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Anti-ciclope

Tornou-se numa banalidade concluir que 'depende do ponto de vista'. Mas não é fácil aceder a uma perspectiva diferente. A maior parte das pessoas ignora os factos que contrariam o seu próprio olhar. Algumas experiências recentes revelam que espectadores dum debate político desprezam a informação que contraria as suas posições. E as áreas cerebrais onde se processa a razão podem permanecer inactivas.
Joana Amaral Dias 10 de Agosto de 2008 às 00:00
Anti-ciclope
Anti-ciclope

‘Ponto de Mira’ conta a história em oito capítulos. Em cada um assiste-se ao ponto de vista duma personagem, ou antes, a um ângulo diferente sobre os acontecimentos. E as oito versões complementam-se, como se fossem peças do mesmo puzzle. Trata-se de mais um subproduto reciclado. Com a vantagem de parecer um jogo. O seu mecanismo narrativo valoriza a relação lúdica com o espectador e permite gozar o DVD como uma charada.

Teima-se na exploração do pós-11 de Setembro: terroristas tentam assassinar o presidente dos EUA e explodem uma praça inundada de manifestantes. Primeiro, mostra-se como uma editora de notícias encara o sucedido. Depois, o filme rebobina e revela a visão do guarda-costas. Em seguida, exibe-se o ângulo do presidente. E assim sucessivamente. O filme regressa sempre ao mesmo ponto de partida temporalmas vai avançando e oferecendo nova informação até ao desenlace final.

‘Ponto de Mira’ assemelha-se a um livro de páginas transparentes, cada uma desenhada com partes duma imagem. Uma figura que só se completa e entende quando todas as folhas estão sobrepostas. Por vezes, as partes repetem-se e o jogo torna-se previsível, mas resistem dois ou três exemplos que demonstram o enviesamento resultante dum único ponto de vista.

Actualmente, é óbvio que uma notícia é apenas um prisma possível sobre um dado acontecimento. Mas ‘Ponto de Mira’, ao mostrar mais sete olhares sobre os mesmos eventos, após revelar o ângulo da editora noticiosa, torna esse óbvio numa evidência dolorosa. Assiste-se à forma como essa personagem deliberadamente omite certos factos e destaca outros, oferecendo ao consumidor de televisão um ângulo afunilado.

Nesse sentido, na sua menoridade descomplexada, este filme contribuí para o jogo da alteridade, transformando o espectador num miniginasta mental. Convidando-o a aceitar o mundo como um caleidoscópio. E não como uma linha recta.

MIL OLHOS

A matriz gramatical de ‘Ponto de Mira’ encontra-se em ‘Rashomon’ (Akira Kurosawa, 1950). Mas, neste filme, confrontam-se diferentes percepções da realidade. As visões de cada observador conflituam e contradizem-se, levando muito mais longe o conceito de múltiplos pontos de vista.

VISÃO TÉRMICA

‘Olhos da Serpente’ (Brian De Palma, 1998) também aposta em desmontar o ponto de vista inicial sobre um atentado. São os flashbacks que reinterpretam a versão inicial. Criam-se manobras de distracção para que o verdadeiro golpe se dê. Um velho truque de magia.

RETROVISOR

Na sitcom ‘Foi Assim que Aconteceu’ cada um dos amigos do grupo faculta uma versão sob uma lupa cómica diferente. Mas memorável é o famoso episódio de ‘Seinfeld’ desvendado de flashback em flashback. Analepses que começam num casamento na Índia e terminam na proto-história da série.

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