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Correio da Manhã

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"Aquele ataque foi um autêntico festival de tiroteio"

O inimigo quis mostrar-nos que não estávamos numa colónia de férias mas não houve mortos nem feridos.
Marta Martins Silva 24 de Novembro de 2019 às 10:00

Assentei praça na Carregueira em outubro de 1966. Após a recruta fui para o Porto para o batalhão de transmissões. Acabei a especialidade de radiotelegrafista como 1. Cabo. Passei pelo regimento de Infantaria 1 na Amadora e fui integrar a companhia de caçadores 1736 no regimento de Infantaria 16 em Évora. Embarquei no Vera Cruz com destino a Luanda onde cheguei na madrugada do dia 17 julho 1967. Encontrei uma cidade grande, moderna e limpa onde o cheiro a catinga se mistura com os odores tropicais.

Nos oito dias de Grafanil vinha diariamente a Luanda, aproveitando a boleia das viaturas militares que estavam constantemente a fazer esse percurso. Fiquei alegremente surpreendido ao saber que no consumo de cerveja na Portugália, o camarão era à borla.

Rumámos a Norte com destino a um aquartelamento chamado Calambata que fica situado na picada entre São Salvador do Congo e Santo António do Zaire, e onde permanecemos 24 meses.

A nossa missão era o patrulhamento e a vigilância de uma extensa zona na província do Zaire.

Cerca de dois meses após ocuparmos o aquartelamento sofremos um ataque noturno com granadas de morteiro. Nenhum dos projéteis causou danos significativos, não houve pânico nem situações dramáticas, não houve mortos nem feridos, mas foi um autentico festival de tiroteio.

O inimigo quis-nos mostrar que a Calambata não era propriamente uma colónia de ferias.

Operações de patrulhamento
As operações de patrulhamento no mato eram feitas a pé porque as viaturas não conseguiam progredir em picadas já cobertas de capim e pontes destruídas. Todos os dias tínhamos um ou dois pelotões em missões de patrulhamento. Nestas operações a nossa alimentação era ração de combate, o que não era nada mau porque o nosso vagomestre brindou-nos com 370 refeições de arroz com salsichas, era muito ‘poupadinho’.

Todas as quartas-feiras fazíamos o reabastecimento em São Salvador onde eu procurava ir cada vez que podia para saborear aquele frango no churrasco, criado debaixo dos mamoeiros.

Tínhamos um destacamento permanente na fazenda Primavera, talvez a única no Norte de Angola em que uma pequena parte ainda funcionava na produção de café.

Vi os velhos engenhos construídos pelos colonos , os cafezeiros espalhavam-se pelo meio da mata, era a prova que se podia explorar a terra com respeito pela natureza.

No morro defronte da Calambata, construímos um novo aquartelamento, já tínhamos direito a balneários e luz elétrica dentro das casernas, porque foi-nos fornecido um gerador industrial.

Como era da minha profissão, distribui o meu tempo entre o posto de rádio e a ferramenta de pedreiro. O que me deixou menos tempo para escrever às minhas madrinhas de guerra.

Na primeira saída com os ‘maçaricos’ que nos foram render deparámos – o que era normal – com uma pequena manada de pacaças, um furriel maçarico começou a armar uma bazuca, valeu a intervenção do nosso comandante de coluna que lhe deu um puxão de orelhas e lhe fez ver que não estávamos ali para destruir, mas sim para defender e respeitar a natureza.

Só se matava caça que era necessária para a nossa alimentação.

Penso que os nossos governantes sabiam, assim como todo o povo, que a independência era inevitável mas que devia ser feita com o respeito pelo povo Angolano e por todos aqueles que marcaram as fronteiras e ergueram cidades. A Guerra Civil que se seguiu com a chacina de tantos milhares de inocentes em nome do poder e da riqueza, prova quem tinha razão.

Desembarquei no Cais da Rocha em 23 de Agosto de 1969, com a convicção de dever cumprido.

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