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Correio da Manhã

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“Num quase corpo a corpo foram rechaçados”

Sob o ‘calçado silencioso’ de quem conhece o terreno, assistidos pela nebulosidade que teimava em persistir, aproximaram-se demasiado
Miguel Balança e Fernanda Cachão 24 de Junho de 2018 às 00:30
Do terreno colhi sarcasmo e sofrimento, bem mais do que aquele que queria.

Ponto de ordem: a minha unidade nunca esteve nos piores sítios; a minha unidade passou férias no Norte de Angola. Fui mobilizado pelo Regimento de Infantaria nº 15, em Tomar, de onde sou natural. Integrei de pronto o Batalhão de Caçadores nº 88, esquadra de apoio da 99ª Companhia de Caçadores.
Na madrugada de 21 de abril de 1961, embarcamos em comboio especial da estação de Tomar. A Lisboa, chegámos ao Cais do Soldado, defronte da estação de Santa Apolónia, às seis horas. Servida a frugal refeição, com a prontidão que a guerra exige, sua excelência, o ministro do Exército, passou revista e fez a locução.
Ali, no ‘Niassa’, embarcaram os Batalhões 88 e 92, respetivas companhias e mais quatro de artilharia - o pelotão da 100ª seguiria, mais tarde, no ‘Benguela’ acompanhado de armas e viaturas. Largámos às 10h30. Chegámos a Luanda às 14h00, doze dias depois.
A 13 de maio, pelas 6h00, sairíamos – batalhões juntos – rumo ao norte. Até à chegada a Negage, a 18 de maio, fitámos o Dondo, Lucala, Pambos, Samba Cajú e Camabatela. Houve um dia em que, chegada de onde partira, a coluna se deslocara uns míseros oito quilómetros do seu comprimento. Flanqueada por forças dos Batalhões 88 e 92, a companhia atacou as sanzalas de Piqui e Dambi onde, para atacar Negage, se dispunham duas companhias da União das Populações de Angola (UPA). Pelo ar, dois ‘T6’ mantiveram-se em apoio – muito útil – durante mais de uma hora.
Cumpria-se, em 22 de maio de 1961, o batismo de fogo dos soldados da 99. Prosseguimos no primeiro dia, percorremos 20 mal medidos quilómetros. No seguinte, reiniciaríamos a marcha de madrugada. Artilhados de machados, serrotes e de uma incomensurável vontade e audácia, desbloqueámos a estrada de cerca de 700 árvores até ao Bungo. Chegados era manifesta a preocupação dos que ainda ali permaneciam – o alferes paraquedista Mota da Costa e o comerciante Caras Lindas haviam sido emboscados fazia dias. No Mucaba, para onde seguimos em apoio, principiava o flagelo do Batalhão – os primeiros feridos. Os mais graves foram evacuados para Luanda, via aérea, do Negage.
Aproveitando o cacimbo, mais de mil terroristas da UPA receber-–nos-iam, a 1 de junho, na Vila de Damba, na penumbra. Sob o ‘calçado silencioso’ de quem conhece o terreno, assistidos pela nebulosidade que teimava em persistir, aproximaram-se demasiado. Num quase corpo a corpo foram rechaçados. Na senda oposta, surgia novo grupo, que como o anterior resistiu aguerridamente à ordem de ‘alto’. Em refregas, tivemos mais de uma dezena de feridos.
A mina anticarro
No dia de Santo António, a 13, atingimos Lucunga. A 23 de junho, véspera de São João, um pelotão da Companhia de Caçadores do 88 e dois da 99 recuperam Bembe, vila histórica a norte. Por lá havíamos de sofrer o primeiro morto. Faltou o socorro. Ali, na malograda terra, voltámos um ano depois. A 12 de junho de 1962 rebenta a primeira mina anticarro, na pista do Bembe. O soldado condutor morre; o administrador do concelho, a mulher e dois aspirantes administrativos ficam gravemente feridos. Comigo, uma secção da 99 a escassos metros.
Na primeira quinzena de julho, a companhia regressa a Luanda. Dedicou-se definitivamente ao ócio : driblando o tédio, ia em turismo, duas a três vezes por semana, a Nambuangongo, Onzo e Muxaluando. Sarcasmo fora, recordo o sofrimento, o trabalho esforçado e a alimentação deficiente. Obsoleto, o equipamento operacionalizava-se com a boa vontade dos que ali serviam. Sobrou o humanismo que, até de nervos em franja, norteou sempre as ações do Batalhão.
Termino com a profunda admiração por tantos quantos aqueles bem serviram no Ultramar. Aos meus camarada ainda vivos, um abraço de 891 ‘Bazuca’. Aos mortos, o meu constante pesar. Até sempre.
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