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"Andei atrás de Che Guevara em Angola"

Tarefa dolorosa. Eram os mecânicos como eu quem saia dos helicópteros para recolher os cadáveres dos nossos camaradas. Contei mais de 60.
19 de Abril de 2009 às 00:00
'Andei atrás de Che Guevara em Angola'
'Andei atrás de Che Guevara em Angola'

Saí dos Pupilos do Exército e fui para França tirar o curso de rádio de helicópteros Alouette III. Depois, fui mobilizado para Angola e colocado na Base Aérea 9, em Luanda, integrado na Esquadra 94. Depressa esqueci algumas teorias, pois no mato a realidade era bem diferente e sujeita a muitas condicionantes. Nas evacuações, éramos nós – os mecânicos, no meu caso de rádio –, que saíamos com a maca para recolher os feridos e os mortos. Era uma tarefa dolorosa.

Foram vários os Alouettes furados por projécteis inimigos mas, por sorte ou perícia dos pilotos, nenhum foi abatido. Alguns caíram por avaria e outros porque queríamos socorrer as nossas tropas em sítios inacessíveis, muitos na mata angolana. Só de uma vez morreram seis camaradas, um dos quais me pediu, à última da hora, para ir no meu lugar.

Durante as missões, todos os tripulantes se uniam nas adversidades, inventávamos e com espírito de humor, mas com responsabilidade, dizíamos: 'Isto está preso por arames, mas voa!' Foram vários os casos em que os rotores das caudas partiram e as aeronaves caíram no chão como pedras. Uma vez, numa operação de resgate de vítimas, o helicóptero teve uma grave avaria e valeu-nos a perícia do piloto que conseguiu desligá-lo no ar. Acabamos por cair desamparados na mata. Felizmente, ninguém morreu.

No primeiro ano de comissão (1965/66), os militares mortos no Ultramar não tinham direito a transladação para a Metrópole e nós não os podíamos transportar. Infringindo as normas, arranjávamos maneira de os resgatar, mais que não fosse para lhes fazermos um funeral digno. Colocávamos os cadáveres nas aeronaves e depois dizíamos que os homens tinham morrido a bordo.

Como fazia parte da tripulação de helicópteros, vi a guerra do Ultramar do ar. Só descia à terra para resgatar os feridos e os mortos, uma missão talvez mais complicada do que combater com as forças inimigas no meio do mato. Tínhamos de contar os mortos e só pela minha mão passaram mais de 60. Foi terrível e hoje ainda acordo a meio da noite a sonhar com esses momentos trágicos. A maior parte dos corpos de homens caídos em combate foi levada para Nambuangongo, cujo cemitério depressa ficou lotado. Em 1966, restabelecendo a mais elementar justiça, o Estado passou a assegurar o seu transporte de regresso à Pátria.

A nossa principal actividade desenvolveu-se na zona dos Dembos. À medida que as operações militares decorriam, saíamos ao nascer do dia de Luanda e só no ar é que recebíamos instruções sobre o nosso destino. Ficávamos nos acampamentos do Exército, em melhores ou piores condições, mas todos juntos: oficiais, sargentos e cabos especialistas. Éramos quem levava os militares, sobretudo os pára-quedistas, para os teatros de operações. Para os colocar no mato, cada Alouette transportava cinco tropas, além do piloto e de um mecânico.

No interior do helicóptero assisti às cenas de desespero daqueles que tinham de saltar para a selva, alguns deles para a morte. Muitas das vezes eram empurrados porque não tinham coragem para se atirar. Alguns partiram pernas ao chegar ao chão, porque a vegetação era alta e o helicóptero não podia baixar mais. Quibala Norte, Bela Vista, Santa Eulália, Quibaxe, Quicabo, Piri, Zala Úcua e a mítica Nambuangongo foram as zonas que mais nos serviram de base.

No terceiro trimestre de 1965 falou-se que Ernesto Che Guevara estava a combater na fronteira do Congo com Angola. Para nos certificarmos da veracidade da informação fomos para São Salvador do Congo. Participámos em várias operações na zona, por exemplo em Cuimba e Serra da Canda, mas nunca obtivemos qualquer confirmação. O mítico guerrilheiro refere no seu livro ‘Congo’ que estava lá nessa altura, mas a combater ao lado dos oponentes a Mobutu.

No terceiro semestre de 1966, com a ida da facção Chipenda para o Leste, a guerra agravou-se na zona. Disseram-nos que íamos para lá por oito dias, mas só fomos substituídos ao fim de 45. Estabelecemo-nos no recém-formado aeródromo-base no Cazombo e daqui partíamos para onde fosse necessário. Andámos pelos ‘cus de Judas’ – magistralmente descritos por António Lobo Antunes – estivemos em Lumbala e noutras terras perto da fronteira da Zâmbia. Nessa zona, os Fuzileiros e os Comandos foram os nossos principais companheiros. Levávamos os feridos para o Luso. A Esquadra 94 foi constituída em 1963 e continuou operacional até deixarmos Angola. Quem por lá passou jamais a esquecerá.

DO HELICÓPETRO PARA A RÁDIO

Quando regressou, Amílcar Pires ficou mais seis meses na Força Aérea e depois foi para a Emissora Nacional como técnico de rádio. Casou com uma mulher que conheceu em África. Tem uma filha, de 36 anos, médica, e teve um rapaz, que faleceu com 19 anos (1987), atropelado por um camião em Alcácer do Sal. Estudava Medicina. Enquanto trabalhava na rádio tirou o curso de Direito, mas exerceu pouco. Entretanto, ingressou na Função Pública, foi chefe aduaneiro do Aeroporto de Lisboa e reformou-se, em 1999, como director da Alfândega do Funchal.

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