Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

"Aprendemos o que é o medo em Zala"

Assim que púnhamos o pé fora do acampamento as balas começavam a voar, e só por sorte ninguém morreu naquele inferno
Ana Maria Ribeiro 12 de Julho de 2015 às 15:30
Com um cabo telegrafista e um soldado telegrafista
Com um cabo telegrafista e um soldado telegrafista FOTO: D.R.

Assentei praça no dia 12 de janeiro de 1964, com 19 anos. Fiz os 20 poucos dias depois de chegar a Angola. Embarquei em Lisboa a 9 de junho, no paquete ‘Vera Cruz’, e a viagem demorou uns nove dias. Éramos dois mil soldados dentro do navio e íamos sem medo. Quem é que tem medo aos 19 anos? Quando chegámos a Luanda, na força do calor, estivemos primeiro três meses no Campo Militar de Grafanil antes de sermos destacados. Eu, que era caçador, fui para a fronteira, para Sancadica, perto de Maquela, onde estive cerca de um ano.


Nesse período, pouco ou nada aconteceu. Éramos um pelotão de 40 caçadores e o que tínhamos a fazer era tomar conta da fronteira. Certificarmo-nos de que não havia problemas. Ao fim desse tempo mandaram-nos para Zala, o sítio onde havia mais conflitos em Angola. Fomos para lá combater. Não havia dia em que não houvesse tiroteio. Mal púnhamos o pé fora do acampamento, fora do arame farpado, as balas começavam a voar. Disparávamos mesmo sem ver o inimigo. Eles viam-nos a nós, mas nós não os víamos a eles.

Estivemos lá cerca de um ano, também, e felizmente não nos morreu colega nenhum. O meu pelotão só teve uma baixa, e isso só depois de acabar a comissão. Vinte e cinco dias depois, houve um acidente: a viatura virou-se e o nosso colega, que era condutor, morreu esmagado.


Mas tivemos muitos sustos. Em Zala ficámos a saber o que era ter medo, mas também tivemos os nossos assomos de coragem. Foi aí que, já depois de finda a nossa comissão, fizemos um levantamento de rancho. Recusámo-nos a comer. Isto porque enquanto os oficiais e os sargentos comiam do bom e do melhor, a nós davam-nos arroz com chouriço vermelho ao almoço e ao jantar. Foi então que mandaram vir uma companhia de polícia militar, que nos levou presos. A todos, porque nos recusámos a dizer quem foi o instigador da ação de protesto. E mesmo depois de presos nunca dissemos quem era. Éramos muito amigos. O grupo era especial.


NÃO DENUNCIÁMOS

Ficámos presos no quartel, perto do Grafanil, a quatro quilómetros de Luanda, durante cerca de dois meses, até que nos libertaram. Saímos em dezembro de 1966 e foi nessa altura que a tropa acabou para mim. Mas como não tinha nada para fazer em Portugal – nem namorada tinha – fiquei por lá. Afinal, Angola era a terra do futuro...

Empreguei-me na messe dos sargentos da Força Aérea e ganhava mais num mês do que na Metrópole em quatro ou cinco. Depois ainda fui trabalhar para a cantina, mas comecei a ouvir os sargentos e os oficiais a dizerem que aquilo ia ficar pior e decidi partir. Fui para a Marinha Mercante, onde trabalhei vários anos da minha vida. Até andei pelo Brasil, onde encontrei o meu pai, que nos tinha abandonado quando eu era pequeno. Foi ele que me foi procurar. Eu disse-lhe que lhe perdoava, mas que não me esquecia. Depois fui chamado a atender a uma emergência: fui a Uíge buscar o resto das tropas e os civis que ainda se encontravam em Angola. Foi isto no dia 11 de novembro de 1975, dia da independência. Quando cheguei a Portugal abri um pequeno café na Praia de Mira, com o qual me entretive até há bem pouco tempo. Agora, do que mais gostava, era de encontrar os antigos camaradas, com quem passei tanto. Bons e maus tempos.

João Carlos Pauseiro Santos

 

Comissão  

Angola, 1964 a 1966


Força  

Pelotão de Caçadores Independente 966


Atualidade

Aos 71 anos, é solteiro e está reformado. Vive na Praia de Mira

A Minha Guerra Guerra do Ultramar Guerra Colonial João Carlos Pauseiro Santos Angola
Ver comentários