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A arte como forma de homenagem às figuras populares

De norte a sul do País as fachadas dos prédios têm vindo a ganhar vida... e memória.
Marta Martins Silva 23 de Junho de 2019 às 06:00
No Barreiro,  mural da autoria de Gonçalo Mar retrata Alfredo da Silva
Em Setúbal, no Auditório do largo José Afonso, 'O rapaz que vendia pássaros na cidade de Setúbal' do artista Odeith
Amália imortalizada num prédio da Amadora na Rua António Duarte Caneças, Falagueira, pelo artista Odeith
Florinda, última mulher nos arrozais tradicionais. Obra do artista Vhils localizada na Rua Dr. Dionísio de Moura 73, junto à estação da CP de Estarreja
Vasco Santana espreita (também) na Amadora, na Rua António Duarte Caneças, Falagueira. Obra do artista Odeith
Memórias fabris na baixa de Coimbra, nas Escadas de São Bartolomeu, pelo artista João Samina
Fernando Pessoa de oito andares precisou de 200 latas de spray, na Rua Manuel Ribeiro de Paiva, Falagueira, Amadora. Obra do artista Odeith
O fotógrafo do Barreiro para o País. Obra do artista Sérgio Odeith na Avenida da Praia, no Barreiro
Duque da ribeira resgatava do mar na Praça Duque da Ribeira, Porto. Obra do artista José Rodrigues
A lenda de floripes na cidade de Olhão, aos olhos do artista Frazão na EN125
Dom Zeferino no centro histórico de Viseu do artista DRAW & CONTRA na Rua Augusto Hilário, Viseu
No Barreiro,  mural da autoria de Gonçalo Mar retrata Alfredo da Silva
Em Setúbal, no Auditório do largo José Afonso, 'O rapaz que vendia pássaros na cidade de Setúbal' do artista Odeith
Amália imortalizada num prédio da Amadora na Rua António Duarte Caneças, Falagueira, pelo artista Odeith
Florinda, última mulher nos arrozais tradicionais. Obra do artista Vhils localizada na Rua Dr. Dionísio de Moura 73, junto à estação da CP de Estarreja
Vasco Santana espreita (também) na Amadora, na Rua António Duarte Caneças, Falagueira. Obra do artista Odeith
Memórias fabris na baixa de Coimbra, nas Escadas de São Bartolomeu, pelo artista João Samina
Fernando Pessoa de oito andares precisou de 200 latas de spray, na Rua Manuel Ribeiro de Paiva, Falagueira, Amadora. Obra do artista Odeith
O fotógrafo do Barreiro para o País. Obra do artista Sérgio Odeith na Avenida da Praia, no Barreiro
Duque da ribeira resgatava do mar na Praça Duque da Ribeira, Porto. Obra do artista José Rodrigues
A lenda de floripes na cidade de Olhão, aos olhos do artista Frazão na EN125
Dom Zeferino no centro histórico de Viseu do artista DRAW & CONTRA na Rua Augusto Hilário, Viseu
No Barreiro,  mural da autoria de Gonçalo Mar retrata Alfredo da Silva
Em Setúbal, no Auditório do largo José Afonso, 'O rapaz que vendia pássaros na cidade de Setúbal' do artista Odeith
Amália imortalizada num prédio da Amadora na Rua António Duarte Caneças, Falagueira, pelo artista Odeith
Florinda, última mulher nos arrozais tradicionais. Obra do artista Vhils localizada na Rua Dr. Dionísio de Moura 73, junto à estação da CP de Estarreja
Vasco Santana espreita (também) na Amadora, na Rua António Duarte Caneças, Falagueira. Obra do artista Odeith
Memórias fabris na baixa de Coimbra, nas Escadas de São Bartolomeu, pelo artista João Samina
Fernando Pessoa de oito andares precisou de 200 latas de spray, na Rua Manuel Ribeiro de Paiva, Falagueira, Amadora. Obra do artista Odeith
O fotógrafo do Barreiro para o País. Obra do artista Sérgio Odeith na Avenida da Praia, no Barreiro
Duque da ribeira resgatava do mar na Praça Duque da Ribeira, Porto. Obra do artista José Rodrigues
A lenda de floripes na cidade de Olhão, aos olhos do artista Frazão na EN125
Dom Zeferino no centro histórico de Viseu do artista DRAW & CONTRA na Rua Augusto Hilário, Viseu

Se alguém quiser encontrar Cristiano ‘Má Raça’ para trocar dois dedos deprosa sobreo Barreiro antigo não há que enganar: o homem de 86 anos está sempre por perto do mural que o artista João Samina pintou através de uma fotografia do seu rosto e que dá vida à fachada de um prédio devoluto no largo de Nossa Senhora do Rosário desde 2017.

