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A travessia do Atlântico Sul e as rotinas diárias

Crónica a bordo do ‘NRP Sagres’ destaca a importância do treino interno para manutenção da disciplina e da segurança.
22 de Março de 2020 às 11:00
A travessia do Atlântico Sul e as rotinas diárias
A travessia do Atlântico Sul e as rotinas diárias FOTO: Direitos Reservados
Continuamos a navegar rumo à Cidade do Cabo. A presente tirada tem 24 dias de navegação, não será a mais longa, ainda assim tem uma duração considerável. Quando a navegar, acontece perdermos a conta aos dias, mesmo que todos os dias sejam diferentes. As nossas rotinas são o fator-chave na vida a bordo, são fundamentais para a manutenção da disciplina, para a execução das manutenções e tarefas pendentes e, inclusivamente, para ajudar na passagem do tempo. As rotinas dão ritmo aos nossos dias.

Uma atividade importante que integra a nossa rotina, com uma frequência de duas a três vezes por semana, é o treino interno. A navegar, são várias as adversidades que podem ocorrer e o tempo de resposta e as ações a tomar, por cada elemento, são essenciais para que o controlo da situação seja obtido com maior brevidade e com o menor dano (pessoal e material) possível. Exercícios de combate a incêndio, exercícios de combate a alagamento, exercícios de deteção e resolução de avarias na instalação propulsora, treino de remoção e assistência a feridos são exemplos das atividades que realizamos.

O treino interno é importante para todos os navios e o ‘NRP Sagres’ não é exceção.
Para marcar a diferença, em cada dia, temos as ‘visitas-surpresa’. Em pleno Atlântico Sul tivemos a oportunidade de avistar um espécime da maior ave marinha existente, não tão comum de se ver como as gaivotas na costa portuguesa.

Avistámos um albatroz, foi fácil de identificar pelo seu porte grandioso, pela forma do seu bico e pela sua envergadura de asa. Os albatrozes têm várias subespécies, o género Diomedea é o que tem a maior envergadura de asa entre as aves marinhas.

Na madrugada do dia 16 de março, no cumprimento do planeamento, navegámos ao largo do arquipélago Ilhas Tristão da Cunha, constituído por três pequenas ilhas. São as ilhas mais isoladas do Mundo. Descobertas por um português que lhes deu o nome são, agora, solo inglês. Dados não oficiais, retirados da internet, dizem ter uma população de 247 habitantes. Se a guarnição do ‘NRP Sagres’, porventura, tivesse ido toda a terra representaria um estonteante aumento de 57 por cento da população. Dados engraçados que nos passam pela cabeça quando avistamos terra, 14 dias depois de largarmos e a 10 dias de voltarmos a atracar.

Da mesma forma que nos aproximámos do arquipélago, afastámo-nos dele e prosseguimos o nosso trânsito. Para recordação levamos na memória o que avistámos, fica a curiosidade de como será a vida naquela pequena ilha de Tristão da Cunha, a única habitada das três.

Outros eventos que marcam a passagem dos dias são os aniversários. Curiosamente, só nesta semana tivemos cinco aniversários a bordo. A particularidade desta missão, uma vez que terá a duração de um ano e cinco dias, é que todos os elementos da guarnição irão celebrar o seu aniversário, pelo menos uma vez. Para muitos, não será a primeira vez, e não será a última, que passam o seu aniversário a navegar, ou em missão, longe da família e junto dos camaradas. Este ano, contudo, estamos todos no ‘mesmo barco’, literalmente!
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