Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

“Após o 25 de Abril eram tiros por todo o lado. Foi muito feio”

Mal tinha acabado de comer, após um patrulhamento, começaram a cair mísseis.
Manuela Guerreiro 12 de Janeiro de 2020 às 11:00

Ficando bem classificado no curso de sargentos milicianos, fui destacadoparaCoimbra,fazendo trabalhodesecretariaedando instrução aos mancebos mais novos. Pensava eu que tinha escapado a uma possível mobilização... porém, enganei-me. A ordem para me apresentar em Penafiel chegou numa manhã. O batalhão partiu para a Guiné, no navio ‘Niassa’, a 6 de julho de 1973.

Chegámos ao destino a 13 de julho e começámos logo a ouvir bombardeamentos. Sendo a Guiné plana, o som era audível a quilómetros de distância. Fomos instalados no Cumeré, um centro de IAO(Integração/Ambientação/ Operacionalidade), situado a poucos quilómetros de Bissau. Logo à chegada, recebia a má notícia do falecimento de um camarada da minha terra, o Serafim, colega da escola primária. Desmoralizou-me muito…

Um mês depois partimos em coluna militar para o que iria ser a nossa casa durante o tempo de comissão – Nova Lamego (hoje Gabu, no interior leste). O dia a dia passava por prevenções, segurança à pista de aviação, colunas militarizadas de abastecimento a destacamentos, incursões pelo mato em patrulha, bem como treinos na carreira de tiro.

Jogar à bola e caçar
Nas horas de acalmia procurávamos não pensar na guerra. A ocupação dos tempos livres era muito importante para nos mantermos mentalmente estáveis (e isso era o mais importante) e para não termos tempo de pensar em coisas negativas (do género… vou morrer aqui, ou nunca mais vejo a minha família ou a minha namorada, vou sair daqui aleijado…). Jogar à bola, caçar coelhos na mata e ver filmes eram algumas das atividades que fazíamos para manter a sanidade mental. O facto de tocar guitarra ajudou a levantar os ânimos,não só dos soldados, como dos colegas graduados. Esta faceta levou-me várias vezes ao CAOP (Comando Avançado Operacional) acompanhar os superiores no fado. Estes momentos de distração eram proveitosos para todos.

O meu grupo de combate foi destacado para Canquelifá, no fim de janeiro de 1974, para reforçar o destacamento que lá se encontrava, pois estavam a ser atacados.

Após um patrulhamento de cinco quilómetros, perto da fronteira da Guiné-Conacri (República da Guiné), mal tinha acabado de tomar um duche e de comer qualquer coisa, começam a cair mísseis terra-terra por todo o aquartelamento. O primeiro caiu a cerca de 30 metros de onde eu e o meu grupo estávamos, fazendo um funil enorme no chão e não pararam de cair até que os nossos obuses começaram a ripostar.

O barulho era ensurdecedor, muito pó e fumo no ar. Camaradas e população a chorar e nós a tomarmos posições de combate nas valas, prevendo possível ataque do inimigo por terra. A nossa artilharia, eficaz como sempre, conseguiu, pouco a pouco, terminar com o bombardeamento inimigo. Durou a noite toda. Felizmente não houve baixas nas nossas tropas, só que o aquartelamento foi todo arrasado. Fizemos um patrulhamento à zona e deduzimos que a nossa artilharia tinha feito baixas no inimigo devido ao que encontrámos no mato.

Depois do 25 de abril, os problemas diminuíram no mato e passaram para as aldeias. Nova Lamego foi atacada em maio de 1974. Como se tinha dado o 25 de abril, o inimigo pensou que já era tudo dele. Eram tiros por todo o lado, ao ponto de ser solicitada a intervenção dos paraquedistas, dos comandos e da Força Aérea. Esteve mesmo muito feio. Sofremos uma baixa, o nosso guia africano, o Baldé, que levou um tiro pelas costas. O meu grupo de combate ainda foi destacado para Cabuca, perto da fronteira, não havendo nada a registar a não ser um levantamento de rancho. Regressámos de avião a 7 de setembro de 1974.

República da Guiné Penafiel Niassa Lamego política questões sociais defesa forças armadas
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)