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"A vontade de cantar é mais forte do que eu"

Ela responde se lhe chamam Deolinda.Mas Deolinda é a outra, solteira de amores e casada com desamores. Deolinda mora nos subúrbios, provavelmente na Linha de Sintra, com a avó, dois gatos e um melro. Ana Bacalhau é a voz da Deolinda, banda que conta ainda com dois guitarristas clássicos e um contrabaixista. Ana – licenciada em Línguas, pós-graduada em Arquivo e ex-professora de Inglês – trabalha como arquivista quando tira o xaile da personagem. Às vezes, se lhe dão ganas de cantar
no arquivo, vai para um canto onde não a ouçam e, para fazer jus à Deolinda, canta a tristeza sorrindo.
17 de Agosto de 2008 às 00:00
'A vontade de cantar é mais forte do que eu'
'A vontade de cantar é mais forte do que eu' FOTO: João Miguel Rodrigues

Quem é a Deolinda?

É uma senhora solteira que vive nos subúrbios de Lisboa e do seu rés-do--chão observa a vida dos vizinhos e às vezes a sua própria vida. É aí que recolhe inspiração para as canções que constam de ‘Canção ao Lado’.

E a Ana Bacalhau, quem é?

É a cantora da Deolinda... Sou eu, tenho 30 anos e esta paixão que é cantar.

Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas e tem uma pós-graduação em Arquivo. Onde é que a música entra aqui?

Não tem nada a ver [risos]. Bom, a licenciatura em Literatura ajuda-me a olhar para os textos que o Pedro escreve e a perceber as personagens que os habitam. Quanto à Arquivística, costumo dizer que partilho duas profissões com o Carlos Paredes: a Arquivística e a Música. É o mundo do silêncio e o mundo do som. Complementam-se.

Canta quando está a arquivar?

De vez em quando, mas o arquivo já não é o que era – quase não trabalho com papel, trabalho mais com transferência de suporte, do papel para o digital e para o microfilme. O papel pouco passa por mim e ainda bem por causa do pó e da minha garganta. É um trabalho à secretária e com os meus colegas todos à volta. Não posso cantar muito alto ou, então, quando me apetece cantar vou para a casa de banho e ninguém me ouve. Graças a Deus que agora, com os concertos, tenho dado largas a esta vontade de cantar... quando estou a trabalhar no arquivo posso ficar calada, até é aconselhável, mas de vez em quando é mais forte do que eu.

É fácil conciliar a música, a vida familiar e o trabalho no arquivo?

Há um sacrifício pessoal mas o meu amor à música sobrepõe-se. E o meu marido é o Zé Pedro [contrabaixista] – quando eu saio, ele vem comigo. É perfeito.

Quando é que começou a cantar?

A minha paixão pela música começou muito antes de perceber que tinha voz. Quando eu era pequenina – conta a minha mãe – estava sempre a passar discos no meu gira-discos portátil. Risquei-os de tanto ouvi-los. Depois o meu pai deu-me um walkman e comecei a ouvir as cassetes dele. A relação obsessiva com a música manteve-se até descobrir aos 14 ou 15 anos que tinha voz.

Como foi essa descoberta?

O meu objectivo era aprender a tocar guitarra mas como não tinha grande jeito acompanhava-me a cantar – foi aí que descobri que tinha voz. Ouvia Pearl Jam, Nirvana, era a altura do ‘grunge’, comecei a cantar os temas deles, e depois também de Janis Joplin, que continua a ser uma das minhas referências. De passiva, a minha relação com a música passou a activa.

Levava a guitarra para a escola?

Sim, eu e uma amiga minha, que também cantava e tocava guitarra. No intervalo dávamos música aos nossos colegas. Depois, na Faculdade de Letras, organizei pequenas festas com outros colegas que tocavam e cantavam. Mas projectos a sério só tive quando acabei a universidade, com os Lupanar, em 2001. Terminaram em 2006. Entretanto tive um quarteto de jazz. Preparámos um tributo à Nina Simone. Depois, em 2006, surgiu a Deolinda.

Porquê Deolinda?

Havia necessidade de nomear uma personagem que começou a delinear-se nos ensaios. No primeiro, o Pedro surgiu com duas ou três músicas e letras. Estava ali qualquer coisa. À medida que o repertório foi aumentando vimos que eram retratos de uma personalidade marcada, que merecia um nome. O Luís sugeriu Ivone e o Zé Pedro disse Deolinda. Ficou Deolinda.

É uma banda familiar...

O Pedro [autor das letras e guitarrista] e o Luís [guitarrista] são irmãos e meus primos. Também eles estavam na música com outros projectos e então pensámos: ‘Por que não juntarmo-nos? Nós, que somos família, vamos fazer um projecto em família.’ Tanto nos Lupanar como nos Bicho de 7 Cabeças, havia muita gente e instrumentos. Pensámos em criar um projecto com poucas pessoas, fácil de transportar e acústico. Tornava-se mais simples apresentá-lo às pessoas. O Zé Pedro Leitão, que também estava nos Lupanar e nos projectos de jazz, veio para a Deolinda e assim se compôs o grupo.

Que idade tem a Deolinda? E embora solteira tem uma vida amorosa complicada, não?

Ela tem entre 40 e os 50 anos e sim, coitada, tem uma vida amorosa complicada. Se não onde iria buscar a riqueza das histórias? Só os que provam os desamores é que os podem cantar... ainda assim ela é reservada, não é mulher de expor muito as suas paixões. Só de vez em quando, por exemplo, em ‘Não sei Falar de Amor’, no seu diálogo com o vizinho... Fala do tempo, de tudo, mas ela quer é falar de amor.