"Estão sempre a tirar-me fotografias, parece que até à Suíça já cheguei através do Facebook", conta orgulhoso o antigo pescador que o projeto ‘Art in Town’ quis homenagear numa espécie de memória viva daquilo que foi, no passado, a comunidade piscatória da localidade.

A arte urbana começou a servir-se das histórias das terras (e das suas gentes) para preencher paredes de norte a sul do País e criar verdadeiros museus a céu aberto, sem necessidade de pagar bilhete para entrar. Estão nas ruas, são de todos, assim os que passam queiram olhar para cima (ou para baixo, dependendo da obra) e apreciar os trabalhos que os diferentes artistas deixaram para a posteridade. Seja na turística Alfama, em Lisboa, onde uma Amália em calçada portuguesa parece criar uma onda do mar, seja junto à estação de comboios de Estarreja, cidade do distrito de Aveiro. Ali, um retrato da Dona Florinda, última mulher a cultivar arroz de forma tradicional no Esteiro de Salreu – da autoria de Vhils – parece dar as boas vindas aos que chegam.

Florinda Rolae Cristiano Santos são figuras populares das suas terras homenageadasemvida. Vicente Inácio Martins, o eterno ‘rapaz dos pássaros’ de Setúbal, ele que descalço calcorreava as ruas da cidade onde nasceu, também pôde assistir, em 2014, aos 91 anos, à inauguração de um mural de 20 metros de altura com base numa fotografia sua de menino. O ‘Rapaz dos Pássaros’ – nesse ano considerado um dos melhores grafítis do Mundo – é da autoria de Odeith, artista natural da Damaia que começou a pintar prédios na Falagueira, Amadora, em 2015, e a tatuar ali figuras de proa como Amália, Zeca Afonso, Fernando Pessoa ou Vasco Santana.

Mais a norte, em Vila Real, o artista Draw & Contra imortalizou o comandante Carvalho Araújo, herói da Primeira Guerra Mundial, e também o oleiro Cesário Martins, mestre na arte do barro negro de Bisalhães, provando que a arte urbana é democrática e arranja lugar para todos nas paredes, seja qual for o motivo que os trouxe à ribalta.

O industrial do Barreiro
No âmbito do mesmo projeto de arte urbana que levou Cristiano‘Má Raça’ às paredes de um prédio devoluto no Barreiro, o artista Gonçalo Mar interpretou em 2018 uma fotografiadeAlfredodaSilva(que abre este artigo) num mural multicolorido em que o conhecido industrial que ficou para a história é representado através de uma mistura de elementos de banda desenhada e de animação, com alguns elementos da cultura japonesa ou outros mais ligados aos códigos da arte urbana.

Mais de um século antes de chegar àquela fachada na rua do Adamastor, Alfredo da Silva concebeu, com apenas 26 anos, um projeto audacioso e fundiu a CAF, que era a empresa que então administrava, com a Companhia União Fabril (CUF), que de fábrica de sabonetes, velas e adubos se transformou graças a ele num conglomerado que abrangeu os setores da indústria, comércio, transportes, agricultura, banca e seguros e está intimamente ligada à história do Barreiro. O lema da CUF, que chegou a ser o maior grupo económico da Península Ibérica , era "o que o País não tem, a CUF cria". A arte urbana também.

O rapaz que vendia pássaros na cidade de Setúbal
"Quem meeerca pássaros?", era o pregão com que o pequeno vendedor de pés descalços desafiava os transeuntes com quem se cruzava nas ruas da cidade de Setúbal, na esperança de conseguir algumas moedas para encher os bolsos num tempo de parca comida na mesa.

