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Correio da Manhã

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Amores reais, razões de Estado e paixões fatais

A rutura do príncipe com Buckingham não se compara com a revolta de D. Afonso Henriques
Fernando Madaíl 19 de Janeiro de 2020 às 06:00

A decisão dos Duques de Sussex de cortarem os laços protocolares com a Família Real Britânica, deixando de ser ‘membros sénior’ (o que implica exercer continuamente deveres em representação da Coroa) e trocando os privilégios do Palácio de Buckingham por uma vida normal, é menos drástica se se comparar, não apenas com a recente tradição da Casa de Windsor, mas também com a milenar História das Monarquias do Mundo.

Aliás, só pelo facto do seu tio Eduardo ter abdicado do direito ao trono por paixão, para se casar, em 1938, com a divorciada americana Wallis Simpson, é que Sua Majestade Isabel II pode entrar na lenda dos recordes com os seus quase 68 anos de reinado – o mais longo dos Anais Britânicos, superando o da rainha Vitória, além de ser agora, após a morte do rei Bhumibol Adulyadej, da Tailândia, a chefe de Estado há mais tempo no cargo.

O Mundo e a sociedade mudaram de tal forma que este seu neto fez com Meghan Markle o mesmo que o monegasco Príncipe Rainier, que casou com uma plebeia, a ex-atriz norte-americana Grace Kelly – tal como o atual monarca de Madrid, que desposou a jornalista Letizia Ortiz Rocasolano. No ‘annus horribilis’ de 1992, para a monarquia britânica, o filho André divorciou-se de Sara Ferguson e a filha Ana separou-se de Mark Phillips; em 1993, para espanto do Planeta, houve a dissolução dos laços entre Carlos e Diana Spencer – e, mesmo a contragosto da soberana, em 1997 teve de ser proporcionado um quase funeral de Estado à popularíssima Lady Di, morta quando o automóvel em que seguia com o seu companheiro, Dodi Al-Fayed, se despistou em Paris, ao tentar fugir dos ‘paparazzi’ que perseguiam o casal. Tudo completamente diferente do seu caso, quando Filipe renunciou aos seus títulos grego e dinamarquês e se converteu ao Anglicanismo para poder casar com ela, em 1947 – cinco anos antes da Coroação.

Mesmo a Igreja Anglicana, de que a Rainha é a Governadora Suprema, foi fundada por questões sentimentais. Quando o Papa Clemente VII não aceitou anular o primeiro dos seis casamentos de Henrique VIII, o monarca rompeu com a Santa Sé (criando a Igreja de Inglaterra) e celebrou novas bodas – mas cinco nubentes tiveram final infeliz: Catarina de Aragão foi banida da Corte, Ana Bolena executada, Joana Seymour morreu num parto, Ana de Cleves viu o casamento dissolvido, Catarina Howard foi decapitada.

O bastardo D. João I
A História de Portugal também é rica em paixões, ciúmes, adultérios. E desde o início: D. Afonso Henriques retirou o poder à mãe, em 1128, na Batalha de São Mamede (Guimarães), quando muitos nobres do ainda Condado Portucalense criticaram a viúva D. Teresa por estar a viver maritalmente com o conde galego Fernão Peres de Trava, de quem ainda teria duas filhas.

E a Segunda Dinastia começa quando, a par dos triunfos militares em batalhas como a de Aljubarrota, as Cortes de Coimbra impõem o Mestre de Avis, que era um filho bastardo de D. Pedro I, como o novo rei D. João I. O seu casamento com a inglesa Filipa de Lencastre viria a gerar a chamada ‘Ínclita Geração’ e, com ela, o início da Expansão Portuguesa. Entre as alianças matrimoniais luso-britânicas, destaque inverso teve a mal amada Catarina de Bragança, esposa de Carlos II e rainha consorte da Inglaterra, Escócia e Irlanda, apenas entre 1662 e 1685, mas que ali deixou a sua marca: além de ter introduzido o uso dos talheres e do tabaco, criou uma das tradições da civilização inglesa, o ‘Chá das Cinco’.