O que lhe trouxe a Deolinda a si, pessoalmente?

Tudo. Eu sempre me via a cantar rock, blues, jazz e nunca música popular e fado. Foi uma descoberta maravilhosa. E trabalhar com guitarra clássica é algo que me agrada muito. É uma sonoridade despida ou falsamente despida. Parece simples mas tem vários níveis, que as guitarras e o contrabaixo vão construindo. Essa simplicidade aparente e ao mesmo tempo a complexidade dos arranjos agradam-me também. E cantar personagens não tem preço. É uma grande sorte para qualquer cantor e intérprete poder trabalhar este material.

Como foi a experiência de ter tocado no Sudoeste?

Se há cinco anos me tivessem dito ‘vais tocar ao Sudoeste com uma banda de música popular, tradicional, fado, portuguesa, com duas guitarras, um contrabaixo e voz’, eu rebolava-me a rir no chão. O que é facto é que nós fomos lá e foi uma noite maravilhosa, musical e pessoalmente. O público aderiu como nunca tínhamos sonhado. As nossas expectativas eram altas mas nunca sonhámos que pudesse ser tão bom.

Não era suposto a Deolinda gravar um CD, mas aconteceu. Qual a razão da mudança de planos?

A Deolinda foi criada inicialmente com o intuito de tocar ao vivo. Do que nós gostamos mesmo é disso. O estúdio ainda é uma experiência um bocadinho penosa, se bem que, com a ajuda do Nelson Carvalho, que foi quem produziu o álbum, tornou-se mais agradável. O que é facto é que fomos tocando, o público foi passando a palavra e trazendo mais público, a coisa foi crescendo até sentirmos a necessidade de pôr estas músicas em objecto e assim surgiu o álbum ‘Canção ao Lado’.

Que papel teve a internet na promoção da banda?

Foi uma ferramenta essencial para promover o nosso trabalho numa altura em que ainda não tínhamos uma estrutura profissional que nos pudesse ajudar nem dinheiro para isso. Foi a maneira que encontrámos para responder ao público que saía dos concertos e pedia para continuar a ouvir as nossas músicas. Com recurso a gravações de muito fraca qualidade, lá fomos pondo algumas músicas no MySpace e a partir daí os comentários e mensagens que recebíamos das pessoas eram de apoio e apreço pelo nosso trabalho. Foi uma bola de neve.

A música da Deolinda é fado?

O fado é uma das nossas grandes influências, mas fado tradicional não somos com certeza e não pretendemos de maneira alguma renovar o fado, mesmo porque não temos a certeza de que o fado precise de ser renovado. O que pretendemos é pegar em todas estas influências – fado, música tradicional portuguesa, pop e música brasileira – e juntar tudo num projecto com personalidade musical e artística.

A Deolinda não tem guitarra portuguesa e é dançável.

É algo que poderá chocar algumas pessoas ligadas ao fado mais tradicional mas a atitude fadista, em certa medida, está lá. Os temas são os amores, raparigas mal amadas, não amadas mas que procuram o amor... temas de fado. Ainda assim, a perspectiva é diferente, não há o grito, a tristeza, há um olhar irónico de leveza, de procurar o mais positivo, a cor em vez do negro.

E também alguma ironia em torno do ‘fado da desgraçadinha’?

Vem da nossa personalidade e até da minha... Eu não sou actriz, não consigo encarnar toda e qualquer personagem, tenho de ter ligação com aquilo que estou a cantar para soar a verdade. E não é essa a minha atitude perante a vida, nem a do Pedro, do Luís e do Zé. Eu gosto de encarnar senhoras que levam pancada da vida mas que mesmo assim sorriem... é cantar a tristeza rindo. É a atitude da Deolinda.

O fado é de Lisboa. A Deolinda vive nos subúrbios. Porquê?

O Pedro e o Luís são da Damaia. Eu vivi muitos anos na Venda Nova. Temos algum conhecimento de causa do que é a vida nos subúrbios e eu, agora que vivo no centro de Lisboa, sinto que aquela vida de bairro por vezes acontece também nos subúrbios. Do isolamento nasce a necessidade de estabelecer relações humanas. Muitas vezes ouvi conversas à janela entre vizinhas em prédios enormes. Há orgulho do bairro.

Os subúrbios da Deolinda não são cinzentos...

Na nossa vivência também há a outra parte. A família do Pedro e do Luís tem um restaurante na Damaia – onde nós ensaiámos e onde nasceu a Deolinda – que sempre foi um ponto de encontro. É uma vivência alegre dos subúrbios. Quisemos mostrar que pode existir cor e alegria no que é considerado feio e escuro. Quisemos mostrar a beleza que se pode tirar do feio.

Como é interpretar a Deolinda em palco?

Não é estudado, não sou actriz e não tenho qualquer experiência de palco. É um clique. Otexto pede uma postura. Não posso cantar ‘Garçonete...’ com uma postura sorumbática. Nem ‘Ai Rapaz’, sobre uma rapariga com uma leveza matreira a tentar chegar ao rapaz de quem gosta trocando de par no baile, de forma pesada. Tenho de ter cuidado na interpretação para defender bem os temas. Os gestos e o pezinho de dança é a simples fruição da música, das personagens e situações contadas.

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