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“Agarrei-me ao major a chorar para vir um aerotáxi”

Descontrolou a Unimog, que tombou em cima dele. Deitava sangue por todos os buracos que tinha no corpo.
7 de Janeiro de 2018 às 12:42
“Agarrei-me ao major a chorar para vir um aerotáxi”
“Agarrei-me ao major a chorar para vir um aerotáxi”

Em cinco meses fiz a recruta em Elvas, fui ao Porto e formei batalhão em Abrantes. Tive sempre comigo um moço da minha zona, que vivia em Vila Boim, pequenino e muito ruivo. O Francisco Guerra era empregado de mesa e tinha alguns conhecimentos, enquanto eu já era tratorista, mesmo sem ter carta, e fomos para condutores.

Chegámos a Luanda na época das chuvas e levámos oito dias até chegarmos à Fazenda Maria Fernanda, a 13 de maio de 1965. O historial daquele sítio era terrível e só lá ficámos até 9 de agosto, porque era tão ruim que mudavam as companhias com mais facilidade.

Falei com o furriel para nunca me pôr a mim e ao Francisco na escala ao mesmo tempo, pois ele não sabia conduzir bem e eu também fazia os serviços dele. Mas ao fim de uns meses sucedeu que tínhamos de ir à pista de avionetas junto à Fazenda Margarida para ir buscar o major Saraiva e ele disse que queria ir. "Ó Chico, se queres, então vai", disseram-lhe. Foi, mas como a estrada era aos altos e baixos descontrolou a Unimog, que tombou em cima dele. Deitava sangue por todos os buracos que tinha no corpo.

O primeiro-sargento comunicou para o acampamento que o Chico estava roxo e eu, com a coragem dos 22 anos, peguei num jipe e fui ter com ele, encontrando-o vivo. Agarrei-me ao major, de quem tinha sido ‘chauffeur’ na metrópole, a chorar para vir um aerotáxi buscá-lo e ele perguntou-me quem é que pagava, pois eram 4000 angolares. Disse que pagava, mesmo sem ter. O aerotáxi veio em 15 minutos e levou-o para o hospital. Ao fim de dois meses já tinha o dinheiro, porque toda a gente da companhia contribuiu.

Numa outra ocasião houve um a pedir ao alferes para passar um dia no mato, onde andávamos a abrir uma estrada. Levou uma rajada nas partes, caiu. Eu parei mesmo ao pé do homem, que só dizia aos maqueiros: "Não façam nada, que eu sei que vou morrer!" E o moço morreu, mas na altura já nada me incomodava.

Calma de Ambriz

Entretanto, o Chico ficou seis meses na metrópole e quando voltou a Angola escreveu-me um bate-estrada, como chamávamos aos aerogramas, a dizer que estava em Luanda para ser operado. Pedi para ir ver o meu amigo, consegui encontrá-lo e nesse dia fomos para a Portugália, na Baixa. Ao contrário do que era meu hábito, apanhámos uma bebedeira tal que apareceu a Polícia Militar para nos levar presos. Acontece que o moço que ia a conduzir era da minha terra e foi-nos entregar ao quartel.

Depois fomos para Cangamba, entre 11 de agosto de 1965 e 17 de maio de 1966. Fizemos uma escola e acartávamos o cimento, que ali era barro. Mesmo quando fazia 600 quilómetros para ir ao reabastecimento a Carmona nunca fomos atacados. Mas com a chuva, aquelas estradas de terra batida ficavam quase intransitáveis.

Seguiu-se Ambriz, aonde chegámos a 19 de maio de 1966. Era tudo muito calmo, mas como era condutor fui dos mais sacrificados, pois tínhamos de ir levar comida a outros destacamentos, em Ambrizete ou Nambuangongo, que eram sítios horríveis.

Também em Ambriz houve uma altura em que o comandante-geral de Angola lançou uma grande operação e cada batalhão teve de dar homens. Não havia água e a cerveja era quente. Dormia numa espécie de barraca de madeira ao nível do terreno e o inimigo metia-se no meio do nosso acampamento a dar tiros, para os militares não poderem ripostar. Um dos moços que fui render disse-me que o nosso amigo Carlos Pessoa morreu esgotado e fui ver o sítio onde ele estava enterrado.

Ainda fui destacado para uma fazenda pequena na Musserra. Passávamos o rio Loge de jangada com carro. Eu andava com uma GMC do tempo da I Guerra Mundial que nem tinha travões, mas arranjaram-me um camião Volvo e sempre ganhava alguma coisa.

Nome António joão Borrega

Comissão Angola, 1965 a 1967

Força companhia de caçadores 768

Atualidade reformado, aos 74 anos, vive em campo maior. é casado e tem três filhos e duas netas

Elvas Porto Abrantes Polícia Militar Ó furriel Vila Boim Francisco Guerra Saraiva
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