Nesses tempos, em que se casavam velhos com meninas, tios com sobrinhas ou crianças que só serviam para estabelecer alianças entre países, era quase natural ter amantes. Apesar da expressão ser usada, pela primeira vez, em relação à imperatriz bizantina Theodora – atriz que se tornou esposa do imperador Justiniano e, depois, passou a ser uma santa ortodoxa –, a mais antiga cortesã será a lendária Amrapali, que terá vivido em Vaishali (território atual da Índia), no século V a.C., foi amante do rei Manudev e até recebeu Buda na sua opulenta residência; e uma das últimas cortesãs famosas foi ‘La Belle Otero’ (1868-1965), a mulher mais desejada da Europa na Belle Époque e que dormiu com o kaiser alemão, o príncipe do Mónaco, membros da realeza britânica, um grão-duque russo, nobres espanhóis e sérvios.

'Ribeirinha' e Inês
Em Portugal, as cortesãs também foram uma presença quase constante nos paços reais. A preferida do segundo monarca, D. Sancho I, era D. Maria Pais de Ribeira, a ‘Ribeirinha’ – que serviu de mote ao primeiro texto literário em galaico-português de que se tem registo, a ‘Cantiga da Ribeirinha’, de Paio Soares de Taveirós, além de ter sido a musa do próprio rei trovador, quando ele versejou: "Ai eu coitada / Como vivo em gran cuidado / Por meu amigo que ei alongado! / Muito me tarda / O meu amigo na Guarda!" A tradição de paixões proibidas manteve-se até à última cabeça coroada, quando o muito jovem D. Manuel II, em 1909, se apaixonou pela atriz Gaby Deslys (que, no meio de outras aparições públicas nada discretas, até chegou a dormir no Palácio Real), acabando por fornecer mais um argumento aos republicanos que, no ano seguinte, o destronariam.

Mas a mais mítica das paixões funestas foi a de D. Pedro com Inês de Castro. A chamada ‘Razão de Estado’ foi a justificação para o pior desenlace do mais cantado episódio de amor nacional. O herdeiro da Coroa apaixonou-se por uma aia da comitiva da sua esposa, D. Constança de Castela, mas D. Afonso IV e os seus conselheiros perceberam que, com a influência da galega família Castro no panorama ibérico, podia estar em causa a futura escolha de um sucessor – e decidiram que Inês fosse executada. Embora seja pouco credível a tétrica cerimónia do beija-mão ao cadáver desenterrado daquela que, "depois de morta, foi rainha", a vingança de D. Pedro não se limitou à execução de dois dos assassinos da sua amada (e, sobre a forma como o terceiro se escapou, abundam as lendas), como mandou arrasar a própria terra dos seus secretos encontros íntimos, a Vila do Jarmelo.

Longos títulos
Neste momento, parece que Meghan Markle já não aguenta mais a pressão mediática sobre as famílias reais e Harry prescinde de estar no sexto lugar na linha de sucessão para, eventualmente, poder vir a ser chefe de Estado do Reino Unido (Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do Norte), Canadá, Austrália, Nova Zelândia – e ainda Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Granada, Jamaica, Papua-Nova Guiné, ilhas Salomão, Santa Lúcia, São Cristóvão e Nevis, São Vicente e Granadinas, Tuvalu.

Uma grandeza que permite aos portugueses lembrarem o enorme título de D. Manuel I – que também só subiu ao trono pela morte dos seis pretendentes que sobre ele teriam prioridade – quando se casou com a sua terceira mulher, D. Leonor (sucessivamente, arquiduquesa da Áustria, princesa de Espanha, rainha de Portugal e, porque o seu apaixonado enteado, quando já era D. João III, não o conseguiu evitar, ainda rainha da França): "Rei de Portugal e do Algarve, de aquém e de além mar em África, Senhor de Guiné e da conquista, navegação e comércio de Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia."

E Harry tenta fazer tudo para evitar que, um dia, alguém lhe lembre um soneto intemporal, no qual Luís de Camões sentenciava: "Erros meus, má fortuna, amor ardente."

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