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Correio da Manhã

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Almeida Garrett: um erotismo suave

Versos que hoje são considerados ingénuos provocaram escândalo.
João Pedro Ferreira 16 de Fevereiro de 2020 às 14:00

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854) é uma figura cimeira da cultura portuguesa. Poeta, dramaturgo, romancista, cultivou um erotismo suave, de um "colorido ingénuo", como classificou Natália Correia. Apesar dessa suavidade, ‘O Retrato de Vénus’ escandalizou as mentalidades do tempo – e o autor sentou-se no banco dos réus pelo atrevimento.

Garrett nasceu no Porto, de onde saiu aos 10 anos para os Açores fugindo às invasões francesas. Frequentou a Universidade de Coimbra e aderiu às ideias liberais. Em 1823 partiu para o exílio em Inglaterra e em França. Depois da vitória liberal na guerra civil foi cônsul em Bruxelas. Em 1836, o governo de Passos Manuel encarregou-o de reorganizar o teatro. Escreveu várias peças, com destaque para ‘Um Auto de Gil Vicente’, ‘O Alfageme de Santarém’, ‘Falar Verdade a Mentir’ e a mais célebre: ‘Frei Luís de Sousa’.

Publicou os romances ‘Arco de Sant’Ana’ e ‘Viagens na Minha Terra’, os livros de poesia ‘Flores sem Fruto’ e ‘Folhas Caídas’, o ensaio ‘Portugal na Balança da Europa’ e colaborou em vários jornais. São dele frases citadas com frequência: "Quem és tu? Ninguém!"; "O barão matou o frade e comeu-o" (mas não "foge cão que te fazem barão...", que lhe é atribuída); ou "Pergunto [...] se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico".

Do livro ‘Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica’, org. Natália Correia, ed. Ponto de Fuga
"O Retrato de Vénus
(…) Enquanto nas lidadas oficinas,
forjando o raio vingador dos numes,
vive o coxo marido sem receios,
já deslembrado da traidora rede;
do Cyníreo mancebo entre os abraços
jaz a esposa gentil enamorada.
Nas lânguidas pupilas lhe transluz
o prazer divinal, que a oprime, e anseia;
nos inflamados beijos, nas carícias,
no palpitar do seio voluptuoso,
no lascivo apertar dos braços níveos,
nos olhos, em que a luz quase se extingue,
na interrompida voz, que balbucia,
nos derradeiros ais, que desfalecem…
Quem do prazer não reconhece a deusa
no excesso do prazer quase expirando?

(...)Nisto a deusa
o mimoso sendal, já pouco avaro
do tesouro, despiu. Quantas belezas,
que divinos encantos não descobrem,
não pesquisam, não veem ávidos olhos!
Sonhos de fantasia, ah, não sois nada! (...)
Ah! muitas vezes não descubras, Vénus,
magos encantos; ou verás que em breve
à força do prazer se extingue o mundo.
Já do êxtase acordada um pouco a turba
dos vates se prepara ao doce emprego.
Tintas fornece amor, pincéis as graças;
e eis no pano avultando a pouco e pouco
assomos divinais!... É ela… é Vénus!
Eis a forma gentil do corpo airoso
salta, desliza o fundo apavonado;
róseos descurvam, se arredondam braços;
ondeiam na alva frente as tranças de ébano;
doce brilham de amor os olhos meigos,
os meigos olhos, que prazer cintilam,
que o facho acendem dos desejos sôfregos,
e contra o débil resistir do pejo
do atrevido mancebo a audácia imploram.
Nas lindas faces purpureia a rosa,
que insensível esvai na cor de neve;
sorri nos lábios o delírio, o encanto,
que importuna razão tão doce afasta,
que ávidos beijos, deliciosos, ternos
anúncios de prazer mutuam fervidos.
Despontam no alvo, cristalino colo
os arcanos do amor, que anseiam dele,
que a furto ousaste, mui ditoso Anquises,
nas trevas do prazer palpar ardido;
formosos pomos, que ao pastor Idálio
pelo tão cobiçado outrora deste (…)
Ali, quando natura se empenhara
em dar-te ao mundo, carinhosa Anália,
um a um copiou meigos encantos,
que, ó minha Vénus, te compõem, te
adornam.
Ali, olhos no quadro, os teus formosos
estremada rasgou; ali as faces
de neve, erosas, coloriu divinas;
ali risonha boca, onde contínuo
foi aninhar-se amor, te abriu mimosa;
ali o colo de alabastro puro;
os lácteos pomos, que devoram beijos
do faminto amador; lisas colunas,
que sustentam avaras mil segredos;
segredos, que… Perdoa: eis-me calado.
Volve a meus versos, compassiva amante,
benignos olhos : para ti voando,
da crítica mordaz censuras fogem:
se acolheres o rude ofertamento,
serão meus versos, como tu, divinos."

APOIOS
Soldado da liberdade
Garrett apoiou a revolução liberal de 1820 e exilou-se durante o miguelismo. Em 1832 integrou o Batalhão Académico e combateu por D. Pedro no cerco do Porto.

Pioneiro do romantismo
As leituras de Walter Scott e de Byron no exílio inspiraram os primeiros poemas românticos em português: ‘D. Branca’ (publicado em Paris) e ‘Camões’.

Teatro Nacional
Nomeado inspetor dos teatros em 1836, fundou o Teatro Nacional, hoje D. Maria II mas ainda conhecido por Casa de Garrett. Escreveu várias peças.

Influenciador de modas
O escritor era um dândi, sempre a par da última moda masculina vinda de Paris ou de Londres. Era o modelo dos seguidores portugueses.

Esquerda caviar
Amante da boa vida, Garrett foi ao mesmo tempo um político da esquerda radical: setembrista e apoiante da revolta da Maria da Fonte. Foi Par do Reino e visconde.

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