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A arte crua do 'velho tarado'

Alcoolismo, loucura, sexo, solidão, violência, desespero, pobreza e suicídio eram os temas que obcecavam Bukowski.
16 de Dezembro de 2018 às 15:35
“Só agora a obra   de Charles Bukowski começa a ter edição regular, sempre muito focada na ficção”
“Só agora a obra de Charles Bukowski começa a ter edição regular, sempre muito focada na ficção”

Por Adolfo Luxúria Canibal
Charles Bukowski, mais conhecido em Portugal pelos seus contos, o que muito se deve à pioneira antologia ‘A Sul de Nenhum Norte’ editada pela Relógio d’Água na década de 1970, é um autor ausente da edição nacional.

De facto, só agora a sua obra começa a ter edição regular, sempre muito focada na ficção: para além dessa antologia de contos, ainda no século XX apenas o seu terceiro romance, ‘Mulheres’, teve edição pela D. Quixote, e somente em 2002 saiu um terceiro título, ‘Correios’, o seu primeiro romance, pela Canguru.

É a partir de 2010 que a restante obra de Bukowski começa a ficar disponível, primeiro pela Ulisseia, que edita o seu quarto romance ‘Pão Com Fiambre’, e depois pela Objectiva/Alfaguara e pela Antígona.

Genial

Este incremento editorial espelha a aceitação que a obra de Bukowski foi tendo e que faz com que, quase 25 anos após a sua morte, ele não seja mais apenas um autor de culto entre apreciadores de literatura marginal, mas um escritor amplamente consagrado, objecto de sucessivos estudos críticos e traduzido nas principais línguas do mundo.

Mas apesar de essencialmente poeta – foi com a publicação de poemas em revistas e antologias, sobretudo naquela que é considerada a melhor revista de poesia da América, a ‘Wormwood Review’, que Bukowski construiu a sua primeira legião de fãs e abriu caminho para a publicação dos seus contos e depois romances –, a sua poesia ainda não tinha merecido qualquer edição nacional.

Lacuna colmatada a partir de agora com a edição de ‘Os Cães Ladram Facas’ – título sublime –, uma antologia poética seleccionada, organizada e prefaciada pelo escritor Valério Romão, a partir das suas quatro dezenas de livros de poesia, e traduzida por Rosalina Marshall. É aqui que se encontra o universo de Bukowski de forma mais depurada, nesta escrita crua onde o outro lado da vida dos deserdados e deixados à margem surge na sua rudeza mais brutal e violenta. Não é para todos e, sobretudo, não é politicamente correcto. Mas é genial!

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