Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

A mais humana das experiências

A série ‘O Método Kominsky’ mostra a velhice como ela deve ser mostrada: em toda a sua miséria e grandeza.
João Pereira Coutinho 3 de Maio de 2020 às 12:00

É um dos grandes paradoxos do nosso tempo: todos queremos viver mais. Mas, se começamos a viver mais, corremos o risco de viver demais. A cultura em volta celebra a saúde e a juventude com um entusiasmo fanático, olhando para os velhos com medo ou embaraço.

A pandemia corrente só o confirmou, com os velhos remetidos a um canto, de preferência confinados para o resto da vida. E, nos boletins médicos, quando se anuncia o número de vítimas, há sempre alguém que lembra (e suspira) que os mortos são de uma certa faixa etária. Como se fossem de um outro planeta.

Acontece que não são e o principal mérito de ‘O Método Kominsky’ é mostrar a velhice como ela deve ser mostrada: em toda a sua miséria e grandeza. Para tal, encontramos dois amigos, Sandy Kominsky (Michael Douglas), um formador de actores, e Norman Newlander (Alan Arkin), um agente deles, que partilham mutuamente os seus problemas e as suas vitórias em diálogos inesquecíveis.

Sandy ainda tenta agarrar-se a uma ilusão de juventude, ou pelo menos de jovialidade, até pela forma como se veste. Norman, pelo contrário, é um daqueles personagens que já parece ter nascido com 80 anos.

Mas estas diferenças de personalidade convertem-se em pó quando ambos têm pela frente o mesmo caderno de encargos: o corpo que vai falhando; a memória também; os amigos que desaparecem; os familiares também; e as paixões, que aparecem sempre com a força dos verdes anos, e que são enfrentadas com as mesmas inseguranças (e uma receita de Cialis). Quem diria que o luto ou o estado da próstata dariam uma brilhante comédia?

Mas dão. Porque nada do que é humano nos deve ser estranho, como diziam os clássicos. E a velhice é a mais humana das experiências, apesar da clandestinidade para onde a querem condenar. Rir dela, e rir com ela, é a melhor forma de a trazer para o mundo dos vivos. E de pacificar o terror dos homens modernos.

Só mais uma coisa: a actriz Nancy Travis foi uma das minhas paixões da adolescência. Vê-la aqui, como namorada de Michael Douglas, nos seus gloriosos 58 anos, é mais uma prova da bondade divina.

antiga ortografia

Livro

Como podemos viajar sem sair do lugar

Se Nietzsche enlouqueceu em Turim, Xavier de Maistre manteve lá a sua sanidade, ainda que em prisão domiciliária. Viajando à volta do seu quarto, ou seja, visitando o espaço físico (e metafísico) como um marinheiro de águas profundas. Nestes tempos de confinamento, o clássico ensina como podemos viajar sem sair do lugar.

Mais info:

título

‘Viagem à Volta do Meu Quarto’

autor

Xavier de Maistre

editora                                                                                                                Tinta da China

Museus

Visitas virtuais

Algo de bom tinha de sair desta pandemia. Nada substitui a experiência física do lugar? Verdade. Mas as visitas virtuais que os maiores museus do mundo estão a organizar podem ser um excelente aperitivo. Hoje, estive no Louvre, com os meus vagares. Amanhã, penso
em viajar até Nova Iorque para espreitar o MoMA.

Mais info:

o quê

visitas virtuais

onde

os maiores museus do mundo

como

pela internet

DVD

A luta do herói dos jogos olímpicos de atlanta

Richard Jewell foi um herói nos Jogos Olímpicos de 1996: alertou para a existência de uma bomba e salvou vidas. Mas o herói de Atlanta rapidamente se converteu no principal suspeito, graças à imprensa e ao FBI. Neste filme, Clint faz o que melhor sabe: mostrar a luta de um indivíduo solitário contra forças maiores do que ele.

Mais info:

título

‘richard jewell’

realizador

clint eastwood

editora

warner

Fugir de:

Espanha

Estou a ser injusto. Espanha é um país admirável.
O problema
é o governo Sánchez-Iglesias que, no momento em que escrevo, tem 22 mil mortos no currículo e uma das piores taxas de mortalidade (por milhão de habitantes) do mundo inteiro.
A juntar a isto, temos os actos
de censura (reais ou virtuais) que o governo praticou para calar as
vozes críticas.
É fácil vergastar Trump ou Bolsonaro. Mas eu queria ver mais coragem e lucidez da nossa imprensa no trato com ‘nuestros hermanos’.
A crise do jornalismo também
é um problema de cegueira
selectiva.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)