Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
2

A CRISE DA IGREJA É NECESSÁRIA

Quando chegou à Brandoa celebrava a missa numa cave húmida. 29 anos depois, o bairro tem uma igreja que acolhe mil fiéis, um centro paroquial que alberga crianças e jovens e inaugura hoje um lar de idosos. Tudo graças a este padre madeirense que nunca cruzou os braços
3 de Outubro de 2004 às 00:00
Quando Sidónio Gomes Peixe percebeu que não tinha dinheiro para construir um centro paroquial social, não desanimou: pediu ajuda à população, e foram eles a erguer o primeiro edifício, pedra sobre pedra, ao longo de dois anos. O episódio revela bem o poder de mobilização deste padre madeirense, nascido há 67 anos no concelho da Calheta. Foi o segundo de quatro filhos. Aos 11 anos, com o apoio dos pais, ingressou no seminário. Aos 23 foi ordenado padre. Estudou em Roma, foi pároco na Madeira, deu aulas na Universidade Católica de Lisboa e, em 1975, foi enviado para a Brandoa – na altura um bairro clandestino. Quando lá chegou confrontou-se com uma enorme falta de infra-estruturas. Não havia uma igreja ou um centro que acolhesse as crianças que cresciam umas com as outras nas ruas. Começou por celebrar a missa numa cave. E meteu mãos à obra. Hoje a Brandoa possui um centro paroquial que acolhe desde bebés até jovens adolescentes e também idosos, além de prestar apoio domiciliário. Esta tarde o pároco vai inaugurar o lar de São José, enquanto pensa já nos próximos desafios: dotar Alfornelos (ou Colina do Sol, outra paróquia que ministra) com a igreja que a população ambiciona.
Há quantos anos funciona o centro paroquial da Brandoa?
O centro social paroquial divide-se em dois blocos: um no alto da Brandoa, composto por três edifícios e que começou a funcionar em 1980, e outro que inaugurou em 1990.
Uma das principais funções é acolher crianças durante o dia…
Damos assistência a 37 crianças da creche; 127 do jardim de infância e mais de 200 em ATL. Temos ainda o centro juvenil e também prestamos apoio aos idosos.
Quantos idosos apoiam?
Recebemos 35 idosos em regime diurno. A dedicação aos idosos começou, em 1982, com o apoio domiciliário. A partir de amanhã eles são transferidos para o lar de São José. Lá poderemos acolher 60 idosos residentes, 90 idosos em centro de dia e apoiar 60 ao domicílio.
Como é que se faz a selecção dos idosos que recebem apoio da paróquia?
Nós estamos abertos a todas as classes, sem distinção social. Geralmente respeitamos a lista de inscrições.
Em que ano é que foi para a Brandoa?
Cheguei em 1975. Era considerado o maior bairro clandestino da Europa. Existia apenas uma estrada e, pouco antes de eu chegar, nem isso. As pessoas iam a pé para Benfica. A pé!
Antes de ser destacado para lá, deu aulas.
Ordenei-me em 1960 e fui estudar para Roma onde permaneci até 1965. Regressei à Madeira e estive lá até 1969, ano em que fui leccionar Teologia Moral na Universidade Católica de Lisboa. Em 1975 cheguei à Brandoa.
Como era o bairro?
Era pobre e albergava sobretudo pessoas oriundas das províncias e também algumas da capital que não tinham capacidade de pagar as rendas de Lisboa. Como as casas não tinham grandes condições de habitabilidade, eram muito baratas e os mais pobres recorriam a este sítio.
Recorda-se quanto era uma renda de casa em 1975?
Havia rendas de duzentos e de trezentos escudos. As mais elevadas correspondiam às casas maiores e rondavam os quinhentos escudos.
Quando chegou pouco mais havia do que meia dúzia de casas…
Quando cheguei não sabia exactamente o que ia fazer. Não havia infra-estruturas, não existia igreja, nada de nada. O serviço religioso era feito numa sala pequena, dentro de uma cave húmida que alugámos. Servia de igreja, de sacristia, de tudo.
A população frequentava a igreja?
Sim, mas nem toda a gente ia à missa.
Mas as pessoas eram oriundas da província onde, geralmente, a religiosidade é maior que nas cidades…
O que se verifica é que a maior parte das pessoas que chegam da província aos meios grandes, deixam de ir à igreja. A Brandoa era habitada essencialmente por pessoas do baixo Alentejo, onde a religiosidade é muito fraca.
Uma das suas primeiras batalhas foi a construção de um espaço infantil…
Grande parte das raparigas da Brandoa eram mulheres-a-dias e os homens trabalhavam na construção civil. Elas precisavam de ir para os empregos e as crianças ficavam abandonadas à sua sorte nas ruas. Por isso, decidi criar um espaço para elas.
Recebeu subsídios ou outros apoios do governo?
Havia um terreno que era para construir a igreja, mas eu entendi que deveria ser aproveitado para obra social. É no alto da Brandoa e é ali que existe o complexo de três edifícios para as crianças e jovens. Quando quisemos construir o primeiro, a Segurança Social recusou financiar-nos.
Sem financiamento, deve ter sido difícil construir o edifício…
Reuni a população e expliquei o que se passava: que tínhamos o espaço, que queríamos tomar conta das crianças mas ninguém nos apoiava. Foi a população que construiu o edifício. Homens e mulheres iam todos os sábados trabalhar no projecto. Começámos em 1978 e terminámos em 1980.
E os outros dois edifícios?
A Segurança Social percebeu que éramos uma população carente e financiou a construção dos restantes prédios que inauguraram em 1981 e em 1983. Em cinco anos conseguimos acolher bebés, crianças e jovens.
Mais tarde surgiu o centro paroquial e a igreja…
A igreja inaugurou em 1989 e o centro paroquial em 1990. Mas foi um processo muito complicado e extremamente burocrático. No fim, lá conseguimos que o ministério do Equipamento nos financiasse.
Por que razão decidiu ser padre?
Senti-me chamado para isso, inclinado para a vida religiosa; era qualquer coisa que me entusiasmava.
Sentiu esse chamamento em pequenino?
Fui para o seminário com 11 anos. Sabia que era o meu caminho, mesmo não sabendo o que era ser padre.
O senhor padre tem irmãos?
Tenho um irmão e duas irmãs.
Como é que a sua família reagiu à esta opção?
Os irmãos eram pequenos e os meus pais não fizeram pressão nem se opuseram.
A sua família está na Madeira ou em Lisboa?
O meu pai já faleceu. A minha mãe e os meus irmãos vivem em Lisboa.
Ao fim destes anos todos como é que vê a evolução do bairro em termos de religiosidade?
A nossa igreja é aberta a toda a gente. Mas também funcionamos muito à base de pequenas comunidades que se criam dentro da igreja e temos várias pessoas que são enviadas para várias partes do mundo com o objectivo de evangelizar.
Há pouco tempo, uma rapariga entrou para o convento.Uma jovem de 20 anos que optou, em consciência, pela vida religiosa.
Tem muitos jovens na missa ao domingo?
Os jovens vão mais à missa dos sábados à noite.
O que se verifica na igreja é que esta é frequentada por avós e netos e que existe uma geração intermédia que não vai à missa…
O grosso da nossa população que frequenta a igreja situa-se precisamente na idade crítica em que as pessoas fogem da igreja: dos 25 aos 40 anos
Porque é que as pessoas nessa faixa etária fogem da igreja?

