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A Liderança ainda está longe de ser um assunto de mulheres

Elas representam quase 50 por cento da força de trabalho das empresas sem chegarem a um terço nas chefias.
Vanessa Fidalgo 30 de Abril de 2017 às 11:40
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A Liderança ainda está longe de ser um assunto de mulheres

Há cada vez mais mulheres em cargos de chefia, no Governo ou à frente de grandes empresas e instituições. Mas quem são elas e onde é que mandam? E que nuances tem a liderança no feminino? Em Portugal, onde nenhuma das 18 empresas do índice bolsista PSI 20 tem uma mulher como presidente executiva e onde só 34,6 por cento dos cargos de chefia do universo total de empresas são ocupados por mulheres.

Por isso, Cláudia Sá, diretora-geral desde março de 2009 da Bel Portugal, uma das maiores empresas do ramo alimentar em Portugal, ainda é uma exceção.

Quando era miúda queria ser cientista. Andou sempre pela química e pelas matemáticas e ganhou algumas bolsas como jovem investigadora nas áreas de genética e microbiologia.

"Mas quando acabei o curso senti que não sabia qual era a serventia de tudo aquilo. Fui então a um seminário e acabei por ser recrutada pela Procter & Gamble". Aconteceu em 1992 e acabou por ser a sua grande escola de gestão. "E se engenharia é um mundo masculino, a gestão ainda é muito mais. Quando era jovem achava que essa história do masculino e do feminino era uma estupidez. Que as mulheres é que não lutavam o suficiente e os homens beneficiavam dessa vantagem. Mas ao longo da vida aprendi que afinal não era nada assim. A liderança no feminino é muito mais complexa, tem efeitos culturais e históricos que pesam muito na psicologia de cada pessoa. É uma luta muitas vezes difícil e complexa, cujas assimetrias precisamos mesmo de corrigir no futuro", avisa.

Admite que não tem bases científicas para o que vai dizer, mas empiricamente Cláudia Sá tem observado que há coisas que "são de género".

"As mulheres têm tendência a puxar mais por algumas áreas, como o bem-estar e a preocupação com as equipas. As mulheres são um radar, não desligam, preocupam-se com coisas intangíveis, os homens querem e fazem por atingir um resultado. Um é maratonista outro é sprinter", ilustra.

Ao longo da vida e do percurso profissional, teve colegas que a apoiaram e ajudaram a atingir metas, mas outros também que "demonstraram um bocadinho de inveja" e que tentaram minar a sua progressão, expondo precisamente as suas fragilidades femininas. E também encontrou muitos homens pouco habituados a lidar com mulheres que têm o poder nas mãos: "O mais curioso foi encontrar hierarquias masculinas que não sabiam lidar com uma mulher líder – com uma mulher que é frontal, exigente e que não é submissa. Eles não estão habituados a esse tipo de feminino".

Isto apesar de as mentalidades terem mudado – e muito – nos últimos anos, conforme recorda a deputada e ex-ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz.

"É preciso não esquecer que até há bem pouco tempo vivíamos uma ditadura. Para se ausentar de casa a mulher tinha de pedir autorização ao marido, havia uma interdição em determinadas profissões… não podiam ser magistradas, por exemplo. E 40 anos, note-se, não é muito tempo do ponto de vista histórico. Há uma questão geracional que prejudicou claramente essas mulheres mas neste momento está a ser reposto. Hoje vê-se que os jovens casais dividem tudo ou quase tudo. Só que houve um caminho a percorrer porque esse facto não se decreta", afirma a deputada.

As estatísticas

Ou melhor: não deveria ser decretado. O facto é que mais de quatro décadas depois de as mulheres casadas já não serem obrigadas a pedir autorização aos maridos para saírem de Portugal, o Governo ameaçou no ano passado o domínio masculino, manifestando a intenção de legislar até 2020 pela imposição de quotas de género para os conselhos de administração das empresas cotadas em Bolsa e das empresas do Estado, depois de já ter feito o mesmo para as entidades reguladoras, para a Assembleia da República e para as autarquias.

Até porque, segundo um estudo da Informa D&B, as mulheres lideravam apenas 28,5 por cento das empresas portuguesas no final do ano passado, sendo elas 42,2 por cento da força geral das empresas.

