Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM

As erupções do vulcão amigo da Ilha do Fogo

Nunca matou ninguém - daí a razão que a cada erupção voltem sempre a Chã das Caldeiras
Fernanda Cachão 22 de Dezembro de 2019 às 12:00

Alfredo reformou-se no início da intervenção da troika, depois de mais de trinta anos a trabalhar em Portugal mas quando terminou o programa de ajustamento fez as malas e voltou à sua terra, Chã das Caldeiras, "a tempo das lavas" - conta à porta da casa que recebeu da autarquia de Viseu, que patrocinou habitações para acolher as famílias deslocadas pela última erupção em 2014. Para trás, no Bairro da Bela Vista, em Setúbal, ficou ainda a sua irmã.

A 23 de novembro daquele ano, o vulcão da ilha do Fogo mostrou-se pela manhã e derramou lava durante setenta e sete dias, que engoliu casas e paisagem, mas há cinco anos como em 1951, quando o geógrafo Orlando Ribeiro esteve na ilha, ou em 1995, ninguém morreu. Facto fundamental que alimenta a teimosia do povo de Chã das Caldeiras que a cada erupção foge à frente das lavas, chora, desespera por vê-las cobrir de preto escaldante o esforço e o trabalho de anos mas no fim, quando o vulcão descansa, volta sempre.

Assim que puder, também Alfredo voltará à casa que reconstrói.

Património da Humanidade

Como na última vez, em 2014, a erupção de 1995 apanhou de surpresa "as autoridades e a população, apesar das pessoas da Chã terem levado em consideração alguns sinais como barulhos subterrâneos e a queda de rocha", conta Fausto do Rosário. Nesse ano e apesar de estar já enraizado o modo de vida junto ao vulcão, as pessoas fugiram desesperadas, o que deu origem a uma série de medidas que culminaram com a construção de dois bairros de realojamento. "Mas assim que o vulcão acabou o seu trabalho e a erupção dada como extinta voltaram para lá ignorando a natureza, a lei e a ordem", conta aquele professor, tradutor e coordenador do Museu Etnográfico de São Filipe, também ele fascinado pelo vulcão e que costuma ir à Chã quando quer "ouvir o silêncio".

O decreto-lei nunca respeitado que impedia as pessoas de assentar em Chã das Caldeiras acabou revogado pelo governo que autorizou o estabelecimento de pessoas, mas sem direito à propriedade.

Quase vinte anos depois dessa aflição, na de 2014 os sinais de atividade iminente "não foram levados a sério, acabando a erupção por acontecer num momento em que o município de Santa Catarina comemorava o seu aniversário e a sua santa padroeira e, também por isso, se criou muito alarde", conta Fausto do Rosário.  

Há cinco anos - segundo o investigador - a erupção revelou a verdadeira natureza do vulcão que até então se acreditava ser do tipo vulcaniano, emitindo material pesado de deslocação muito lenta e que praticamente não oferecia perigo. Verificou-se que essa é apenas a primeira fase da erupção, a que depois se "seguiu mês e meio de uma lava extremamente fluida, parecida à do tipo havaiano, que corre a grande velocidade soterrando tudo à sua passagem".

Na erupção de há cinco anos, que entrou pelo novo ano adentro, desapareceram povoados como a Portela e a Bangaeira, que começam agora teimosamente a ser reconstruídos no mesmo local, à mercê do vulcão onde dois montes vulcânicos nascidos em 1951 e batizados com os nomes de Rendall e Orlando, recordam a primeira expedição do geógrafo português professor Orlando Ribeiro. Desde 2014 que sabemos que na ilha do Fogo está um vulcão misto, que "o seu ciclo está muito menor e irregular, e bem vivo".

Ali habita, segundo Fausto do Rosário, "um tipo humano que é único, que é a gente da Chã" - David contra Golias, gente capaz de desafiar a natureza e as estruturas administrativas para permanecer num espaço que considera seu por direito próprio: "Eu defendia a elevação de Chã das Caldeiras a Património da Humanidade. Muita gente pensa que os meus argumentos mais sólidos são aquela paisagem lunar, a caldeira com mais de doze quilómetros, a existência de plantas endémicas mas não, o meu argumento mais forte é a própria comunidade de Chã das Caldeiras", diz Rosário.

A tese do professor apoia-se em histórias como aquela de 1933, quando houve a revolta das pessoas da Chã, onde nunca nenhuma autoridade colonial tinha até então posto o pé. Certo dia desse ano foi um fiscal das Finanças para exigir o manifesto do gado, em grande número lá em cima, onde porém não abundava o dinheiro. O fiscal multou toda a gente e acabou corrido. Depois foi a vez da polícia e teve de vir uma canhoneira e as tropas da Cidade da Praia para cercar o lugar e trazer as pessoas para baixo, embarcá-las e levá-las para inaugurar a cadeia civil daquela cidade, onde passaram seis meses.

Fausto do Rosário, que tem a sua conta de erupções, conta que desta vez viu no melhor guia turístico de Chã das Caldeiras, Alcino, outra prova para mostrar à UNESCO: "Ele tinha acabado de inaugurar o seu próprio turismo com felicitações de todo o Mundo e não demorou uma semana para que o vulcão entrasse em erupção e não mais de duas semanas para que a casa ficasse toda soterrada. No dia em que a casa ficou soterrada, coincidiu com o desaparecimento de duas povoações, e pelas seis da tarde, desanimado e triste, destroçado, encontro-me com Alcino com três cabras atrás dele, dois vasilhames de água e um feixe de palha enorme à cabeça.