É uma experiência que nunca fiz, terá que perguntar a pessoas dessas idades.
O povo conhece-o bem?
Este bairro está a melhorar. Mas como era clandestino, as pessoas quando melhoravam a vida saíam daqui. Agora quem vem para cá são os novos pobres: imigrantes de Angola, da Guiné, de Moçambique, do Leste. É natural que esses não me conheçam, mas os mais antigos sabem quem sou.
Se um casal não praticante for ter com o senhor padre e lhe disser que quer casar pela igreja, como reage?
Obviamente que os interrogo sobre os porquês e não os caso sem mais nem menos; há uma preparação para a vida da igreja. Há aulas de preparação para o matrimónio em que se explica e se diz: “É isto, vejam lá no que se vão meter”. Há uns casais que desistem, outros que ficam e eu respeito a liberdade e a escolha das pessoas.
Acolhe muitos adultos com o desejo de serem baptizados?
Baptizo cinco ou seis adultos por ano, que recebem uma preparação antes porque é melhor não ser baptizado do que mais tarde ser um mau cristão.
Como define um mau cristão?
É uma pessoa que tem o nome de cristão mas não vive como tal. Baptizar uma pessoa para depois ela não viver como cristão não vale a pena.
Ser-se um bom cristão implica a obrigatoriedade de frequentar a missa semanal ou passa pelos valores que regem o ser humano?
Conhece os 10 mandamentos que vêm na Bíblia? Um deles – e repare, estou a falar apenas de um – é Honrar a Deus. No Novo Testamento existem dois mandamentos que resumem toda a fé cristã: Amar a Deus e Amar ao Próximo. O bom cristão é aquele que ama a Deus e que Lhe presta culto. Mas ser um bom cristão não é apenas ir à missa…
Claro que não. Quantas pessoas vão à missa todos os domingos e são muito maus cristãos? Ir à missa faz parte, mas não é isso que faz de uma pessoa um cristão. Porque o bom cristão é aquele que não mata, não rouba, não comete adultério, não mente, não tem inveja dos outros,que honra pai a mãe…
E ainda existem muitos?
Não sei. Para fazer tudo isto, não sei…
Acredita que a nossa época é pautada por uma intensa crise de valores?
Sim e não. Quando se fala de valores eu ligo aos valores humanos e aos valores cristãos e nesse aspecto há uma certa crise. No entanto, reparo que as pessoas têm valores, muitas vezes não são é coerentes com aqueles que a igreja fala, mas as pessoas têm valores. Penso que a questão não a crise dos valores mas sim a crise das pessoas.
Portanto a igreja católica não está em crise?
Está! Está tudo em crise. Ai de mim que a Igreja Católica não estivesse em crise! Desde o início, do tempo dos apóstolos, que as crises existem. São as crises que vão dando sentido às opções das pessoas. A crise da Igreja católica é necessária e ainda bem senão a Igreja não crescia.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)