A maior concentração de mulheres está nos serviços (36,5 por cento), atividades imobiliárias (34,4 por cento) alojamento e restauração (32,5 por cento) e retalho (32,4 por cento). Mas curiosamente até é na Banca que o género feminino está mais equitativamente representado na força de trabalho (48,2 por cento), embora isso não se traduza nos lugares do topo: menos de um décimo das empresas é liderado pelo sexo feminino.

Nas empresas do PSI 20, as senhoras representam menos de dez por cento dos administradores (e apenas em cargos não executivos ou de vogais), havendo sete empresas em que não há qualquer mulher nos conselhos de administração.

A presença das mulheres nos cargos de liderança é tanto maior quanto menor for a empresa, sendo nas microempresas (com faturação inferior a dois milhões de euros) que se encontram mais mulheres no topo: mais de um terço (34,9 por cento) nos cargos de gestão e 29,2 por cento nas funções de liderança.

Nas empresas com volume de negócios acima dos 50 milhões de euros, quase metade da força de trabalho (45,4 por cento) é composta por mulheres, mas ao topo chegam apenas 12,4 por cento nas posições de gestão e oito por cento das de liderança.

As quotas

Ainda assim, o tema das quotas é espinhoso. Paula Teixeira da Cruz, por exemplo, não concorda com a sua aplicação, precisamente porque "lançam a dúvida e minam a credibilidade".

No setor da liderança política, a deputada do PSD não tem encontrado grandes diferenças entre homens e mulheres. "Acho que isso é um mito urbano. Nós temos bons exemplos que nos mostram que quando em posições decisórias, não há grande diferença entre homens e mulheres. Tivemos exemplos femininos de liderança mas com uma sensibilidade muito diminuta. Veja- -se o que aconteceu ao serviço nacional de saúde na época Thatcher!", relembra.

Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna aos 50 anos, lida com outra realidade bem diferente na sua área. "As mulheres lideram de uma forma mais ponderada e cuidadosa, mais sensível do que os homens. É a chamada sensibilidade feminina que muitas vezes tem mais-valias."

E revê-se em causa própria: "Comovo-me com facilidade com a tragédia, sobretudo quando se trata da dor de uma mãe que perdeu um filho. Isso e a enorme sensação de impotência de não poder mudar o rumo das coisas." Mas uma mulher que progride "não tem de ser fria, racional e muito menos adotar comportamentos típicos de homem", adverte.

Constança Urbano de Sousa acredita que trouxe uma forma diferente de relacionamento com as forças de segurança, área em que as mulheres estão muito pouco representadas. Não chegam a dez por cento do efetivo e são ainda mais raras nos topos das hierarquias. Até porque logo nos concursos há muito menos mulheres candidatas.

"Tem a ver com a tradição mas também com a dureza da profissão. Há horários, turnos, deslocações. E às mulheres ainda são exigidos muitos papéis. A elas, depois do trabalho, espera-as os jantares, a ida ao supermercado, cuidar dos mais pequenos, fazer os trabalhos de casa. Muitas vezes é quase um outro turno. Por isso, logo nos concursos candidatam-se muito menos mulheres. Independentemente disso, elas são uma enorme mais-valia para o funcionamento da polícia, porque existem imensas situações em que a polícia não precisa de usar tanto o músculo mas sim criar confiança e proximidade. Mas também existem mulheres que têm tantas ou mais capacidades físicas que os homens para trabalharem nas forças de segurança!", avisa.

Resta é saber se essas capacidades estão a ser devidamente reconhecidas e incentivadas. Os dados estatísticos demonstram que não. Em média, as mulheres europeias ganham menos 16 por cento do que os homens.

Estónia, Alemanha e Espanha estão entre os países com piores resultados na estatística da igualdade, mas Portugal parece ter sido o que mais piorou com a crise: para funções idênticas, os salários mantêm- -se desiguais em 13 por cento, fosso que sofreu um agravamento de 3,8 por cento entre 2008 e 2013, segundo dados do Eurostat.

E isso diz muito da mentalidade dominante de um país e das suas empresas, conforme reconhece Teresa Brantuas, presidente da comissão executiva da Allianz desde dezembro de 2016. "Não devia obviamente haver essa desigualdade. É uma forma de discriminação e, como tal, não é aceitável. Embora as sociedades e empresas tenham evoluído muito neste campo. Podemos não estar numa situação perfeita, mas certamente melhor e longe do que era na geração anterior", reconhece.