- Alcino, o que é isso?, pergunto-lhe eu.

- É o que me resta, mas eu tenho de continuar, respondeu-me ele."

Pobreza censurada

A viúva de Orlando Ribeiro, a geógrafa Suzanne Daveau, de 94 anos, conta-nos por e-mail que o interesse do geógrafo com quem casou em 1965 pela paisagem lunar do Fogo começou quando ele "fez uma curta escala na ilha de Santiago em 1935, quando fazia parte, como jovem docente, do Cruzeiro de Férias organizado no Atlântico pelo governo". "Ficou com grande desejo de conhecer melhor as ilhas e, sobretudo, a sua gente. Apenas conseguiu verba para isso em 1951, usando o pretexto da erupção", esclarece Daveau que continuou a publicar depois da morte do marido, em 1997, a sua extensa obra.  

Orlando Ribeiro voltou de novo à ilha, de dezembro de 1952 a janeiro de 1953, para melhor estudá-la. O livro que o geógrafo escreveu, ‘A Ilha do Fogo e as suas Erupções’ - há muito esgotado nas livrarias - estava já impresso em 1954, pela Junta de Investigações do Ultramar, mas só foi difundido em 1957 porque o último capítulo, intitulado ‘As crises: miséria e redenção’, "desagradou ao governo". O geógrafo escrevia logo a abrir nesse Capítulo VII: "É impossível falar da vida em Cabo Verde sem dedicar atenção especial às crises, expressão um tanto eufémica que se aplica aos anos de fome e de miséria, em que se perdem as colheitas, os gados perecem à míngua de pasto e as pessoas sofrem o flagelo da fome, a que não raro pagam o tributo de alguns milhares de vítimas. Pela frequência com que ocorrem, elas dominam realmente a vida das ilhas. Qualquer homem adulto conheceu alguns destes anos maus, que lhe deixaram a lembrança no corpo debilitado ou nas cenas de dor e miséria para sempre gravadas no seu espírito" - e logo adiante explicava Orlando Ribeiro: "A causa das crises é de natureza climática" que trazem "colheitas deficitárias" a todo o arquipélago, mas no Fogo, nota o investigador, moram os "verdadeiros filhos da seca" - a carência de minerais levava as crianças a comerem terra.

Suzanne Daveau conta que ‘A Ilha do Fogo e as Suas Erupções’ ainda teve uma segunda edição, idêntica, em 1960. A terceira foi preparada pela própria em 1998 e editada pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. A última é da autoria da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) já em 2015. "O Orlando teve sempre muita vontade de voltar, mas apenas o conseguiu em 1985, a convite do Presidente da República de Cabo Verde. Foi um último grande prazer para ele, reviver os dias de juventude em companhia de alguns velhos amigos", conta a geógrafa de 94 anos.

Uma couve-flor

"A sul da base do grande cone, elevavam-se colunas de fumo que a certa altura se fundiam numa espécie de ‘nuvem de grande desenvolvimento vertical’, até a uma altitude estimada em 9000 m. É o característico aspecto do penacho vulcânico, com o pedúnculo alargado em forma de couve-flor", descreve no livro Orlando Ribeiro a erupção de 1951, e de alguma forma as outras que se seguiram, pois assemelharam-se pelo menos na forma inicial. A última, a de 2014, terá sido a mais devastadora. Ainda que a lava não tenha extravasado o território de Chã das Caldeiras, os prejuízos rondaram os 50 milhões de euros. Aldeias inteiras desapareceram. Nalguns pontos, a lava chegou a ter 25 metros de altura, mas é aquela paisagem e a imponente presença que alimentam a esperança de pôr o Fogo no roteiro dos turistas que procuram Cabo Verde, manifesta atualmente por algumas iniciativas, no entanto, distantes do perfil dos grandes grupos turísticos que ocuparam a ilha do Sal.

Na soleira da porta da sua casa já reconstruída, Silviane, de 24 anos, arranja feijão congo - uma leguminosa que se assemelha à vagem das ervilhas - para depois ir vender a São Filipe, o maior dos três concelhos da ilha, a cerca de uma hora de Chã das Caldeiras. A 23 de novembro de 2014, Silviane estava grávida e ia ter, dali a dias, o primeiro filho. Com os velhos e outras na mesma condição que ela, foi uma das primeiras a sair do lugar. O vulcão anunciou-se primeiro com uma espécie de rugido e depois "pum, pum", explica com naturalidade Silviane que papagueia, junto à filha entretanto nascida, aquilo que se ouve na boca de toda a gente: "O vulcão é amigo de nós."

Mais à frente, Zenita Montrond tem a sua bela casa, onde recebe com orgulho os visitantes, agora mais do que tinha sido o costume, por causa da sala onde a mesa de jantar cedeu protagonismo a um enorme vómito do vulcão.

A casa não foi totalmente afetada e Zenita e o marido resolveram limpar, reconstruir o que havia para ser reconstruído e, em sinal de respeito por aquele cone que se avista, deixar sossegada a lava solidificada que tomou conta de parte da sala de jantar.

"Em 1995 tinha oito anos e, porque foi à noite, parecia um sonho. Em 2014 foi de manhã e um caos e então achámos que, como a lava parou e poupou a nossa casa, não devíamos mexer naquilo que ele nos deu", conta Zenita que, para os ratos que os canais retorcidos da lava solidificada abriram passagem para dentro da sua sala imaculada, mantém três gatos matreiros de estimação.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)