas julgo que esses centros nunca existiram no meu país.

Entre os ricos de Portugal, sobressai nos últimos anos e atualmente também, por outras razões, um todo poderoso ou um DDT - Dono Disto Tudo. O que lhe ocorre dizer, por um lado, sobre Ricardo Salgado e, por outro, sobre a evolução da família donde provém?

Não conheço, pessoalmente, Ricardo Salgado, mas, em tempos, fui amiga de primos seus, de apelido Espírito Santo. Em parte devido ao facto de eu ter ido viver para Inglaterra, deixei de os ver. Pelo que vale, confesso que deles guardo boa impressão, especialmente da Ana e do Zé. Mas éramos adolescentes e nenhum deles tinha, obviamente, idade para administrar o banco. Falando do presente, julgo lembrar-me que, durante uma das sessões da comissão de inquérito parlamentar, o Zé pediu desculpa aos "lesados do BES". O que então veio a lume deixou-me estupefacta. E, depois, indignada, sentimento agravado com a arrogante pose de Ricardo Salgado ao longo de toda esta história. Não faço ideia do que irá acontecer a esta família outrora tão importante no país. Desde já, noto que Ricardo Salgado deu cabo da sua boa reputação. E isto não se recupera. Não incluí banqueiros entre os ricos que selecionei para o meu livro, não por ter medo deles, mas porque a banca é um setor demasiado complicado para sobre ele escrever competentemente. Nem sei o que é uma ‘offshore’.

Porque é que resolveu "abandonar a receita para o desastre", como escreve no livro? O que é a "receita para o desastre"?

Se me tivesse concentrado apenas no meu cancro, desistindo de escrever, os meus últimos dias seriam horríveis. Pressentindo isto, optei por manter as minhas rotinas. Aliás, nunca gostei da ideia de ter pena de mim. Nem dantes, nem agora, nem no futuro.


B.I.

Maria Filomena Mónica nasceu, em Lisboa, em 1943. Em 1969 licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Doutorou-se depois, em 1978, em Sociologia pela Universidade de Oxford.
É investigadora Emérita do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Autora de numerosos artigos na imprensa periódica e de séries para a televisão, colabora atualmente na revista de Domingo do CM. Entre outros livros, publicou ‘Educação e Sociedade no Portugal de Salazar’ (1978); ‘Visitas ao Poder’ (1993); ‘Vida Moderna’ (1997); ‘Os Filhos de Rousseau’ (1997); ‘Eça de Queirós’ (2001); ‘Dicionário Biográfico Parlamentar 1834/1910’, de que é responsável pela organização ( 2004); ‘Bilhete de Identidade’ (2005); ‘D. Pedro V’ ( 2005); ‘Cesário Verde’ (2007); ‘Fontes Pereira de Melo’ (2009); ‘Os Dabney: Uma Família Americana nos Açores’ (org., 2009); ‘Vidas’ (2010); ‘Os Cantos’ ( 2010); ‘A Morte’ (2011); ‘ A Sala de Aula’ (2014); ‘A Minha Europa’ (2015); ‘Os Pobres’ (2016); e agora este ‘Os Ricos’.
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