Família versus carreira

Em casa da ministra Constança Urbano de Sousa nunca houve grandes problemas em conciliar a vida profissional e familiar. "Mas o meu caso não é regra, é exceção", faz questão de deixar bem vincado.

O marido é estrangeiro e trabalha em casa. A maioria das vezes era ele que ia buscar os filhos à escola, que os levava às atividades extracurriculares, que fazia o jantar. "A vida académica é extremamente exigente. Marcam-se reuniões para as oito da noite. E tradicionalmente uma mulher com família não pode estar numa reunião às oito da noite. Já os homens estão sempre disponíveis", lembra. Constança Urbano de Sousa esteve disponível sempre que foi preciso. Mas mesmo assim testemunhou o que não devia: "Vi alguns homens passarem-me à frente, mesmo tendo eu melhores credenciais. O facto de ser mulher era um pequeno ‘handicap’."

Teresa Brantuas admite conhecer bem esta dificuldade. A presidente da comissão executiva da seguradora Allianz é mãe de três filhos, entre os 18 e os 14 anos, e houve períodos em que "foi difícil conjugar" família e trabalho. "O truque é envolver a família, contar com eles, gerir prioridades e saber dizer que não", diz.

Ou então procurar rapidamente ajuda, como fez Cláudia Sá, igualmente mãe de três filhos, dos sete aos 18 anos. "Tinha os avós e o pai, mas também desde muito cedo investi muito na ajuda em casa, precisamente para poder gerir as duas coisas da melhor forma. O problema é que hoje em dia os ordenados são baixos e as mulheres não podem ter essa ajuda. Têm de optar. E isso não é justo", reconhece.

Como aconteceu em casa de Susana Gil, motorista na empresa de táxis que pertence à mãe. Depois de lhe nascerem os dois filhos nunca mais fez noites. Não há amas e, além do pão, também é preciso providenciar "tempo para estar com os miúdos". Logo num dos primeiros serviços que fez, ao encostar o carro na praça da Gare do Oriente, um colega mandou-a ir para casa coser as meias do marido. Teve resposta rápida na ponta da língua. "Lá em casa só as usamos novas". Logo ela, que nunca teve papas na língua nem no acelerador. Aos 16 anos já conduzia, mesmo sem carta. Mas queria ser telefonista, o que conseguiu. Quando o desemprego tocou à porta, seguiu as pisadas da mãe, Alda, 59 anos, que há 14 anos gere uma empresa de táxis familiar.

"Na minha geração não era comum as mulheres terem esta profissão, mas herdei a empresa e, quando fiquei sem trabalho, acabei por dedicar-me aos táxis… Não sou mulher para estar sem fazer nada em casa", justifica Alda Gil.

Defende que as mulheres estão munidas de certas armas que as ajudam até nos trabalhos mais duros e sexistas. "Temos mais psicologia. Conseguimos antecipar complicações. Já tive uma navalha apontada às costelas e fui-lhe dando conversa, até o deixar no destino. Saiu sem pagar mas não me magoou nem levou mais nada. E com os colegas machistas vou lidando com bom senso e sentido de humor", garante.

Até porque há muitos que sentem o bom humor fugir-lhes quando são passados à frente na progressão profissional, nos negócios ou nos pódios. Que o diga Inês Ponte Grancha, a atual campeã nacional de ralis. No carro cabe-lhe o papel de navegadora, mas também já foi piloto e foi a primeira mulher em Portugal a conhecer este título.

Filha de um piloto, Inês cresceu no meio e desde os 14 anos que participa em competições a alta velocidade. Já teve acidentes. Já partiu osso. Voltou sempre à competição.

"Como cresci neste universo, todos me conheciam a mim e ao meu pai, sempre me senti bem integrada. Fui desde logo muito bem aceite, apesar de este ser um universo completamente masculino. Mas também é verdade que quando os bons resultados começaram a surgir, também houve uma pontinha de inveja", admite.

Inês, de 32 anos, que é fisioterapeuta na área da neurologia, teve um filho, Duarte, três meses antes do início do campeonato em que se sagrou campeã de ralis. Fez das tripas coração para dar conta de tudo ao mesmo tempo. "Em casa acusam-me de não estar tanto tempo como deveria, na equipa também!", diz com um sorriso e um encolher de ombros. O que interessa é que chegou à meta em primeiro, coisa que não deixa lugar a subjetividades.

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