‘O Rapaz dos Pássaros’ podia ser só uma memória distante numa fotografia a preto e branco tirada na década de trinta pelo fotógrafo Américo Ribeiro – também ele uma figura de proa do concelho – se o artista de rua Odeith não tivesse homenageado o pequeno vendedor no âmbito do projeto ‘Arte em Toda a Parte’. O primeiro comentário partilhado pelo ‘rapaz dos pássaros’ quando viu o mural incidiu na ligadura que tinha em volta de um dos tornozelos, embora o nonagenário, que ainda era vivo à data da inauguração do mural, em 2014, já não se recordasse da causa da ferida. Lembrava-se sim dos pássaros que vendia: "Não eram meus, eram de outra pessoa. Uns vendia, outros roubava. Roubava-os quase todos."

Amália imortalizada num prédio da Amadora
Amália cantou ‘Lá Vai Lisboa’ que "tem sol mas cheira a lua", "sempre a sorrir tão formosa e no vestir sempre airosa" e "sempre namoradeira", ela que nasceu na capital por acaso, quando os seus pais se encontravam de visita aos avós maternos, na rua Martim Vaz, freguesia da Pena. Por Lisboa ficou e aqui se fez aprendiza de costureira, de bordadeira e operária de uma fábrica de guloseimas, antes de vender fruta à percentagem pelas ruas do cais de Alcântara.

Desde muito cedo, Amália, que então se apresentava como Amália Rebordão, mostrou gosto por cantar e, em 1935, foi escolhida para cantar o ‘Fado Alcântara’ nos festejos dos Santos Populares, acompanhando a Marcha Popular do seu bairro. Seria o primeiro de muitos palcos, porque a diva nunca mais parou de trilhar o seu caminho na canção da saudade que a tornou num dos cartões de visita de Portugal lá fora. Foi ilustrada por Odeith na empena de um prédio da Falagueira, às portas da cidade que cantou.

Florinda, última mulher nos arrozais tradicionais
Florinda foi a última mulher a empregar métodos de agricultura tradicional no cultivo do arroz no Esteiro de Salreu, uma paisagem na Ria de Aveiro hoje protegida como Reserva Ecológica Nacional e Reserva Agrícola Nacional. O seu rosto é mais do que a sua história: é a identidade cultural do lugar onde nasceu e de todas as pessoas que o habitam.

Sobre a peça, Vhils (nome artístico de Alexandre Farto, maior nome da arte urbana em Portugal), quis perpetuar a tradição, mas também "alertar para o ténue equilíbrio existente entre os vários elementos que dão vida a ecossistemas complexos deste tipo, onde a extinção de parte ativa desta interação entre património cultural e património natural põe em risco a sua imensa riqueza".

Vasco Santana espreita (também) na Amadora
"É uma pessoa que toda a gente conhece: antes gordo que magro, mais baixo que alto – e simpático", disse de Vasco Santana o realizador Manoel de Oliveira numa reportagem da revista ‘Imagem’ nos bastidores da rodagem do filme ‘A Canção de Lisboa’. Foi nesse filme que se estreou como protagonista no cinema. Depois da ‘Canção de Lisboa’ entrou nos filmes ‘O Costa d’África’, ‘Fado, História d’uma Cantadeira’ ou ‘Camões’, mas os de maior sucesso foram o ‘Pai Tirano’, em 1941, e ‘O Pátio das Cantigas’, no ano seguinte.

Vasco António Rodrigues Sant’Ana nasceu a 28 de janeiro de 1898, no nº 185 da rua Direita, em Benfica, filho de Henrique Santana, ensaiador e cenógrafo maior do teatro em Portugal, que queria que o filho fosse médico ou advogado, mas ainda viveu para vê-lo transformar-se no primeiro grande ídolo português. Em 2018, o rosto do ator deu vida a um prédio da Falagueira, na mesma rua onde se encontra o mural da diva Amália, com quem contracenou em ‘Fado, História d’uma Cantadeira’.

Memórias fabris na baixa de Coimbra
A imagem do rosto de um homem pintada na parede de um edifício nas escadas de São Bartolomeu, na Baixa de Coimbra, suscita a curiosidade de quem por ali passa. O mural não inclui legendas nem dá pistas que permitam identificar a figura. A imagem retrata Jayme Planas Coronellas, fundador da Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, em 1888. A indústria funcionou até meados dos anos 80 do séc. XX no Convento de São Francisco.

