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A aldeia portuguesa dos irmãos Fiennes

Ralph e Joseph Fiennes costumavam passar férias em Reriz, perto de Castro Daire, onde vivia a avó, Sylvia Fiennes.
Vanessa Fidalgo 10 de Abril de 2016 às 16:00

A revelação foi feita pelo próprio ator Joseph Fiennes: numa entrevista a uma estação de rádio nacional, a propósito da estreia do filme ‘Risen’, declarou não só que já tinha estado em Portugal como conhecia bem a aldeia de Reriz, no concelho de Castro Daire. "Costumava lá passar férias em casa da minha avó. E adorava! Sobretudo dos mergulhos no rio."

O rio era o Paiva, onde ainda hoje todos os miúdos de Reriz aprendem a nadar. E a casa de pedra da avó, Sylvia Fiennes, continua a ser a última da aldeia e a mais próxima da praia fluvial. Por ali, a maioria dos aldeões ainda se lembram não só da generosidade da idosa inglesa como dos netos. "Era uma senhora boa e que devia gostar muito de crianças. Os netos vinham todos os anos a Portugal e ela fazia uma festa. Não sei se era para lhes dar as boas-vindas ou se porque algum deles fazia anos, mas o certo é que mandava um recado para a escola e convidava as crianças todas da aldeia", recorda.

E para Teresa e as  outras crianças esse era o ponto alto do ano. "Havia tudo o que nós não estávamos habituados a comer: bolos, chocolates, bombons, rebuçados, frutas cristalizadas. Foi  ali que eu vi rebuçados pela primeira vez. Eles até já usavam aqueles  copos  de plástico descartáveis com bonecos, que era coisa que na  altura nem devia haver em Portugal. E, no fim, davam sempre uma prenda a todos os meninos: carrinhos para os meninos, bonecas para as meninas.  Ora,  qual  é  que  era  a criança que depois não gostava deles? Quando víamos os netos cá fora, à beira do rio, a nadar ou a pescar trutas, íamos lá ter com eles… não tanto para brincar, que a gente não entendia uma palavra de inglês, mas para lhes pedir doces..." 


SANDÁLIAS INGLESAS

Além da língua, havia outras coisas que causavam estranheza às gentes de Reriz: "Eles apareciam com aqueles calções de xadrez e sandálias inglesas com furinhos. Nós, que andávamos descalços e nunca usávamos calções, achávamos esquisito. Mas eles eram simpáticos. Riam-se. Ainda me lembro muito bem do mais velho, o tal do Ralph Fiennes. Quando a minha filha me mostrou a fotografia na internet, reconheci­­­-o logo: era o mais alto, com um olho muito azul. Era um rapaz bem bonito!", confessa Teresa, 50 anos, e proprietária do café Ponte Nova, o único que existe em Reriz e que nos últimos dias tem sido o epicentro de todas as conversas sobre os Fiennes. A  maioria da aldeia ficou surpreendida com a notícia. Lembravam-se dos miúdos dos calções, mas não faziam ideia de que se tinham tornado célebres.


Pedro Silva, o presidente da Junta, está até a pensar em oferecer-lhes uma medalha, em jeito de homenagem e esperança de que ali voltassem para reviver a infância. "Podia ser que gravassem um filme por cá. Já não eram os primeiros. E era também uma maneira de homenagear os ingleses de Reriz. No verão, chegam a ser  perto de uma centena, entre os que regressam e os que alugam as suas casas a compatriotas. E basicamente, são o único mercado de trabalho de Reriz, sem ser a terra. Eles pagam bem a quem lhes cuida das casas. Já para não dizer que foi até um casal inglês, a Dr. Eva e o Sr. Richard, que pagaram a instalação da luz elétrica e da rede telefónica em Reriz. Fomos a primeira aldeia do concelho a ter luz". Ao lado do presidente, Olinda Alves, 60 anos, sugere entusiasmada: "Até podia pôr-lhe o nome numa rua."


Olinda tem razões de sobra para achar boa a ideia. O pai construiu com as próprias mãos a casa encomendada pelo casal e quando era menina bateu-lhes à porta  para pedir a Eva roupa emprestada para as peças de teatro da coletividade: "As inglesas eram muito bonitas e tinham vestidos com folhos e chapéus com  lacinhos. Ela tinha um armário cheio e arranjou tudo o que precisávamos para  a peça." Lembra-se também de Hanny, pintora holandesa, casada com outro inglês da terra, que pintou um fresco no altar da paróquia de Reriz.


Na aldeia, Sylvia passava os dias a passear, ora pelo vale com os cães, ora pelas cidades vizinhas, provavelmente Vila Real, Viseu e Porto. "Não fazia nada. Já devia ser viúva porque nós nunca lhe conhecemos marido. Andava sempre com a ‘nanny’, que era a dama de companhia, e saíam muito, quase  sempre  no mesmo táxi, que as vinha pôr e buscar", conta Olinda. 


A FAMÍLIA

Sylvia Joan Finlay Fiennes era casada com Sir Maurice Alberic Twisleton-Wykeham-Fiennes (1907–1994), industrial inglês, oriundo de famílias nobres (era neto de Frederick Benjamim Twisleton-Wykeham-Fiennes, barão de Saye e Sele). Tiveram cinco filhos, entre eles o fotógrafo Mark Fiennes, pai de Joseph e Ralph Fiennes. Terá sido com ele que Sylvia veio pela primeira vez a Portugal, visitar as minas da região, onde os ingleses durante a II Guerra Mundial vinham buscar o volfrâmio para o fabrico de armamento. Data também dos anos 40 a primeira comunidade britânica em Reriz, gente ligada às minas e ao comércio do vinho do Porto, segundo Pedro Alvez, investigador e autor de ‘Reriz tem história’.


Sylvia Fiennes era já sexagenária quando se instalou em Reriz e partiu em 1996, com 84 anos. Quase nunca ia a Inglaterra de  férias.  E  deve mesmo ter sido feliz em Reriz, pois preferiu ali ficar enterrada. A sua campa é uma de meia dúzia com inscrições em inglês no cemitério local.


Na sua casa de pedra na Quinta do Souto do Paço vive agora outro inglês, Kennneth Clark, que confirmou à ‘Domingo’ não ter "nada  a ver com os Fiennes, à exceção da nacionalidade". Antigo médico, com 85 anos, fez o mesmo trajeto de Sylvia, ao escolher Reriz para gozar a reforma em Portugal. "A casa foi adquirida em 2006, já muitos anos depois de a Sylvia ter falecido. Mas sabia que tinha sido da família Fiennes porque ouvi essa história dos antigos proprietários, os herdeiros da empregada inglesa, a quem deixou a casa. De resto, pouco ou nada sei sobre eles: quando cheguei, a casa estava vazia. Eles levaram tudo após a morte da ‘nanny’". Deixou as boas recordações: a Celeste, por exemplo, que a convidou para o casamento. Sylvia não foi, mas ofereceu a prenda mais bonita de todas: "um lindíssimo bouquet de noiva". E de flores se faz também a saudade de Teresa: "Eu tirava rosas e camélias do jardim da dona Sylvia para dar à professora quando chegava atrasada. Ela assim não me castigava". Sylvia sabia. E não se importava.

 

UMA FAMÍLIA DE ARTISTAS  

Joseph, Jacob, Sophie , Magnus, Martha e Ralph Fiennes não passavam despercebidos em Reriz. Quase todos seguiram a carreira artística. Sophie e Marta são realizadoras e Magnus é compositor. Fugiram à regra Jacob, que trabalha como guarda florestal, e Michael (que não está na foto) é arqueólogo.   

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