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Aprender português: a obra de Camões ainda vive no Oriente

Escola portuguesa de Macau tem procura crescente. Número de estrangeiros tem aumentado. Ao todo, são 24 nacionalidades.
Paulo Oliveira Lima 24 de Novembro de 2019 às 11:00
Aprender português: a obra de Camões ainda vive no Oriente
Aprender português: a obra de Camões ainda vive no Oriente FOTO: Direitos Reservados

Celine tem 18 anos e estuda há seis na escola Portuguesa de Macau. Filha de pais chineses, descontentes com a rigidez do ensino daquele país e sem capacidade para continuar a pagar estudos na escola internacional, optaram por dar à filha a oportunidade de aprender mais uma língua: "Não achei difícil. Os colegas e os professores são portugueses e isso, na minha idade, facilita", revela, acrescentando que no fim do primeiro ano já estava adaptada ao nosso idioma. Celine faz parte dos 620 jovens inscritos no estabelecimento de ensino, que recebe alunos de 24 nacionalidades. Portugueses e chineses estão em maioria. Todos têm aulas em português, exceto nas disciplinas de Mandarim e Inglês.

Os serviços da escola funcionam em língua portuguesa, não havendo outra forma de comunicar no interior das instalações. O idioma é por isso um ponto de contacto importante entre alunos com histórias muito distintas. Vanessa, de 17 anos, não sentiu o choque cultural. Aluna do 12º ano, tem na língua de Camões o idioma do pai, nascido em São Tomé e Príncipe. Imigrante em Macau, casado com uma mulher chinesa, optou por matriculá-la nesta escola para proporcionar uma relação estreita com uma cultura que também é sua: "Em casa falo chinês com a minha mãe. O português é a forma de comunicar com o meu pai."

Quando falamos de contrastes culturais, Vanessa concorda com Celine. Ambas referem que as diferenças entre chineses e portugueses saltam à vista nos hábitos diários. E até os planos com os amigos são diferentes: "Com os portugueses saio e opto por atividades ao ar livre. Por outro lado, os chineses preferem atividades mais caseiras", lembra. Celine até dá um exemplo esclarecedor: "Sei que para ir a um bar tenho companhia dos portugueses. Os chineses preferem o karaoke", conta, entre sorrisos, num português claro cuja origem só é denunciada pelo ligeiro sotaque que em nada diminui a qualidade do discurso.

À distância, Pedro Silva, outro dos alunos matriculados nesta escola, observa a conversa. No seu caso, há uma história diferente para contar. Nascido em Portugal, mudou-se para Macau no quinto ano, quando os pais decidiram deixar Vila Real. A transição acabou por ser natural. " Para mim, foi apenas uma mudança de escola. Cheguei a um local onde todos falam português e fui bem acolhido. Foi apenas uma mudança de região", revela num tom seguro. Pedro não teve necessidade de aprender mandarim, pois nesse ano a disciplina não era obrigatória. "Sei que preciso de ter contacto com a língua. No dia a dia tenho de saber comunicar", admite.

Mas a língua portuguesa continua a ser a primeira escolha, mesmo no círculo de amigos mais próximo. A maioria, alunos desta escola. Nesses encontros, a atualidade portuguesa não é um tópico principal. Pedro admite que vê algumas notícias na internet mas não segue os canais portugueses de TV que tem. Vanessa e Celine fazem o mesmo. No caso da primeira, o conhecimento é maior fruto da relação com o pai. Já Celine, proveniente de uma família tradicional chinesa, o pouco que sabe do nosso país resulta de um curso de verão na Universidade de Coimbra, feito há um par de anos.

Para todos, Portugal é uma realidade distante que a língua, a internet e as redes sociais tornam mais familiar. Na escola portuguesa de Macau partilham o idioma mas não pensam viver no nosso país. Esperam que, em conjunto com o inglês e o mandarim, seja uma ponte para outros sonhos e projetos noutros cantos do Mundo.

A herança cultural Portuguesa
A escola portuguesa de Macau foi fundada em 1998, um ano antes da transição da administração de Macau para a China, e assumiu-se como veículo de preservação da nossa cultura naquele país. Resulta da fusão de quatro escolas que existiam durante a gestão portuguesa daquele território. Tem alunos entre o 1º e o 12º ano de escolaridade e, segundo o presidente da Direção, o currículo é idêntico ao lecionado em Portugal.

"Acrescem alterações resultantes da nossa localização, como o mandarim e a história e geografia da China", conta Manuel Peres Machado. Tutelada pela fundação Escola de Macau, tem cinco administradores, um dos quais nomeado pelo Ministério da Educação português, e segue a nossa legislação. "Somos representação da cultura, dos valores e da língua portuguesa a par, por exemplo, do consulado", revela Peres Machado.

As inscrições têm aumentado nos últimos anos. Os alunos do primeiro ciclo representam 40% do total de inscritos e, na sua maioria, não têm o português como língua materna: "Este ano, 75% dos novos alunos não tinham ligação a Portugal. No ano anterior, esse valor era de 60%. Há três anos, 40%", revela o presidente da Direção que sublinha uma vantagem imediata para os alunos: "A conclusão do 12º ano nesta escola permite entrar em todas as universidades portuguesas."

A identidade passa também pelos professores. Muitos estão na escola desde a sua fundação, tendo transitado dos estabelecimentos que existiam antes da passagem para a administração chinesa. Mas o aumento da procura obrigou a um reforço do número de docentes, nos últimos anos. Muitos são contratados em Portugal. Necessitam de um certificado que ateste as habilitações para o ensino e, no caso de pertencerem aos quadros do Ministério da Educação, de uma licença especial que tem de ser renovada todos os anos.

O crescimento da escola e aumento da importância perante a comunidade despertou inclusive a atenção do Presidente da República. Em maio deste ano, de visita ao local, Marcelo Rebelo de Sousa anunciou obras no estabelecimento para que possa receber mais alunos e continuar o seu trabalho de preservação da língua e da cultura portuguesas na região.

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