O mural foi pintado pelo artista urbano Samina, no âmbito do projeto denominado FIO – Memórias Como Matéria-Prima, produzido pela associação Mistaker Maker. Foi concretizado em 2016, ano em que reabriu o Convento de São Francisco, a pedido da câmara, que pretendeu homenagear alguns dos protagonistas da unidade fabril. Foram selecionadas 10 figuras, entre proprietários e trabalhadores e, a partir das fotografias da época, foram feitas pinturas em vários locais da cidade.

Fernando Pessoa de oito andares precisou de 200 latas de spray
Fernando Pessoa tinha todos os sonhos do Mundo e dizia que entre a data do seu nascimento e a da sua morte todos os dias eram seus. Deixou como legado uma obra universal, mas teve uma vida discreta, que começou a 13 de junho de 1888 e teve o seu fim a 30 de novembro de 1935, quase sempre em Lisboa, tirando a adolescência passada na África do Sul.

No início da vida adulta frequentou um curso de Letras que deixou incompleto, viveu um romance vago com a jovem Ophélia e um quotidiano aparentemente rotineiro. É um poeta universal que foi capaz de olhar o Mundo de uma forma múltipla através da criação dos célebres heterónimos - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, e do semiheterónimo Bernardo Soares. Em vida só publicou ‘Mensagem’, poema patriótico traduzido em 15 línguas, alguns poemas e contos em jornais e revistas, como a ‘Orpheu’ – que fundou com Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro, entre outros nomes que ficaram para a história, e que deu origem ao modernismo. O poeta e a sua obra continuam a despertar paixões, em Portugal como no resto do Mundo.

O fotógrafo do Barreiro para o País
Augusto Cabrita (16 de março de 1923-1 de fevereiro de 1993) foi operador, diretor de fotografia, realizador e produtor, mas sobretudo fotógrafo. "Augusto Cabrita é (também) uma maneira de olhar", disse dele Baptista- -Bastos, e "compreendia como poucos o que era o ambiente fabril e do operariado desta cidade do Sul do Tejo", escreveu António Lopes.

Tinha estúdio na sua cidade natal, que inaugurou em 1956, e fotografou a cidade, o Tejo, as suas gentes e ofícios, destacando-se os registos que fez da CUF. Foi fotojornalista do jornal ‘O Século’ e das revistas ‘Eva’, ‘Flama’, ‘Século Ilustrado’ e colaborou com diversas revistas um pouco por todo o Mundo. Foi autor de capas de discos de Amália Rodrigues, Simone de Oliveira, Carlos Paredes e Luiz Goes. Em 1957 realizou a reportagem da visita da rainha Isabel II a Portugal e continuou, na década de 1960, com documentários para a televisão portuguesa.

Duque da ribeira resgatava do mar
Na segunda metade do século XX, o Duque da Ribeira foi uma das figuras mais carismáticas da cidade do Porto. Diocleciano Monteiro ficou conhecido por resgatar os corpos dos que se atiravam da ponte D. Luís I ao rio Douro, tendo com apenas onze anos salvado a primeira pessoa de morrer afogada.

A lenda de floripes na cidade de Olhão
Diz-nos a lenda que aparecia uma senhora vestida de branco e longos cabelos loiros, numas ruas muito estreitas de Olhão. Quem a via eram os pescadores que, de madrugada, saíam para o mar.

No entanto, existem diferentes relatos de pescadores que dizem nunca terem falado com ela, por a recearem. Porém, aconteceu que um dos pescadores logrou falar com ela, tendo-lhe perguntado o que lhe tinha acontecido e o motivo de semelhantes aparições. Ela respondeu que havia sido encantada pelo pai, que era mouro.

Dom Zeferino no centro histórico de Viseu
Considerado o maior protagonista da gastronomia viseense do século XX, Dom Zeferino está retratado na parede de um edifício na rua Augusto Hilário, no sopé do centro histórico da cidade de Viseu.

Estudioso e poeta popular, Dom Zeferino percorreu a pé centenas de quilómetros numa pesquisa que o levou à procura de receitas tradicionais da Beira Alta, às quais acrescentou o seu cunho pessoal e depois promoveu no restaurante que abriu na cidade de Viriato.

A pintura de street art pode ser apreciada por quem desce de funicular para a zona da Cava de Viriato.
A obra é da autoria de Frederico Campos, mais conhecido pelo nome artístico de Draw & Contra.

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